sábado, 22 de abril de 2017

ANÁLISE COLEÇÃO MONSTRO DO PÂNTANO


Aproveitando a recente morte de seu cocriador, Bernie Wrightson, dia 19 de março, resolvemos acelerar este post especial sobre o Monstro do Pântano que já estava sendo planejado há um tempo. A razão para isso é que o ícone da DC Comics é criação do roteirista Len Wein com o veterano do terror Wrightson. Ele surgiu em 1971 em uma história de oito páginas da HQ The House of Secrets #92, em uma fase que os responsáveis que viriam a ser eternamente lembrados ainda eram novatos no território. A HQ foi a mais vendida do mês! Passando todos os títulos mais tradicionais da editora! Depois eles receberam confiança dos editores para seu próprio título, o Swamp Thing! Mesmo tendo tudo pra se tornar personagem secundário em uma editora protagonizada por Batman e Superman, o Monstro do Pântano cativava o público, chegando até a ter três filmes produzidos (mesmo sendo todos muito ruins), o que trouxe o retorno das revistas. Eis que em um maravilhoso momento dos anos 80 ligaram para o nosso querido britânico Alan Moore para que trabalhasse com o personagem, já que apesar de serem bons, os trabalhos do escritor eram polêmicos, então era melhor testá-lo com um título que não fosse tão famoso (como também fizeram Neil Gaiman e Grant Morrison com Sandman e Homem-Animal, viram no que deu). A partir de então a série do personagem não deixa de figurar entre as HQs indispensáveis da história da DC, considerada um trabalho divisor de águas, inspirador e uma das melhores publicações de terror já feitas no território da nona arte. Levando em consideração que dois ou três trabalhos que Alan Moore fez com Batman e Superman entraram pra sempre entre as melhores histórias dos personagens, o que falar então de uma série que ele escreveu por anos? Fica difícil superar. Mas nos últimos anos tivemos uma agradável surpresa com o retorno de uma revista mensal para o amado personagem na linha dos Novos 52. Muitas pessoas gostaram, inclusive nossa equipe do site. Com a despedida de Bernie Wrightson, vamos fazer essa longa homenagem ao personagem que ele deixou para nós e com sorte ainda acompanharemos por muitos anos.

"A gente não tinha ideia que criaria uma lenda." Len Wein


POSTS DE ANÁLISE ANTERIORES


COLEÇÃO HELLBOY





Fase do Len Wein


Criador também do Wolverine e dos Novos X-Men, Len Wein foi o primeiro escritor do Monstro do Pântano. É muito comum as pessoas conhecerem o personagem pela fase do Alan Moore, que é a mais famosa, assim supondo que muito do estilo do personagem veio do britânico. Realmente veio, mas também há várias características que perduram até hoje e foram introduzidas pelo Len Wein. Todo o estilo poético, gótico e até reflexivo estava sendo colocado nas fundações do personagem pelo seu autor original. Os trabalhos podem ser conferidos em dois encadernados republicados há pouquíssimo tempo no Brasil, os dois volumes de "Raízes" na coleção "Clássicos DC".


Raízes - Volume 1

"Alec Holland tinha todas as respostas... Ele era um homem inteligente! Mas o Dr. Holland morreu... e em seu lugar só resta um... Monstro do Pântano!"

A primeira história do personagem foi publicada na HQ "House of Secrets", onde a DC publicava aventuras de horror. É uma história curtinha e bem triste onde o trágico personagem observa sua antiga amada se perder nas mãos de um novo parceiro rico e abusivo. É nessa que vem pela primeira vez a frase "Se pudessem lágrimas vir... Elas viriam!". Logo depois vem a primeira mensal do personagem, onde mudam seu contexto e origem, envolvendo o acidente armado que leva à morte da mulher do cientista Alec Holland e sua transformação no horrível Monstro do Pântano. Mantendo a consciência de seus tempos como homem, o monstro sai para buscar justiça (ou seria vingança?) contra os criminosos que querem colocar as mãos na sua fórmula biorrestauradora que pode fazer surgir flora quase que de qualquer lugar. Nesse mesmo volume você confere os primeiros encontros com o agente Cable, o vilão Arcane (ainda muito diferente de como viria a ficar) e toda sua família que parece ter saído de algum clássico de terror, como o Homem-Remendado e a mocinha Abigail, que se torna coadjuvante fixa do personagem. Há várias aventuras com teor de terror e drama, "A Última das Bruxas Ravenwind" e "A Mecânica do Terror" são muito boas!



Raízes - Volume 2

"Quem rasga uma porta de aço com as mãos nuas... Deve ser o pai de todos os monstros!"

Em "A Noite do Morcego", o Monstro do Pântano vai à Gotham City, onde encontra com o Batman pela primeira vez. Em "O Terror do Túnel 13" há uma aventura em homenagem ao H.P. Lovecraft. "A Ameaça Sideral" deve ser a melhor dessa divisão, refletindo sobre a condição humana em uma história onde o monstro conhece um alienígena e questiona os comportamentos que as pessoas tomam perante o desconhecido. Em "O Homem Que Não Queria Morrer" o anti-herói descobre que Arcane ainda deve voltar várias vezes. Há outras aventuras com teor de ficção, uma referente à Edgar Allan Poe, "Vermes Conquistadores" e por fim o autor se despede, mesmo sem fechar a vida do personagem, deixando um tom bem conclusivo para a sua passagem em "A Conspiração Leviatã".



Fase do Alan fucking Moore


Alan Moore já tinha nome e respeito com o que havia publicado em editoras britânicas, como "Miracleman", "A Balada de Halo Jones" e "V de Vingança". Pra grata surpresa do barbudo, ele recebeu um telefonema sendo convidado para escrever pra DC Comics, que na época ele adorava (pois é, faz tempo). O convite era para substituir Tom Yeates que havia resolvido largar a revista do Monstro do Pântano após 19 edições que foram feitas para acompanhar o lançamento do quase esquecido filme. Moore resolveu reconstruir o personagem multiplicando em dezenas de vezes as possibilidades criativas de suas narrativas. Foi um processo de quatro anos de publicações, então vamos por um encadernado de cada vez. Não é difícil encontrar a coleção toda, que começou a ser republicada em 2014 e terminou em 2015, dando um total de seis livros da fase que continua sendo lembrada com assombro e admiração como "A Saga do Monstro do Pântano".


Livro 1

"Talvez o mundo não tenha mais lugar... Para monstros. Ou talvez os monstros... Apenas tenham ficado... Mais difíceis de distinguir"

Apesar de ter sido injustamente excluída de muitos encadernados, os últimos incluíram "Pontas Soltas", primeira história onde Moore escreve. Como indica o próprio título, ela fecha as pontas que haviam ficado soltas e já dá início para o grandioso início que vem na sequência: "Lição de Anatomia", a estonteante referência de roteiristas e desenhistas de todo lado, já tendo seu conceito sido migrado pra tudo quanto é personagem que você possa imaginar: Homem-Animal, Homem de Ferro, Coringa, Homem-Aranha... Alguns melhores outros piores, mas nenhum encaixou tão bem quanto o original.


O Monstro do Pântano não seria mais o mesmo após uma das HQs mais chocantes e surpreendentes da época. O vilão Homem Florônico já entra na história neste encadernado que é muito rico; admirável pra uma edição que custava apenas R$23,90. Após "Lição de Anatomia" vem "Empantanado", onde o protagonista sofre uma crise existencial após descobrir a verdade sobre sua origem.  A narrativa psicológica é sensacional e muito criativa, faz frente com grandes trabalhos do Neil Gaiman. A partir daí se dá o arco contra Dr. Woodrue, o Homem-Florônico que quer usar seus poderes sobre as plantas para dominar o mundo destruindo todos os homens, alcançando escalas que acabam envolvendo até os principais super-heróis. A arte de Stephen Bissette e John Totleben com as cores de Tatjana Wood são incríveis, mas as diagramações que Moore passa junto aos seus roteiros também fazem toda a diferença, aumentando mais ainda a singularidade do trabalho, com páginas que parecem enfeitadas como mosaicos. No texto Alan não erra um único golpe que desfere: as poesias são incríveis e têm muita identidade, as cenas de tensão e ação também são bem feitas e quando ele quer te perturbar ele consegue; os personagens secundários, como Abigail e seu namorado, têm seus tormentos muito bem escritos


As últimas são as mais de terror. Uma linha de histórias envolvendo o anti-herói Etrigan e um macaco pálido demoníaco que está atormentando uma creche de crianças autistas. O final deixa claro que o mal está só começando a espreitar a vida dos personagens com uma cena sinistra que ainda termina com uma dedicatória ao mestre Jack Kirby no último quadro. Oito edições em um encadernado impossível de ser mais obrigatório.


Livro 2

"Sua compreensão do inumano, caríssima Abigail, é limitada e superficial. Você se poupa da plenitude do horror"

"Enterro" é uma rápida e bela introdução, logo depois tudo ficando pesado... Começa a trilogia Arcane ("Amor e Morte", "Auréola de Moscas" e "Balé de Enxofre"), com o retorno do vilão que acreditávamos ter morrido. É TERRÍVEL! Não tem nada de vilãozinho, eles narram uma história de terror mesmo, foi até vendida sem o selo do Comic Codes Authority. Há insetos, gente morta e claras referências de incesto. A impressão é que tudo só fica melhor, principalmente quando chega na edição anual, "Descida Entre Os Mortos", onde eles meio que fazem uma versão do Monstro do Pântano da "Divina Comédia", com os personagens paranormais da DC, como Desafiador e Espectro, servindo de guias do monstro conforme atravessa o Paraíso e o Inferno. Como vem escrito na capa, se trata de "suspense sofisticado".


Então vem "Pog" o famoso crossover com personagens alienígenas infantis. Eles continuam infantis, mas Alan mantém o tom sinistro, triste e até crítico dos seus roteiros. Em "Abandonadas Casas" Abby vai para outro plano astral onde conhece os curiosos irmãos Caim e Abel da Bíblia, eles a mostram uma história, que nada mais é do que a primeira história do Len Wein com o Bernie Wrightson onde o Monstro do Pântano tinha aparecido em "House of Secrets", linha que tinha acabado de ser cancelada na época. Os autores então colocam uma introdução e um epílogo que são tão bacanas que nem parecem uma encheção de linguiça cara-de-pau; além de que Caim e Abel viriam a aparecer novamente no universo da DC... O encadernado conclui com "Rito de Primavera", a primeira história romântica da saga, em que o monstro e sua amiga Abigail consumam a relação da maneira que podem. Surpreende pela diagramação que muda completamente e os textos de metáforas sexuais/ambientais malucos do Alan Moore.



Livro 3

"Sou John Constantine, e acho que eu e você podemos nos ajudar. Tudo bem eu fumar?"

Começa com "Notícias do Fuça Radioativa", que é uma crítica à poluição nuclear se utilizando de notícias de verdade e clima de terror. Então John Constantine, que um dia se tornaria o protagonista de Hellblazer, passando pelas mãos de caras como Jamie Delano, Garth Ennis e Brian Azzarello; é introduzido como um personagem secundário. Um mago inglês pouco usual, com estilo de quem vem de culturas alternativas, Constantine não deixa suas intenções claras ao Monstro do Pântano, mas o monstro não tem muito o que fazer, já que o britânico o manipula passando de pouco em pouco informações sobre sua essência que ele ainda não compreende por completo, apesar das reviravoltas de "Lição de Anatomia".


Essa parceria conflituosa se mantém por todas as histórias conforme Constantine garante que uma grande ameaça está se aproximando (seria uma versão astral/mística dos problemas que vieram com o Anti-Monitor em "Crise nas Infinitas Terras"). O relacionamento com Abby também evolui conforme ela aceita o amor pelo monstro. O resto do volume é composto por várias histórias de terror ao redor dos EUA, utilizando monstros consideravelmente clássicos, como criaturas do mar, zumbis e lobisomens; os desenhos de Stephen Bissete e John Totleben são excelentes e Alan Moore sempre coloca uma reflexão ou crítica social valiosa nas histórias, contando, por exemplo, com racismo, escravidão e abuso conjugal. Não há transformações e surpresas tão fortes quanto nos anteriores, sendo tranquilamente o volume mais fraco da coleção, mas isso também se dá pelos outros serem bons demais, não significa que este seja ruim, muito pelo contrário, há ótimas histórias de terror.



Livro 4

"É o melhor dos tempos, é o pior dos tempos, é tudo de uma vez. É o fim..."

O experimentalismo infinito continua com "E O Vento Trouxe", onde é introduzido Chester, o hippie ecologicamente consciente que se tornaria importante por muitos anos. A história faz alusão aos efeitos positivos e negativos de drogas alucinógenas de forma muito inteligente e sutil. Depois o monstro enfrenta um serial killer e na mesma história apresenta um visual completamente refeito combinando com a flora de onde se encontra, algo que eles começariam a fazer cada vez mais e melhor, brincar com o visual do personagem (um bem interessante pode ser visto na imagem acima). "Dança dos Fantasmas" é a última dessa linhagem antes de chegar na "Crise nas Infinitas Terras". Alan faz uma história de mansão mal-assombrada no estilo Stephen King e dessa vez critica as armas de fogo, tendo sido a que mais irritou as pessoas nos EUA e a que o escritor mais gostou.


Em "O Parlamento das Árvores", Moore faz uma de suas narrações mais criativas. Ele introduz o parlamento de plantas sábias, que viria a ser super-recorrente no futuro, nas fases do Rick Veitch e dos Novos 52, mas aqui eles só apareceram em uma história! Além de apresentar algo tão interessante, o escritor ainda deixa na sua viagem várias opções para trabalhos futuros, é incrível!

"Nunca tentei... animar madeira morta ou trabalhada... com minha consciência. Nunca tentei... manipular insetos... com meus cheiros e sumos. Tantas possibilidades... (...) Vi algo sobre... controle de múltiplos corpos? Algo sobre... viagem no tempo...? Será possível?"

Depois o tom fica realmente pesado quando o monstro vai à América do Sul com Constantine enfrentar uma tribo satânica. O momento apocalíptico que tanto estava sendo introduzido por "Gótico Americano" chega em "Fim", uma edição de aniversário maior que o comum onde os peculiares heróis se reúnem ao elenco paranormal todo da DC que já havia aparecido na série, mais outros como Zatanna, Dr. Destino e alguns da antiga que quase ninguém conhece.


É impressionante como após tantas histórias Moore manteve tudo coeso e relevante ao cenário central, já deixando armado tudo que rolaria ainda nas histórias futuras! "Fim" é épico, místico, tem terror e filosofia, enlaçando tudo que estava sendo discutido. Mesmo sem ter Batman, Superman ou Mulher-Maravilha é um dos clássicos mais indispensáveis da DC. Pode ser que esteja um pouco clichê hoje, mas continua bem charmoso.

"No longo e tortuoso caminho... que me trouxe aqui... Vi muito do mal. Ajudei uma comunidade... a destruir outra... porque a outra era diferente... Constituía uma ameaça. E depois pensei... Os mais iníquos carniceiros da história... fizeram pior? É o mal... inevitável?"


Livro 5

"Gotham tem seus próprios meios de lidar com ameaças e monstros, Wicker. Pergunte ao Coringa. Pergunte a Harvey Dent."

A trama secundária de Abby no volume anterior traz diretamente à trama principal do Livro Cinco! Retornando de sua jornada de terror e descobertas pelos planos astrais, o monstro descobre o destino de sua amada e declara guerra contra a cidade de Gotham City, onde habita o famoso Cavaleiro das Trevas, entre outras personalidades que aparecem brevemente, como alguns internos do Arkham e o pessoal da polícia. Apesar de ser simples em comparação com a última trama onde o personagem viajava o mundo e filosofava, aqui o roteiro passa de forma muito mais divertida, diria até que está mais bem escrito. É inesquecível, explicar o que acontece traria spoilers; mas podemos resumir que em tantas dezenas de edições o Alan continuou com as ligações e referências de tudo que trabalhou, desde "Pontas Soltas" e "Lição de Anatomia", até personagens como John Constantine e o Dr. Woodrue, ou mesmo as histórias mais antigas de outros autores! É completo demais! Há duas histórias mais protagonizadas pela Abigail e a incrível e poética ficção científica de "Meu Paraíso Azul": um show nos desenhos, nas cores com diferentes tons escuros de azul e na viagem triste do texto; prólogo de um novo tipo de histórias que marcaram as revistas do personagem!



Livro 6

"Às vezes eu acho que, pra ajudar o ambiente pra valer, a gente precisaria de um mundo diferente... Um que ensinasse às pessoas que tudo, do ambiente à política, é interconectado. Que ensinasse a pensar e a assumir responsabilidade."

Assim como no Livro 2 o protagonista viajava pelos planos astrais para poder reencontrar seu amor, aqui no final ele viaja pelo espaço! A jornada tem a forma da "Odisséia" de Ulisses, dessa vez ao invés de ser auxiliado pelo elenco paranormal da DC, há o espacial, como os thanagarianos e os lanternas verdes, destaque para as duas primeiras histórias onde há um personagem nada popular, o antigo Adam Strange. Apesar de ser mais lembrado por "Watchmen" e "V de Vingança", Moore sempre foi um excelente escritor de aventuras espaciais e aqui isso fica claro. Também é curioso como todas têm um tom romântico e até erótico muito forte. Se você tiver uma namorada mais sinistrinha/nerd/mente aberta poderia até dar esse volume de presente no Dia dos Namorados, porque está cheio de histórias românticas. Aqui não podemos deixar de citar a diferente atuação dos competentes desenhistas que trabalharam na série. Em "Reunião" Abigail é protagonista novamente, sendo o roteiro curiosamente feito pelo desenhista Stephen R. Bisette, e a arte por Rick Veitch e Alfredo Alcala, tendo o enredo sido originalmente desenvolvido pela colaboração de todos, incluídos também Moore e John Totleben. Vindo da ficção de volta ao explícito e nojento terror, "Reunião" se trata de um antigo personagem desaparecido nas primeiras histórias do monstro, o Homem-Remendado (essa história pode inclusive ser conferida no primeiro volume de "Raízes"), irmão do vilão Arcane e pai da Abigail, chegando em estado de insanidade ao pântano para rever sua filha.


Outro destaque é a edição #62, "Comprimento de Onda", em que Rick Veitch desenha e escreve uma aventura bem expressiva que conclui esse arco do personagem com honra e ainda deixa pequenos sinais do que poderia vir (e depois realmente veio) no futuro. Há surpresas que não valem a pena ser estragadas, mas é notável como sem o Moore o desenhista conseguiu cuidar tão bem de uma edição inteira, com a saída de Alan Moore ele viria a fazer o mesmo com mais muitos volumes, tomando conta da série. "Comprimento de Onda" parece bem estranho entre as outras narrativas, porque Veitch realmente fez do seu próprio jeito e há muito texto e informação, tanto que o próprio chega a questionar se não exagerou em colocar tanta coisa; mas lendo com calma não dá pra negar que é uma história muito bem-feita e cativante. Alan deixou tudo tão bem conectado que sua penúltima edição até traz de volta o mesmo nome da primeira, "Pontas Soltas (Reprise)", terminando com "A Volta do Bom Gumbo".


Pela última vez tudo que ocorreu na série é reprisado conforme o monstro conversa com sua amada, Alan escreve suas reflexões finais sobre o que quer que o Monstro do Pântano represente literariamente e fica um final tão completo, que não dá pra imaginar como o inglês voltaria a escrever a série de novo (algo que o próprio diz, ter esgotado todas as ideias que tinha pro personagem). Impossível não sentir nostalgia com a colaboração de tantos desenhistas que passaram pela série (Stephen Bissette, Tom Yeates, Rick Veitch e Alfredo Alcala); eles nos impressionaram por tantas edições e a narrativa que começa na página 14 ainda consegue te deixar boquiaberto. Por fim, utilizando um personagem terciário criado pra última edição, um camponês chamado Gene Labostrie, Alan Moore ainda deixa sua mensagem quanto à sua famosa saída da DC Comics por razões pouco amigáveis relacionadas ao sucesso de Watchmen e a falta de controle sobre os direitos autorais:

"Assim ele acelera e, ao ouvir as promessas monetárias do homenzinho cada vez mais baixas e esganiçadas à medida que deixa a margem para trás, ri por cima da barba e sobe e desce o remo. Pensam eles que dinheiro é tudo? Que é a única medida da qualidade de vida? Sim, pensam. E é por isso que são tão pobres. Labostrie entrevê um momento na margem e para. A correnteza traça um V que se abre e estende do remo imóvel."


Fase do Rick Veitch


Após toda essa sequência inacreditável, nenhum roteirista fazia questão de continuar a série, muito pelo contrário. Todo o tom conclusivo que eles haviam deixado parecia insuperável. Quem veio cuidar de tudo, tanto desenhos quanto roteiro, foi Rick Veitch, que já estava colaborando com a série e tinha inclusive cuidado da "Comprimento de Onda", onde ele até já tinha deixado algumas ideias pro futuro que podem ser conferidas nesta fase. Por causa de polêmicas que explicarei mais a frente, a série foi brutalmente interrompida e seu trajeto original nunca conferido, apesar de Veitch já ter falado publicamente do que pretendia ter feito. Mesmo assim, tudo foi recentemente republicado no Brasil, na coleção em 3 volumes, "Regênese".


Regênese - Volume 1

"Meu reinado... terminou. O Monstro do Pântano... morreu."

Eles começam com uma ideia bem convincente para continuar a série: enquanto o Monstro viajava no espaço, o Verde na Terra precisava de um representante, tendo o Parlamento das Árvores já começado a fertilizar uma nova essência, que é como uma alma, para tomar o cargo de guardião do verde. Mas para que o equilíbrio seja mantido, não podem coexistir dois elementais da natureza, levando a principal versão do personagem a encarar um dilema quando pretendia se retirar por tempo indeterminado  com sua amada Abigail. Não demoram para retornarem vários dos personagens, desde os humanos comuns como Chester, até os mais chamativos, como John Constantine, Homem Florônico e o Parlamento das Árvores, que antes havia feito parte de um ponto específico da jornada do personagem, aqui passam a ser um elemento mais corriqueiro das histórias. Os desenhos são lindíssimos e muito caprichados, não há uma página que falhe, a Tatjana Wood parece cuidar das cores ainda melhor que antes. O problema é o texto que decai. Veitch tem ideias boas, mas fica expressiva a diferença com o texto do Moore, principalmente quando se cria expectativa em torno da contribuição de algum personagem para o roteiro e ela acaba sendo super rápida e decepcionante, como acontece com o Homem Florônico, e principalmente, Solomon Grundy, vilão da Liga da Justiça. Chegando ao final, o encadernado acaba não empolgando em momento algum, apesar das ideias interessantes e desenhos detalhados.

Veitch traz muito de bom da fase de Moore, além de alguns experimentalismos próprios, mas não consegue empolgar


Regênese - Volume 2

"Alec e eu... Não queríamos que as coisas saíssem de controle desse jeito absurdo. Foi por amor, só isso. A gente só queria ficar junto. Mas parece que hoje em dia não existe mais 'e viveram felizes para sempre'..."

Vai ficando claro o erro de se estender por edições demais com a mesma ideia dos personagens estarem preocupados com o próximo avatar do Verde. Além de usar técnicas de narrativa do Moore, não dá pra negar que Veitch também se preocupa em inovar diversas vezes. Mesmo as ilustrações continuando impecáveis, o roteiro é repetitivo e personagens novos que poderiam servir de diferencial são extremamente sem-graça, como o Broto, um fantasminha que representa a essência do próximo representante do meio-ambiente, e um novo monstro do pântano que deu errado e fica dirigindo um carro pra cima e pra baixo por várias edições, ele sempre aparece mas não tem a mínima graça. As metáforas poéticas complicadíssimas, se utilizando de símbolos como micro-organismos e fenômenos astrais, continuam do Moore para o Veitch, continuam bastante até, e o desenhista mostra que tem muito conhecimento como o roteirista anterior, falando do Universo DC, biologia, química, física, psicologia e conhecimentos gerais o tempo todo. A história "O Pensador" faz jus ao seu título, com o protagonista entrando em uma baita viagem de conteúdos filosóficos.


Diversas nuances da existência são revisados na edição #75, mas mesmo assim acaba sendo confuso e cansativo. Assim como o volume anterior, este também não empolga, acaba sendo muito similar com as histórias que o Homem-Animal teve após a saída do Grant Morrison: desenhos bons, o roteiro parece interessante, mas nunca te causa impacto de verdade, no final trazendo apenas várias HQs que são cheias de esquisitices, mas nada que o leitor realmente aprecie como uma experiência diferente.


Regênese - Volume 3

"Chester... Vá pra casa e cuide de Liz. Vou ficar bem. Vai ficar tudo bem."

Nas duas primeiras histórias eles continuam enchendo linguiça sobre o nascimento do próximo avatar da natureza. Pra ficar mais esquisito há uma sequência quase aleatória envolvendo o Constantine e a Abby que é extremamente forçada. O fato de terem usado convidados especiais como Jamie Delano e Stephen Bissette não ajudou. Só há um pouquinho de mudança na "Esperando Deus", um novo crossover com o universo do Superman (um já havia rolado na fase do Alan Moore, pode ser encontrado no encadernado "O Que Aconteceu ao Homem de Aço?", pois não foi compilado junto à coleção do Monstro do Pântano) onde ele quer vingança contra o Lex Luthor, mais uma vez passando longe de esquecer as aventuras do passado. Infelizmente isso passa rápido e em sequência temos novamente a criatura se comunicando com o Parlamento das Árvores discutindo as consequências da substituição do avatar. Veja bem, isso já estava em questão desde a primeira edição dessa fase. A diferença é que começam a finalmente surgir indícios do caminho aonde tudo levará. A coisa melhora em "Enlutada", quando há uma grande surpresa e aparições interessantes de outros personagens. Infelizmente, o otimismo não dura. "Enlutada" é a penúltima edição do encadernado antes de uma grande polêmica que agora terei de explicar.


Após o espaço, o território estadunidense e os planos astrais na fase do Alan Moore, Rick Veitch ia mandar o Monstro do Pântano de volta no tempo, retornando cada vez mais. A ideia seria fazer como "O Retorno de Bruce Wayne", história do Batman feita pelo Grant Morrison há alguns anos atrás, antes dos Novos 52. Ou seja, conforme retorna no tempo, o personagem iria encontrando os elencos da DC de outros contextos históricos, como o Velho Oeste e a Idade Média. O problema é que depois de um crossover com Camelot, o monstro voltaria ao período de Jesus Cristo, que seria mostrado como um mago branco. Depois disso Veitch sairia e já estava combinado que os roteiros seriam revezados entre Neil Gaiman (Sandman) e Jamie Delano (Hellblazer). Ao verem a capa que você pode conferir acima, os editores logo temeram as polêmicas que poderiam se encadear e vetaram sem chance de negociações. Veitch ficou revoltado e se demitiu da DC assim como Alan Moore, chegando a ficar mais de uma década sem trabalhar diretamente com a editora. Assim sendo, "Regênese" termina com uma sofrível edição anual.

Não se deixe enganar pela capa de Brian Bolland. A anual #3 do Monstro do Pântano é uma coisa que não merece atenção.
Ignorando completamente os acontecimentos anteriores, Veitch faz uma história tão despreocupada quanto possível, com o intuito apenas de expressar sua revolta antes de ir embora. É tão besta que chega a ser questionável como isso chegou a ser publicado; se bem que chegaram a publicar aquelas famosas capas do Rob Liefeld, eles devem deixar passar algumas coisas. O que acontece é uma trama bizarra antagonizada pelo Gorila Grodd, onde Veitch colocou o máximo de personagens primatas da DC que conseguiu. No meio da bagunça há um macaco quadrinista que se revolta com seu editor e sai armado se rebelando contra o sistema, explicitando a insatisfação do autor com o trabalho.

"Eu sou um artista! (...) Sou um macaquinho sacana... e totalmente descontrolado! (...) Eles que se desesperem! Melhor ainda, dê uns quadrinhos pra lerem, que aí eles sossegam! (...) Tá vendo só? É uma conspiração, tô dizendo! Os editores armaram um concluio com produtores das chamadas belas-artes pra esconder do público o verdadeiro potencial dos quadrinhos! É hora de largarmos nossas canetas de nanquim e empunharmos armas em nome da arte! (...) Aliás, francamente, nunca me encaixei na chamada civilização que deixei pra trás. Ora, sou artista! Eu boto emoção no trabalho! Mas me fazem produzir como numa linha de montagem. É fazer, soltar, fazer, soltar... Não tem fim, é cruel! E pensa que me mandam o cheque no dia certo? Hah! (...) Tô pensando em publicações independentes, em uma ou duas convenções de quadrinhos por ano..."

Comparável com o terror que foi "O Cavaleiro das Trevas 2" de Frank Miller.


Um trabalho que no geral tem como único ponto positivo suas belas ilustrações. São várias edições que nunca empolgam e ainda não possuem um final decente. Um trabalho ingrato de acompanhar, impossível de ser mais dispensável.


Fase dos Novos 52 (colaboração de Roger, do Planeta Marvel/DC)


Um dos mestres dos quadrinhos de terror, Bernie Wrightson, faleceu aos 68 anos de idade. Co-criador do Monstro do Pântano, ao lado de Len Wein em 1971. Como uma forma de humilde homenagem, resolvi atender ao chamado de meu amigo Douglas Joker e fazer uma pequena colaboração para um especial do Monstro do Pântano, trazendo sua versão dos Novos 52, quando o personagem voltou a ter uma série mensal. Antes dos Novos 52, o Monstro do Pântano havia ficado vários anos sem um título próprio. Além disso, o estigma "Alan Moore" trouxe certa expectativa e desconfiança por parte de seus fãs. Mas, Scott Snyder provou que o Avatar do Verde ainda tinha boas histórias para serem contadas. Sua série mensal pelos Novos 52 tiveram quarenta edições, mais três anuais e um especial ligado à saga Future's End. É material que merece ser conferido.


"O Monstro estava esperando ali todo esse tempo, mas dessa vez, a escolha foi minha."

A trama básica do Monstro do Pântano dessa fase começa com o retorno de Alec Holland como o Avatar do Verde. O mundo corre perigo a partir do momento em que o Podre resolve pender a balança para o seu lado, forçando o Verde (flora) e o Vermelho (fauna) a recorrer seus guardiões para deter a expansão do Podre e restabelecer o equilíbrio da natureza. O escritor Scott Snyder, famoso por seus trabalhos mais alternativos, procurou fazer o básico, respeitando a mitologia expandida feita por Alan Moore, mas ao mesmo tempo, deixando sua marca registrada com muito suspense e conspiração. O Parlamento das Árvores, Abigail, Anton Arcane, todos os principais personagens estão lá. O fato de Alec Holland voltar a ser o Monstro do Pântano não desmerece o que foi apresentado por Moore e nem tira o brilho dessa nova versão, pelo contrário, abriu possibilidades interessantes e deixou o contexto mais coerente.

Na série "Mundo Podre" a DC finalmente colocou o Homem-Animal e o Monstro do Pântano para compartilharem mais diretamente uma mesma série, visto quantas similaridades há entre os dois.

Com o final da saga envolvendo o Podre, o escritor Charles Soule assumiu os roteiros e logo de cara tira o Monstro do Pântano de seu habitat local e o torna "mundial". Mas, para provar que a mitologia clássica continuaria a ser respeitada e desenvolvida, Soule insere John Constantine em seu primeiro arco como um elemento importante da trama.  Leitura altamente recomendada. Eles vão aumentando e mostrando outras nuances da mitologia que o Alan Moore já tinha expandido, tratando de outros reinos da natureza, como os fungos e a podridão, o que poderia ser pouco criativo na verdade é muito bem utilizado, eles trazem personalidades diferentes para os avatares, inclusive os antigos defensores do verde, que foram parar no reino da consciência, fica diferente e cativa. A história de toda essa guerra astral foi provavelmente mostrado da maneira mais atraente até hoje.


Vale ressaltar que personagens como Abigail, Arcane e o Homem-Florônico, que aqui passaram a chamar de "Semeador", foram meio que reinventados, tendo funções meio diferentes das que conhecíamos. Até o final da série as escalas vão aumentando, contando com tramas e perspectivas que realmente surpreendem. Analisando o todo com este post, a fase dos Novos 52 parece ser a melhor que o personagem teve, perdendo apenas pra do Alan Moore.



Não só seu título solo, nos Novos 52 o personagem compartilhou bastante títulos de outros personagens como Mulher-Maravilha e Aquaman, sendo os principais a "Dark Justice League", um grupo formado pelos personagens paranormais da DC, como Desafiador, Zatanna e Frankenstein, sendo liderado por ninguém menos que o encapetado John Constantine. A série e a própria ideia do grupo dividiu opiniões, mas avaliando tudo, é inegável que o início foi fraco, mas depois houveram expressivas melhoras, inclusive com histórias que pareciam bem inéditas e muito bem trabalhadas; acontece que a maior parte das pessoas não acompanhou tudo, simplesmente não gostou da ideia. Estavam considerando um filme com todo esse elenco, ideia que chamou atenção, já que haviam cotado o Guillermo del Toro (que nos trouxe dois filmes do Hellboy) pra escrever o roteiro, tarefa a qual ele se mostrou bem animado, admitindo ser fã dos personagens. Isso já faz muitos anos e com todos os filmes baseados no universo da DC Comics eles nunca mais voltaram a comentar isso, a única coisa que saiu foi uma animação lançada direto em Blu-Ray, sem passar pelo cinema, incluindo também o Batman. Nenhum autor do blog assistiu, então não podemos comentar. Também houve uma série de TV do John Constantine, mas foi um fracasso total, acabou sendo cancelada e ainda houve aquela polêmica de não deixarem o personagem fumar pra não influenciar as pessoas, o que não chega a fazer sentido, já que o personagem quase morre de câncer  no pulmão em uma de suas histórias mais famosas. O velho filme com o Keanu Reeves não chegou a ter sequência.


Não há dúvidas que após os Novos 52 o personagem teve uma ascensão de popularidade novamente. Não apenas as boas HQs, ele também está agora no elenco do jogo de luta, "Injustice 2" e apareceu até no "LEGO Batman 3: Beyond Gotham" como personagem controlável.


Esse ano está para ser lançado um novo encadernado no Brasil cobrindo uma série de 10 edições onde o personagem foi escrito pelo Grant Morrison (Homem-Animal) junto ao Mark Millar (Guerra Civil). É estranho, mas não só nossa equipe nunca teve contato com esse material, como também conhece ninguém que tenha qualquer comentário sobre. É muito esquisito se tratando de dois autores que são tão famosos e com um personagem que todos gostam como esse. Bem, só poderemos conferir quando lançarem de novo, então vai ter que ficar de fora do nosso especial.

Hoje os dois nem se falam mais. Não é só o Alan Moore que arranja brigas, haha.
Com certeza, após esse grande retorno nos últimos anos e toda a atenção que editoras brasileiras têm dado para republicá-lo por aqui, esse incrível personagem que superou tanto as expectativas dos seus próprios criadores não será esquecido tão cedo. Em um mundo onde Batman e Superman são as principais atrações, uma grande criatura coberta de musgo e algas consegue ter seu grande espaço trazendo histórias que vão do terrível e nojento ao sensível e apaixonante, cativando e até mesmo abrindo pontos de vista novos na mente dos seus leitores. Por isso acreditamos que ele merecia a homenagem! Esperamos que tenham gostado!

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