Parábola - Homenagem a Stan Lee (Parte V)

By Douglas Joker - dezembro 30, 2018


"Galactus é poderoso, mas apenas os covardes ou bajuladores veneram o poder. O que há de divino em mostrar força? O que há de sagrado na brutalidade?"

"Parábola" não é nenhuma obra-prima, mas se tornou cult por várias razões, então fazer uma análise dessa HQ me pareceu uma boa forma de fechar a homenagem ao falecido Stan Lee. Muitos anos antes de surgir o selo MAX, a Marvel tinha o selo "Epic", de onde saíram muitas publicações diferenciadas que fugiam do padrão da editora. Daí vinham histórias de terror, histórias medievais como "Conan" e "Marada" entre outras coisas diferenciadas, como o surrealista "Elektra Assassina".

Pela capa já dá pra ver como é diferente

Foi nesse selo que escolheram publicar a união entre Stan Lee e o quadrinista francês Moebius. Os dois haviam se encontrado e trocado uma ideia, então surgiu a ideia editorial dos dois produzirem algo juntos. Curiosamente, apesar do Surfista Prateado ser um dos personagens que Lee mais gosta, tendo até ciúmes que outros autores trabalhassem com ele quando era mais novo, quem escolheu fazer a história com esse personagem foi o desenhista! O personagem surgiu nas clássicas páginas do Quarteto Fantástico e depois passou a participar frequentemente do Universo Marvel, onde muitas de suas histórias solo contavam com um tom mais crítico e filosófico.


"Fé sem julgamento apenas degrada o espírito. Eu pensei em abandonar a raça humana, deixar o mundo aos seus loucos anseios. Mas talvez o louco seja eu... por ter ficado aqui."

O Stan então faz um roteiro aberto, entregando seis páginas com a história para o Moebius desenhar conforme achar melhor, depois Lee preenchendo os quadros, balões e onomatopeias. Na história que foge do cânone da Marvel, o alien Galactus retornou à Terra, mas apresenta um discurso diferente do que estamos acostumados. Ao invés de chegar falando que tá com larica e vai comer o mundo todo, ele diz que sob seu poder estão todos libertos de qualquer doutrina moral e podem fazer o que quiser para realizar seus desejos.


Por mais que a homenagem seja pro Stan, quem rouba o show é o desenhista europeu. O Galactus, vilão da história, já é um dos personagens mais cativantes visualmente da cultura pop (tanto que é difícil explicar porque até hoje ele nem foi decentemente adaptado no cinema ou nos videogames, com a grandiosidade que apresenta nos quadrinhos). Criação inspiradíssima de Jack Kirby, o personagem já foi ilustrado mil vezes por caras como John Byrne, mas a versão de Moebius consegue se destacar. Apesar do artista ter admitido que foi um dos trabalhos mais difíceis que já fez, por ser fora de sua área, vendo o resultado não sobra dúvida que ele saiu por cima.

A delicadeza do cara fazendo um personagem tão truculento e destrutivo traz um diferencial.

No ambiente caótico que se estabelece, Stan mostra pessoas inseguras que precisam se fortalecer depositando sua fé em algum tipo de mito religioso. Aí ele claramente critica as instituições religiosas e o fanatismo de seus seguidores. Sendo uma história pequena, que você pode terminar tranquilamente em menos de uma hora, tudo acontece de forma truculenta, com os caras indo direto ao ponto. Há um sacerdote maluco que quer se aproveitar da presença do Galactus pra dizer que pode transmitir a mensagem do gigante pras pessoas, então elas devem segui-lo. Sendo televisionado, ele lembra pastores evangélicos.

"Minha igreja já alcançou milhões por meio da tevê... mas o público é instável e eu fui perdendo adeptos. Galactus mudará isso!"


Uma das coisas que eu mais gosto é a forma que o surfista é introduzido na história, realmente aparenta ser um pária existencial. Ele serve como uma referência de sensatez entre as pessoas fanáticas e violentas e o Galactus com sua nova proposta para atacar a Terra. Apesar do desenvolvimento do enredo não ser muito exemplar, Stan mostra porque entrou na festa caprichando nos seus diálogos. O cara deixa claro que se sente fortemente incomodado com a forma que as pessoas usam a religião, tendo sido um ateu assumido desde jovem, provavelmente isso só não sendo um fato muito conhecido pelo teor mais juvenil das histórias em que trabalhava, e é claro, o fato dos enredos terem sido sempre muito mais desenvolvidos pelos desenhistas do que por ele.

"-Mas Galactus é um deus... deve ser obedecido.
-Obedecer? Obedecer quando crianças destroem suas escolas? Obedecer preceitos que jogam irmão contra irmão e... aprisionam os desamparados?"


Do jeito que já estamos acostumados, o Surfista está sempre refletindo, seja em monólogos, ou diálogos em que tenta encontrar esperança pela humanidade enquanto encara a loucura e o fanatismo. Quando tudo se resolve, o protagonista tem uma última chance de falar com as pessoas rendendo em uma das cenas mais interessantes da história, tanto que a sequência abaixo sempre começa a rolar pela Internet em épocas de eleição.


"Parábola" é bonito e questionador, não sendo difícil entender porque ela se tornou tão cultuada. Eu falei logo no início do texto que não é nenhuma obra-prima porque qualquer história com Thanos e o Adam Warlock eu acho que já é mais competente em refletir sobre esses mesmos temas, ou até algumas dos X-Men, mas não significa que ela seja ruim. Foi republicado há pouco tempo e pode ser encontrado facilmente por um preço acessível; na minha cidade tem até nas bancas e livrarias.

"-E por que você mente, fazendo-os pensar que é um deus?
-Deus não é poder? Deus não é força? Eu nunca vi uma divindade. Quem pode me garantir que eu não seja um deus?
-Uma verdadeira divindade é amor, graça e conhecimento supremo. Ainda assim, com todo o seu poder, você desconhece o sentido da vida."


Além de fazer um crossover criativo único entre dois gigantes da nona arte, conhecemos um lado raramente revelado do Stan, quase sempre o tiozão comédia e simpático, de repente contando uma história com pouquíssimas sequências de ação, mas bem melancólica do início até o fim, se mostrando pessimista quanto ao destino da humanidade, mas levantando a razão e lucidez como caminhos de esperança. O que me faz ter mais carinho por ela para coloca-la aqui é a forma sincera e despretensiosa que trata de temas sérios e interessantes. Meio que resume o que me faz gostar dessas HQs. Os gibis do Frank Miller com certeza não são um tratado sobre corrupção, os do Kirby sobre a tecnologia da Guerra Fria, os do X-Men sobre preconceito, ou Parábola sobre religião e hipocrisia. Mas eles são divertimentos que enquanto nos fazem viajar, nos dão viagens interessantes de grande qualidade. Viagens das quais provavelmente voltamos mais curiosos, inquietos, mais preenchidos, mais ricos, ou quem sabe felizes e curados.

E eu acredito que o Stan sabia disso.

"De tempos em tempos, recebemos cartas de leitores que nos perguntam por que nossas revistas têm que ser tão moralizantes? Eles sempre dizem que os quadrinhos deveriam ser diversão escapista, e nada além disso.

De alguma forma, eu não consigo ver as coisas desse jeito. Para mim, uma história sem mensagem, mesmo que subliminar, é como um homem sem alma. De fato, até a literatura mais escapista de todas, os contos de fadas e lendas heroicas, tinham um ponto de vista moral e filosófico.


Em todos os campi de universidade onde vou discursar, sempre há tanta discussão sobre guerra e paz, sobre direitos civis, sobre a chamada rebelião jovem, quanto há nas nossas revistas. Nenhum de nós vive em um vácuo. Nenhum de nós não é tocado pelos eventos do dia a dia. Estes eventos moldam as nossas histórias e a nós mesmos.


É claro que nossas histórias podem ser escapistas, mas só porque algo é divertido, não significa que precisamos desligar o cérebro enquanto lemos." Stan Lee, 1968



Tchau, Stan! Obrigado por tudo! Obrigado mesmo!

Esse foi o especial do Stan Lee. Fico mexido de ter compartilhado a mesma época dele, apesar de ter perdido por pouco a do Kirby. Foi emocionante em alguns momentos. Aqui somos meros fãs, estendendo o divertimento que temos com essas coisas as discutindo aqui de forma mais sofisticada e organizada do que conseguimos por meio de conversas, torcendo para que vocês gostem e tudo tenha valido a pena. Falamos de várias coisas, no caso da Era de Ouro da Marvel, deixo aqui os links das homenagens que já fizemos.

Homenagem ao Jack Kirby (análise das principais fases do Quarteto Fantástico, que iniciou o Universo Marvel):


Homenagens a Steve Ditko:

Steve Ditko - o verdadeiro criador do Homem-Aranha - morreu aos 90 anos: https://ozymandiasrealista.blogspot.com/2018/07/steve-ditko-o-verdadeiro-criador-do.html

Homenagem ao Stan Lee:

PARTE 4 (Incrível, Fantástico, Inacreditável Stan Lee!!!): https://ozymandiasrealista.blogspot.com/2018/12/incrivel-fantastico-inacreditavel-stan.html

Agora sim, true believers...


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