Hoje eu saí cedo com o cachorro e tive a impressão de estar atravessando um lugar que ainda não acordou. A cidade parecia suspensa, como se alguém tivesse apertado um botão de pausa depois da meia-noite. As ruas estavam quase vazias e o chão carregava os rastros de quem celebrou demais. Copos quebrados, embalagens rasgadas, restos de comida que já começavam a cheirar, garrafas jogadas como se não fossem de ninguém. Tive uma sensação estranha de estar andando por um cenário que foi usado e abandonado. O cachorro farejava tudo com entusiasmo, como se para ele aquilo fosse uma arqueologia da alegria. Para mim, era mais um lembrete do quanto as pessoas apostam em algumas horas, como se dali dependesse a vida inteira.
Passei por uma esquina onde ontem
ouvi música alta. Hoje havia apenas um portão meio aberto e um eco de silêncio.
O vizinho que sempre conversa estava sentado na calçada, com um copo de café,
olhando para o nada. Ele me deu bom dia com aquela voz baixa de quem ainda está
voltando para dentro do corpo. Segui até a praça. Normalmente ela é barulhenta,
cheia de crianças, pessoas caminhando, conversas atravessadas. Hoje, só o
barulho das folhas sendo varridas. O senhor da varrição empurrava a sujeira
para o canto com paciência. Sem raiva, sem pressa. Como se soubesse que todos
os anos é igual, e que todo excesso termina na mesma pá.
Na padaria senti um cheiro de pão
misturado com cansaço. O atendente me reconheceu, mas nem tentou conversa.
Sorriu de leve e entregou o troco. Na TV, reprise de fogos, abraços, promessas
repetidas. Parecia que o mundo precisava convencer a si mesmo de que algo
extraordinário havia acontecido. Eu olhei por alguns segundos e tive a sensação
de que o espetáculo e a vida real raramente conversam entre si. Um fala alto. O
outro cochicha.
Voltando, percebi que as calçadas
estavam sujas de um jeito que não é só sujeira física. É como se a cidade
revelasse por algumas horas o que normalmente escondemos. Exageros, pressas,
desejos que tentam resolver em uma noite aquilo que não conseguimos mudar no
ano inteiro. Pensei nas promessas feitas entre taças. Nos planos que já
nasceram cansados. No jeito como a gente insiste em brigar com o tempo, como se
ele tivesse alguma obrigação de nos recompensar só porque viramos a página do
calendário.
Em casa, lavei as patas do
cachorro e deixei ele se esparramar no chão. Ele dormiu em segundos, como se
nada tivesse acontecido. Abri a janela e deixei entrar aquele ar novo, mas sem
glamour. “O ar do dia seguinte”. Olhei para o bairro e tive a impressão de que
o mundo respira melhor quando não precisa fingir. Nenhum discurso, nenhuma
contagem regressiva, nenhuma frase motivacional. Só o ritmo normal tentando
voltar. Nisso, percebi que eu tinha tirado uma foto de todo aquele marasmo e
usei ela de referência pra rabiscar alguma coisa com o meu 6b.
E foi aí que percebi que gosto
mais desse momento do que da euforia.
