Eu gostaria de ter conhecido o Steve Ditko - OZYMANDIAS_REALISTA

Breaking

Ano IV! Quadrinhos, cinema, opinião, downloads, xadrez e mais 200 coisas.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Eu gostaria de ter conhecido o Steve Ditko


Era uma esperança que eu mantinha, mas agora ele morreu. Aos 90 anos, ataque cardíaco, corpo encontrado dentro de casa uma semana depois da morte. É difícil para mim resolver o que me cativa mais, a criação do Homem-Aranha ou todo o mistério em torno de seu cocriador, Steve Ditko. 


No meu ver, ele entrou na história dos quadrinhos de forma rápida e direta. Na Era de Ouro da Marvel, a trindade sagrada era formada pelo Stan Lee, o Jack Kirby e o recém falecido Steve Ditko. Enquanto o Kirby ainda fez mais algumas coisas megalomaníacas e o Stan Lee bate recorde como o único cara que chegou quase nos 100 anos ainda cativando e apaixonando gerações jovens, o Ditko depois de suas principais criações sumiu silenciosamente... Eu sei que ele fez algumas coisas pra DC como o Capitão Átomo e o Questão, mas quando você coloca eles em comparação com o Homem-Aranha e o Doutor Estranho, acaba havendo quase que comparação nenhuma, convenhamos.


Por isso foco nas palavras "rápida" e "direta" quando falo da importância dele. Alguns caras importantes como Don Heck e Bill Everett não chegam a ter o mesmo renome, por quê? Bem, a resposta para mim se chama 



HOMEM-ARANHA!!! 

Tranquilamente a criação que mais explodiu da Marvel. Não adianta, Homem de Ferro e Wolverine podem ter tido seus momentos de glória, mas nenhum personagem conquistou tanto para a Marvel quanto o nerd infeliz e azarado chamado Peter Parker. O Doutor Estranho sem dúvida é um personagem incrível, mas veja quantos anos ele já ficou sem sequer ter uma revista mensal. Para mim é claro, o diferencial que coloca Steve dentro da trindade é a produção de todas as primeiras edições do Homem-Aranha, enraizando sua mitologia e o tom que teriam suas histórias.


Afinal, quem chamamos de gênio?
"Eu nunca pensei que o Homem-Aranha se tornaria o ícone mundial que é. Eu só esperava que as revistas vendessem e eu mantivesse o meu emprego"

A treta quanto aos créditos pelo Homem-Aranha vai além do Stan Lee e o Steve Ditko e chega até o Jack Kirby. Levando em consideração que o Kirby já morreu e nunca fez nenhuma manifesto contra o Stan Lee, acredito eu pela boa amizade que tinham no início da carreira e o Steve Ditko, como já dito, viveu COMPLETAMENTE recluso, eu acredito que absoluta certeza nós nunca teremos sobre nada disso. Há trabalhos de investigação feitos com enorme dedicação por vários caras e você pode encontrá-los em alguns livros, ou mesmo pela Internet. A gente sabe que o Ditko entrou no meio da história, que antes haviam conversas entre o Lee e o Kirby, depois o Lee passou o trabalho pro Ditko, que lhe deu sua própria cara. O tão famoso uniforme e a criação de um dos elencos de coadjuvantes e vilões mais geniais já feitas com um personagem de aventura. Fala sério! Só compete com o Batman. Quantos personagens a gente se cativa por além dos vilões espalhafatosos também pelos homens comuns que atuam secundariamente, como tia May, Gwen Stacy, J. Jonah Jameson, Rob, Flash Thompson, Betty e etc?


Nós sabemos que o Stan Lee dava um toque ou outro sobre o que queria dos roteiros e depois só escrevia o texto sobre o que Ditko já havia planejado. Então, independente se foi o Jack Kirby ou o Stan Lee que pensaram primeiro no "herói jovem com problemas que os jovens reais costumam ter", quem executou essa teia de características pela primeira vez foi o Steve Ditko. E deu muito certo. O Homem-Aranha sempre funcionou pra mim tendo como uma de suas características fundamentais o surpreendente e profundo drama!


O tempo passa e conforme a gente cresce, meio que se acostuma com a morte do tio Ben, história com a qual provavelmente temos contato com 3 ou 4 anos de idade. E a gente vai esquecendo como isso é uma desgraça!!! Ele não só morreu, mas foi por um assaltante que o Peter deixou passar direto em um breve momento de rancor. Imagina viver com um peso desses??? Quero dizer, as histórias sempre foram melancólicas, e essa herança foi passada por um monte de gerações de artistas. Quais são as histórias mais impactantes do Homem-Aranha? No senso comum? Hora, a primeira que deve vir na sua cabeça eu acredito que seja...

A Morte da Gwen Stacy

Depois em algum momento deve vir o garoto que colecionava Homem-Aranha...


A morte da capitã Jean DeWolff, certo?


Em algum momento citariam A última caçada de Kraven, não concorda?


Eu sempre cito 24 horas para morrer, uma preciosidade que eu tinha quando criança, foi uma fonte de muita diversão e fortes emoções.


Todas histórias que envolvem temas complexos e sérios, como suicídio, assassinato, câncer, corrupção, bulimia, luto; uma das que mais me impressionava era aquela fase em que aparecia os efeitos do vício em drogas do Harry Osborn, amigo do Peter.


Muito me confunde a minha geração que idolatra o funk popular como uma religião (não pode ser criticado, pra mim é religião) se referir às HQs do Homem-Aranha como uma fonte de preconceito e cultura do estupro. Muito me confunde meeeeeeeeesmo! Sempre foram para mim um precioso local onde eu, na condição de uma criança/jovem, entrava em contatos com esses tantos temas complexos que, para a minha sorte, ainda não faziam parte do espectro da minha vida. Mas era recompensador entrar em contato com esses temas complexos. E como eu disse, foi uma herança.


Lembro que quando anunciaram o filme do Doutor Estranho (a segunda maior criação de Ditko), meu irmão baixou um episódio do desenho animado antigo do Aranha onde o mago aparecia. Esses episódios tratavam com grande atenção da personagem Mary Jane, era mostrado o seu passado traumático, com um pai violento que abandonou a família, contraste à personalidade extrovertida de uma garota sempre envolvida com artes como novelas e teatro.

Vi primeiro no desenho animado, mas depois vi que nas HQs a personagem já tinha esse background.
Então o Doutor Estranho, usando seus poderes místicos, explica para Mary Jane sobre seu pai, dizendo que todos nós temos na nossa mente uma parte escondida onde ficam coisas que não conseguimos lidar direito, e isso me deu uma empolgação, moleque. Eu tipo que apontei pra tela e falei "Meu, ele tá explicando Freud!". Então você veja, eu acho isso muito bonito, eles vão nos apresentando temas mais complexos de forma infiltrada por essas histórias, e isso pra mim sempre as tornou mais interessantes do que as outras. E isso começou quando? Nas primeiras edições do Steve Ditko você já tinha esse drama, era uma melancolia, uma tristeza muito sincera. Você podia identificar o peso nas costas do Peter, das escolhas que a gente faz, da impotência perante a forma que nossa relação com as outras pessoas se desenvolvem, das responsabilidades que temos e a triste sensação que fica grudada na gente quando os resultados nos trazem tristeza e tudo o que sobra é continuar andando pra frente.


Discordem o quanto quiserem afirmando que a Marvel sempre foi uma mistura entre comédia e ação, mas pra mim sempre houve o diferencial de roteiros que tinham uma certa dose de gravidade (e sinceridade!) muito bem aplicada. Todos os personagens passaram por isso, mas o melhor representante é sem dúvida o Homem-Aranha. Por isso eu queria conhecer quem foi ele, o Steve Ditko! Queria saber mais sobre quem ele era e o que o influenciava a fazer essas histórias. Quem ele se tornou depois? Quer dizer, estamos falando de coisas dos anos 60, o cara viveu até os NOVENTA anos!!!!! Sabe o que nos temos sobre ele? Quase nada! Menos de cinco fotos pela Internet, nenhuma recente! Nenhum vídeo, poucas entrevistas gravadas em áudio!


Fazendo o Alan Moore parecer o cara mais sociável do mundo

"Ele morava num quarto acima de uma lojinha
Tinha um baú de livros da Ayn Rand
Era míope e isolado
Resistia para não tirar fotos

Ele desenhou um gibi de super-herói
Ele via o mundo em termos de preto e branco
Ele disse 'Um dia de pagamento por um dia de trabalho
Esse é o nosso único direito'

Ele pega uma carta e pinta metade dela de preto
Assim pode demonstrar para você exatamente o que quer dizer
Ele diz: 'Há preto e há branco
Há certo e há errado
E não há nada, nada no meio'
Isso é o que o Sr. A diz." Mr A, música da banda do Alan Moore, Emperor of Ice Cream

O Alan Moore com poesia consegue retratar bem o desconhecido personagem que foi o homem por trás das histórias. O que sabemos sobre ele é que, diferente do que a maioria apostaria, o cara era um ultraconservador. No caso, era um seguidor da linha filosófica do Objetivismo, que defende o Capitalismo, a livre expressão e uma racionalidade absoluta. A organizadora dessa forma de pensamento foi a esforçada escritora russa, Ayn Rand.


Os livros dela são gigantescos, eu já li e deixei breves comentários em um especial sobre distopias, deixo o link aqui se você tiver curiosidade: https://ozymandiasrealista.blogspot.com/2017/11/colecao-de-distopias.html
Descobrimos isso por conta de algumas histórias que ele fez com o Questão e o Senhor A, onde, assim como a Rand fez com os livros dela, ele usa as histórias para explicar essa visão de mundo. Eu nunca li, então não posso comentar, só ouvi falar. Seria interessante uma coletânea que trouxesse esses trabalhos do Ditko por curiosidade, mas como ATÉ HOJE não tem uma publicação decente dos Novos Deuses do Kirby, melhor esperar sentado, hehe.


Como eu já disse, se for comparar com o Jack Kirby, as criações do Ditko não são todas tão comparáveis assim com o Homem-Aranha, que é o verdadeiro expoente, então acredito que é justo dizer que toda essa visão política e filosófica do desenhista acabou tendo sua melhor versão por meio do personagem Rorscharch, da série máxima, Watchmen. Por acaso, o mascarado é tranquilamente um dos personagens mais cativantes de todo o enredo. O próprio Alan Moore já disse que mesmo discordando da visão de Ditko (Moore pode ser anarquista, mas atua quase sempre com uma visão que combina mais com o marxismo) o via da forma que colocou o personagem que é justamente inspirado no Questão.


"Estamos todos sozinhos. Vamos viver nossas vidas na falta de algo melhor para fazer. Nascer do esquecimento. Aturar crianças destinadas ao inferno como nós. Não há nada mais. Existimos ao acaso. Não há um padrão, exceto o que imaginamos. Nenhum significado, exceto aquele que nós impomos. Este mundo sem direção não é delineado por forças metafísicas indefinidas. Não é Deus quem mata as crianças. Nem é a sorte que as esquarteja ou o destino as dá de comida aos cães. Somos nós. Só nós. As ruas estavam tomadas pelo fogo. O vácuo dentro de mim lembrava gelo quebrando. E ele renascia livre para recriar a sua própria forma nesse mundo moralmente vazio. Era Rorschach. Isso responde às suas perguntas, doutor?"

São pistas, apenas pistas que nós temos. A gente não tem ideia se ele casou, se ele tem qualquer herdeiro. Qual foi a opinião dele sobre a forma que o Homem-Aranha continuou se tornando cada vez mais popular?! Ele chegou a assistir algum filme?! Eu nunca tive acesso a essas informações, não sei se alguém conseguiu ter.

Destruído pelo Stan Lee?

Eu continuo achando, depois de ver muito papo de nerd sobre isso, que responsabilizar o Stan Lee por todos os problemas que tiveram as carreiras do Kirby e do Ditko é dar muita mais moral do que ele tem. Ele não tinha poder pra isso e as carreiras deles não estiveram sempre presas ao velho Lieber. O ponto onde quero chegar é que 99 não é 100. O Stan pode sim ter tomado crédito por coisas que não fez, explorado desenhistas e mentido, mas isso não significa que cada atitude dele visou puxar o tapete de alguém. O vídeo abaixo do documentário "In Search of Steve Ditko" deixa isso bem claro para mim. No documentário, Jonathan Ross apresenta toda a incrível carreira do desenhista, com foco, é claro, no seu maior trunfo, que é o Homem-Aranha.


"Steve e eu trabalhamos lindamente juntos. Eu acho que, até onde me interessava, ele era o colaborador perfeito. Sua arte era soberba, seu senso de história era brilhante. Sua continuidade, ele desenhava coisas que você achava que estava assistindo um filme, de painel para painel. Era uma alegria e um prazer trabalhar junto com ele. Eu fiquei com o coração partido quando Steve parou de trabalhar com a gente. No início eu vinha com um roteiro pouco detalhado, dizia para Steve o que era, ele desenhava, da forma que quisesse, eu não dava um roteiro completo. Ele adicionava várias coisas que eu nem tinha pensado. Então eu pegava as páginas de desenhos, adicionava os diálogos, tentando dar a tudo e todos a personalidade que eu queria que eles tivessem. Conforme avançamos eu vi que Steve era tão bom com as histórias, que de pouco em pouco eu fui deixando ele vir com a maioria dos enredos. Eu dizia para ele algo como 'ei, vamos usar o Homem de Areia como o próximo vilão, vamos ter o Homem de Areia tentando capturar a Mary Jane' ou o que fosse. Eu podia nem dizer mais do que isso, e ele fazia a história, dava para mim, e eu ia tentar ligar tudo com os meus diálogos e quadros. Novamente, depois de um tempo, eu não dizia nem isso mais para Steve. Ele ia, fazia a história que quisesse, me trazia a arte, era como fazer palavras-cruzadas. Eu pegava uma arte que nunca tinha visto antes, não sabia o que esperar, mas era comigo então para colocar as palavras e sons de efeito, ou o que fosse, para que parecesse um todo coeso."

"Ele havia reclamado para mim uma quantidade de vezes, que havia artigos escritos sobre o Homem-Aranha, que me chamavam de criador do Homem-Aranha. E eu sempre achei que fosse, porque eu fui o cara que chegou e disse 'Ei, eu tenho ideia para uma revista chamada Homem-Aranha'. Steve disse que ter uma ideia era nada, porque até que se torne uma coisa física, é apenas uma ideia. E ele disse que foi necessário o desenho dele da revista para dar vida, pra dizer assim, ou fazer dela algo tangível, ou de outra forma eu teria apenas uma ideia. E eu disse para ele, para mim a pessoa com a ideia é a pessoa que criou, e ele disse, não, porque eu desenhei. De qualquer forma, Steve definitivamente sentia que era o cocriador do Homem-Aranha. E realmente, depois que ele disse, eu vi que significava muito para ele, eu disse 'Tudo bem, vou dizer para todos que você é o cocriador'. Isso não o satisfez bem, então eu o enviei uma carta, eu escrevi 'Para quem possa interessar, isso é para estabelecer que eu considero que Steve Ditko é o cocriador do Homem-Aranha junto comigo.' Eu dei pra ele e falei, você pode mostrar pra quem você quiser. E eu descobri que Steve ainda se opôs a isso, porque ele sentiu que usei a palavra 'considero', eu considero Steve o cocriador. Aparentemente, ele sentiu que isso não era definitivo o bastante, então nesse ponto eu desisti. Quero dizer, eu não falei com ele ou ouvi falar dele desde então."

"Eu acho que se Steve quer ser chamado de cocriador, ele merece ser chamado de cocriador, porque ele fez um trabalho tão maravilhoso."

Aqui mesmo temos colaboradores que dizem, "olha que horrível o Stan Lee aparecendo nos filmes, que filho da puta". Ué? Eu penso, o Jack Kirby tá morto, desde 94, é capaz que não tenha nem osso mais pra poder mostrar em um filme. O Ditko não tem nem registros fotográficos!!! Se ele aparecesse no filme as pessoas nem iam reconhecer. Que culpa o Stan Lee, que aparece em todos os filmes que pode, não só de super-heróis, mas também "Ratos de Shopping" e "O Diário de uma Princesa 2", tem pelo Steve Ditko não ter tanto reconhecimento se ele se recusa a dar entrevista para um documentário sobre ele mesmo???


Como isso pode ser culpa do Stan Lee? O cara é supostamente um gênio sacaneado pelo Stan Lee... Como se a maior parte da carreira ele passou sem contato com o Stan Lee? Isso me soa bizarro, é muito difícil de acreditar. Como o Kirby, que quando tava sem o Lee teve revistas canceladas. Como eu disse, 99 não é 100, o cara pode ter sido sacana em vários momentos, mas ele demonstra infinitamente mais boa vontade pra ter a fama que conseguiu do que o Ditko que se trancou dentro de casa. Por isso eu ainda guardava uma esperança de uma mudança do Ditko, que ele fizesse alguma declaração expressiva, eu realmente tinha curiosidade. Agora me cai a ficha de como a esperança era tola, visto que ele já tava com 90 anos, mas sem imagens ou qualquer entrevista, eu nem tinha a imagem dele bem clara na minha cabeça.


E é isso, pessoal. Escrevi esse post a pedido do Ozymandias, já que não estou mais conseguindo me dedicar tanto, então resolvi ir dormir algumas horas mais tarde, já que devo bastante a esse espaço e seus colaboradores. Recomendo que procurem no Youtube o documentário "In Search of Steve Ditko", produzido na época que estava pra sair o segundo filme do Homem-Aranha. Acredito ser uma das melhores narrações feitas sobre o misterioso artista. Há Mark Millar, Neil Gaiman, Stan Lee e até o Alan Moore contando sobre o cara, vale bastante a pena pra quem se interessa. Eu sinceramente acredito que ele fosse estranho e infeliz, não me parece saudável esse nível de isolamento em nenhuma circunstância, mas sei que está além de qualquer poder e responsabilidade a influência que as contribuições desse cara tiveram sobre a arte. 

"Se você tem um certo ponto de vista e razões que você acredita serem válidas, então se é a favor ou contra, você pode e deve expressar apenas essas visões que você honestamente mantém." Steve Ditko

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquisar este blog