Esse
post surgiu por três razões.
A
primeira foi de uma discursão que eu tive anos atrás por telefone com um dos
meus melhores amigos. A gente adora até hoje “Um Maluco no Pedaço” (nome bem
mais legal que o título original, vale frisar) e ele tava vendo a nova versão “adulta
e atual uhhhhh” dessa série e quanto mais ele me contava sobre as mudanças que
fizeram, mais eu ia ficando puto na conversa. Até que ele me disse em tom seco:
“Os anos anos 90 foram ótimos, eu não tô discutindo isso com você, mas eles foram há trinta anos atrás”.
Realmente,
ele me pegou nessa. Eu me apego muito ao passado, não tô querendo negar isso.
Mas, mais do que me apegar ao passado, eu tava tentando bater o ponto de que a
série original protagonizada pelo Will Smith tinha o seu viés a esquerda,
discutia vários “temas sociais”, mas com bastante inteligência e sem discurso
pronto. A história era muito mais universal, você se identificava com os
personagens sem precisar cair no identitarismo formulaíco de hoje em dia.
A
segunda razão é que eu sempre quis escrever um post dedicado sobre um dos
ambientes que eu mais gostava de passar horas do meu dia: locadoras de
videogame. E como isso foi perdido por boa parte das gerações seguintes, que
jogam mais no celular, ou no console, só que de forma mais online. Nos últimos
anos eu cheguei a rascunhas algumas coisas, e tive que fazer rescritas quando
descobri que, por mais reduzidas, nichadas e “ocultas no mapa” ainda existem
locadoras. Longe de serem aquelas casas que enchiam de gente entre os anos 80
aos 2000, mas... Ainda existem, sigo até um canal no Youtube de um dono de uma
delas que descobri que o estabelecimento do cara fica em uma cidade dentro do
estado aonde eu moro, coisa de 70 KM de mim, dá até pra ir lá de bicicleta só
pelo passeio e apoiar a iniciativa. Mas, tem que ser um dia que eu esteja bem
disposto, já que com a volta, devo gastar coisa de umas 8h pedalando, fora o
tempo que jogaria lá.
E
o terceiro e último motivo é que como tantas coisas que eu demoro tanto pra
fazer, o meu inconsciente acaba me martelando nos sonhos até eu acordar e fazer.
E essa semana, acordei justamente com algumas ideias finais pra esse post. Não
tô brincando, eu acordei, tomei um café preto e fui rascunhando isso aqui:
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| Gostaram da caligrafia? Heh |
Alongando
um pouco mais a introdução, a ideia desse post aqui não é ficar totalmente preso
ao passado. É só um balanço de coisas que a gente tinha até os anos 2000 e
foram sendo substituídas pela tecnologia. Não é um manifesto sobre querer que o
tempo pare e as coisas não evoluam. A maioria dessas coisas só foram
reformuladas.
10.
Giz, apagador, quadro negro...
Foi
com isso que eu sonhei e acordei com a ideia de fazer o post. Não lembro de
muitos detalhes do sonho, mas lembro que surgia essa dicursão sobre toda essa
arte antiga de ensino ter se perdido. Talvez eu tenha ficado com o texto doAzarão sobre ter se aposentado da sala de aula preso na memória, mesmo após anos
de publicação do texto. O fato é que primeiro o apagador e giz foram substituídos
pela lousa e piloto. E estes deram lugar a aulas cada vez mais digitais. Por um
lado isso é ótimo, já que a garotada de hoje aprende muito mais por meios
digitais, acho que o meu filho aprendeu mais com o Youtube Kids bem
direcionados do que com os poucos anos que tá na escola. (é sério, o menino com
4 anos já tinha aprendido o alfabeto russo), por outro deixa uma certa saudade
dessa conexão maior entre mestre e aluno, onde o professor tinha que muitas
vezes dar sonoros tapas no quadro pra recuperar a atenção. Quando eu ainda tava
no ensino médio, haviam vários professores que agradeciam por essa mudança,
segundo eles, muitos professores tinham uma alergia severa ao pó do giz. Se o
Azarão ler esse post, vai poder falar sobre esse tópico com muito mais propriedade.
09.
Datilográficas
Desde
criança eu sou fascinado por essas máquinas que dominaram por décadas antes dos
computadores se popularizarem. No meu imaginário do que é um escritor sempre
imagino um cara de terno, cigarro no bico e uma datilográfica a tira colo.
Talvez eu esteja apenas descrevendo o Orwell, mas esse é o meu arquétipo. Tive
(e ainda tenho) uma Olivette 82, talvez o modelo mais popular de máquina aqui
no Brasil quase dez anos antes de ter um PC. Foi com ela que eu comecei a pegar
o gosto pela escrita, na verdade. Se é que dá pra chamar isso aqui de escrita.
Foi graças a ela que os meus teclados de computador nunca tiveram uma vida
duradoura. Só que convenhamos, quando o Word surgiu, ele conseguiu suplantar a
máquina em quase todos os sentidos. Escrever na máquina levava muito mais
tempo, quem tinha raça no oficio conseguia escrever de forma artística com a
margem ajustada sem nenhum auxílio automático, não tinha essa de ficar apagando
o tempo todo, tinha que ser preciso no que dizia e muitas vezes refazer todo o
trabalho. Em compensação, a máquina em forma de maletinha era muito mais
compacta do que muito notebook. Nada de eletricidade a princípio, só colocar a
sua folha e o seu texto está real ali na sua frente, algo que uma impressão não
consegue passar. O Superman explica um pouco de como eu me sinto quando uso a
minha:
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| Superman e Mulher-Maravilha #13 |
08.
Mimeógrafo
Esse
item e o seguinte podem ser considerados encheção de linguiça, mas senti que
mereciam esse espaço. Acredite ou não, mas essas impressoras que hoje em dia
quase todo mundo possui em casa até os anos 2000 eram bem salgadas (assim como
ter um PC, por isso tantas “lans” que merecem um post a parte). Esse tipo de fotocopiadora
manual, a base de álcool e do azul era o que salvavam as escolas. Quem fez
faculdade até os anos 90 pode até sentir o cheiro de provas que fez no passado.
07.
Fax
Esse
item para mim é o mesmo que eu sinto pelo Game Cube: eu sei que existe, mas
nunca peguei em um. Acho que nunca chegou a se popularizar como as impressoras,
embora fosse algo que considero até mais avançado do que a gente tem hoje em
dia. Acho que ficou mais preso aos ambientes profissionais.
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| Foto que eu tirei pra provar a um amigo meu que ainda existiam orelhões na cidade |
06.
Orelhão e telefone residencial
Eu
gostava muito de colecionar cartões, e antes desses, eu colecionava fichas. Nos
anos 90 quase tudo era a base de ficha: Game Station, a sinuca do bar da esquina
(ok, isso ainda usa fichas), fliperama, orelhões... E os telefones residenciais
eram caros pra cacete. Não existia isso de você poder conversar por vários minutos
com alguém de outro estado de forma impune. Ainda assim, em um período onde os
celulares eram mais caros do que são hoje, era o que salvavam a gente. Mas, como quase tudo na terra do “hihi, levei
vantagem”, os orelhões eram depredados, roubados, tinham pessoas que de alguma
forma faziam ele “engolir o cartão” e vários outros estresses. Eu ainda acho
alguns pela cidade, todos obviamente sem funcionar, às vezes só a carcaça, mas
a nostalgia deles é tão grande que tem ruas que eu passo hoje em dia e lembro
exatamente de onde costumava ficar localizado alguns deles. Vale pontuar que em
muitos países desenvolvidos, mesmo com todo mundo tendo celular, ainda existem
cabines telefônicas. E os residenciais ainda sobrevivem mais em portarias de condomínios, hospitais e afins. Perdeu o sentido ter um na sala de qualquer pessoa hoje em dia.
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| Pensar que "um dia desses" eu tava jogando o Super Street Fighter II numa locadora |
05.
Locadoras
Talvez
todo o post tenha sido uma desculpa para falar sobre isso. A locadora de games
vai ser um tópico a ser aprofundado em um post à parte, assim como a nossa relação
com a mídia física em si. O que eu posso
dizer é que mesmo tendo consoles em casa, é irreplicável o que eu vivi em
locadoras. O mesmo para locadoras de filmes, onde eu ainda cheguei a pegar os últimos respiros do VHS lá no fim dos anos 90 e a transição pro DVD. Hoje em
dia a gente tem catálogos mais extensos, muito mais opções e de forma muito
mais prática. Não tem mais aquela de ir várias vezes na locadora pra “esperar a
sua vez de locar”, mas muito do fator humano se perdeu. Não existe mais aquela
busca detalhada, conversa com o balconista, pegar um filme só pela capa e poder
descobrir sem querer um novo clássico, ou mesmo aquela conversa sincera com
outros clientes da locadora enquanto escolhia, quem dirá se juntar com a família
numa num de semana na sala numa TV de tubo de 29 polegadas, que era luxo até os
anos 2000. Logicamente que hoje em dia é tudo mais fácil com o nosso controle
remoto.
04.
VHS, DVDs, CDs...
Uma
extensão do tópico anterior. Muita gente gosta de colecionar (e estou entre
essas pessoas). Só que as megacorporações tão cada vez mais empenhadas em não
mais te vender o produto, mas “alugar a licença dele”. Hoje em dia eu ainda
vejo a venda de CDs e DVDs em camelôs, mas é o mesmo sentimento que eu tenho
quando vejo sebos. É quase que um túmulo de alguém querido que a gente vai visitar.
E sou um pouco autocrítico ao acúmulo de tanta coisa que muitas vezes nem vou
rever. A título de curiosidade, tenho algumas séries de DVD que comprei usado
pela OLX (tipo um box com as 15 primeiras temporadas de Law and Order SVU). Paro
pra procurar onde tá o controle do meu DVD e assisto tudo em ordem? Nunca. Em
vez disso fico vendo episódios reprisados e fora de ordem na TV à cabo com o
meu tio e surtando porque a cada 15 minutos entram uns 4 minutos de propagandas
repetidas e eu tenho que ficar apertando na tecla mute. Hoje em dia é mais
fácil eu baixar um filme ou procurar no streaming do que vasculhar em uma longa
coleção por aqui. Pegar um CD de uma estante e colocar no tocador de discos?
Pior ainda. Só dou play em vários MP3s que ficam no SD do meu celular. O leitor
de discos foi derrotado de maneira irreversível pela entrada USB. A vitória final
foi nos aparelhos de som dos carros ou mesmo nos PCs de hoje em dia que vem sem
o leitor.
03.
Brindes nos Sheetos e afins
Essa
realmente dói. Cards de Pokemón, bonecos da Marvel para montar, de mitologia
grega... Geloucos, pokémons que vinham na guaraná, tazos... Tudo isso se tornou
inviável graças a mão pesada do Estado que num belo dia disse que tudo isso era
propaganda indevida pra crianças. Caralho, você não tava levando uma criança pra
jogar no tigrinho, no máximo pra ficar chateando no supermercado pra levar umas
pipocas a mais, algo que costumava ser o lanche. Agora, ouvir funk ensinando a
cometer todo tipo de abuso, aí é liberado, é cultura. Mas, ter os seus bonequinhos,
aí não. Eu tinha todos esses itens citados, uns regularam de mim, e outros
acabei passando adiante no começo da fase adulta por sentir que “tava grande demais
pra manter”, como uma caixa de sapatos com vários dos bonecos da Marvel. Uma das
várias burrices que eu cometi. O máximo que tem de sucessor disso daqui são
aqueles bonecos meio sem graça em McDonalds da vida, sem o mesmo apelo.
02.
Blogs
Sim,
somos dinossauros vendo fogos de artifício ao longe. Cada dia que eu abro o blog, abro com um certo temor de um
dia chegar uma mensagem do Blogger de que essa plataforma vai ser descontinuada,
como fizeram com o G+. Os blog tiveram um estouro entre a metade dos anos 2000
e a metade dos anos 2010 e logo isso foi continuado para os vlogs no YouTube
até chegar ao ponto desses vídeos de 15 segundos com alguma coisa passando ao
fundo pra que as pessoas não rolem pro próximo. É a lógica do mercado, eu
aceito isso. Por isso que cada comentário e compartilhamento, mesmo em menor proporção,
ajuda a manter esse espaço vivo. Mas, eu sinto lá no fundo que um dia o nosso
fim aqui vai chegar. Vamos ter que “nos mudar” para um site, vídeos, eu realmente
não sei. Ou só acabar, como vários outros espaços.
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| Só de olhar dá vontade de tirar da caixa e reler tudo por dias |
01.
HQs mensais, sebos ou mesmo esse hábito extinto de ir comprar gibis em bancas
Eu
não sei vocês, mas eu cresci em bancas e sebos. Esse é outro tópico que dói,
mas tem que ser falado. Eu conto nos dedos as bancas de revista na cidade que
ainda vendem gibis, e é algo feito mais necessariamente pela insistência e
manter o nicho do que pela recompensa financeira. Sempre que eu ando pela
cidade, olho de canto de olho as bancas de revista e a última coisa que tem
nelas são revistas. Tem cigarro, doce, água, alguma bebida sem álcool, talvez
caça-palavras, algumas até tem jornais. Mas, o que eu tinha na minha memória
como “banca de revista”, um lugar que eu ficava maravilhado por ter sessão de
gibis, revistas de política, de “mulher pelada”, jornais e até livros (sim, até
livros!! sem falar dos colecionáveis, tipo “monte um avião, monte um dinossauro”)
simplesmente se foi. “Não há mais clima” para revistas pro público masculino
(ainda é considerado um público? Na moral mesmo), qualquer site no canto do
celular já dá todo tipo de notícia, fazendo uma capa de uma VEJA da vida não ter mais nenhum impacto, lá se foi esse tempo de “o irmão do Collor conta tudo”
e o Brasil parava. Hoje em dia fazem coisa muito pior e tudo vira só piada. Até
os jornais televisivos soam datados.
No
quesito dos gibis, as pessoas tanto tentaram que acabaram com os mix, que era
algo que barateavam as mensais e agora choram porque pagam 20 conto ou mais por
50 páginas. Lá atrás, quando a Panini diminuiu muitos títulos de 100 páginas
para 75, isso a coisa de quinze anos, eu já vi que as coisas não tavam indo por
um bom caminho. Hoje em dia seria muito mais viável que tudo fosse publicado em
encadernados com 6 histórias. A mensal em si, ao menos a nossa mensal BR perdeu
todo o charme que tinha. Sem mix, não tem mais a chance de se descobrir mais
histórias, não existe mais sessão de cartas ou até mesmo surpresa com o que vai
ser publicado, tudo isso a gente já tem acesso em tempo real. Tudo se caminha
para ter um grande streamingzão com esses gibis para que o público gigantesco
que já lê em scans simplesmente pague por isso.
E
os sebos? Ainda visitei alguns no ano passado, comprei várias coisas que nem
li, só guardei aqui. Fui lá muito mais pela sensação de “visitar o passado” e
ajudar a manter essas lembranças vivas do que por qualquer praticidade. Quase todos
os livros e gibis usados que eu tenho de 2018 para cá eu comprei pela OLX. Só chegar
no chat, fazer uma oferta, ou pagar muitas vezes um preço que tá muito mais do
que justo (quem porra dá valor à leitura aqui no Brasil?) e ir pegar com a
pessoa, ou ela enviar pelo correio. Isso é o mais próximo de sebos que a gente
tem hoje em dia.
É
isso. Sente falta de algo da lista? Romantizei demais o passado? Deixe nos
comentários. E aproveitando que eu tava falando de mensais, vou meter algo aqui
que sempre tinha nelas e me deixava empolgado (o que daria até um post sobre
isso), e me vou:
*E na próxima edição:

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