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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ANÁLISE COLEÇÃO FRANK MILLER




Tanto nas HQs quanto no Cinema, Frank Miller é a mente por trás de muitos dos produtos mais populares dos últimos anos. Sejam releituras de personagens consagrados como Batman e Superman, ou criações de sua própria autoria, como "Sin City" e "300"; Miller sabe passar ao público experiências únicas. O grande artista trabalhou tanto como roteirista quanto ilustrador, sendo um mestre da narrativa em todos os sentidos possíveis. Para muitos o verdadeiro rei da nona arte, Miller faz diálogos cômicos de baixo calão como acontece nos melhores filmes de Quentin Tarantino, e também sabe partir para reflexões maravilhosas, competindo frente a frente com caras como Alan Moore. Pesado, obscuro, inteligente e maluco, Miller é uma enorme referência. Hoje não é exagero propor este post como um brinde a esse carinha. Hoje ele completa 60 anos! Se não o conhece, o que eu duvido muito, você deveria conhecer. Por isso estamos dedicando este post a avaliar brevemente todas as principais obras de um dos quadrinistas mais barra pesada de que se tem notícia.

"Para que as histórias com super-heróis tenham força, elas devem estar fundamentadas em algo real, seja de ordem psicológica, sexual, política ou qualquer outra coisa".




POSTS DE ANÁLISE ANTERIORES


COLEÇÃO HELLBOY



Demolidor - Início (#158 à #167)


"Eu achava que o Demolidor era meio que legal porque ele não podia fazer nada. Eu quero dizer, ele é cego. Ele não podia voar. O seu principal poder é uma deficiência. Eu ficava intrigado." Frank Miller

O primeiro contato de Miller com o Demolidor foi desenhando um título secundário do Homem-Aranha, "Peter Parker, The Spetacular Spider-Man", onde o vigilante da Cozinha do Inferno ajudava o herói aracnídeo que havia ficado cego na aventura "Um Cego Guiando Outro". Na época o Demolidor não era um personagem consagrado como hoje, que tem até série na Netflix. Na verdade, da forma que andava, sua revista mensal estava correndo risco de  cancelamento.


Mas isso veio a se tornar uma ideia surreal na edição #158 de "Daredevil", quando Miller começou a colaborar no título, mas no início só desenhando, com uma trama consideravelmente fraca, onde o Homem Sem Medo enfrenta um inimigo genérico. De qualquer forma, marca a entrada do artista no título. Depois quando o nosso autor preferido começa a colaborar com os roteiros, o herói cego tem que lidar com o retorno do maníaco Mercenário ao lado da Viúva Negra. Há aventuras contra outros vilões, como o Gladiador e o Dr. Octopus, além de um marcante crossover com o Hulk. Apesar dos primeiros enredos ainda não serem tão inovadores, aqui a qualidade  já começa a aumentar bastante.


OBS.: Toda essa fase do Demolidor já foi encadernada algumas vezes, inclusive recentemente em três edições. Eu não tenho essa última, então não tenho certeza de quais estórias vêm em cada volume, portanto vou deixando o número das edições entre parênteses, para ficar claro a qual me refiro em cada análise.


Demolidor - Fase da Elektra (#168 à #182)


"Eu queria mudar o mundo Matt. Eu costumava amar o mundo... Agora não posso deixar que ele me toque novamente."

Aqui nada mais será igual depois de "Elektra"! Introdução da inesquecível ninja sedutora. Elektra é uma vilã misteriosa que conheceu o herói Matt Murdock na faculdade. Eles tiveram um relacionamento bem apaixonado, mas agora ela retorna muito diferente, como uma impiedosa mercenária. Apesar de não ficar colocando muita complexidade com metáforas e muito aprofundamento no sentimento dos personagens, Miller consegue fazer uma relação amorosa envolvente e impactante com os dois. O pouco que ele mostra como os sentimentos de Matt são confusos quanto à sua antiga namorada e que ela ainda gosta um pouco dele conseguem deixar o leitor completamente intrigado.


Antes da entrada da Elektra a série já estava bem notável com a participação de Miller, quando ele toma conta do volante alcança um nível de excelência que só melhora. Não demora para que os dois maiores vilões do Demolidor, Rei do Crime e Mercenário, retornem trazendo provavelmente alguns dos melhores embates que já vimos contra eles. Outros personagens com excelentes participações são Luke Cage, Punhos de Aço, Vanessa Fisk e Mestre Stick. É incrível como sem desenhos muito realistas e detalhados e até um roteiro que parece super simples, Miller fez uma das melhores sequências de HQs já publicadas na história da Marvel. Ele passa uma impressão simples, mas é sensível, dramático, extremamente impactante nos momentos certos. Aqui nessa leva chama atenção uma aventura contra o Gladiador em que Matt lida com uma cliente que ficou traumatizada após sofrer uma violência muito forte. É uma sequência inesquecível, aposto que se o cara só tivesse escrito essa série já seria o escritor favorito de muita gente.



Demolidor - Clímax (#183 à #190)


"Isso não é justo! Como Mary pode estar morta enquanto os dois vagabundos que a mataram ainda estão vivos e vendendo a porcaria deles nas ruas?!"

Em "Brincadeira de Criança" o clima pesado se mantém trazendo as melhores estórias. Aqui são mostradas as consequências do tráfico e uso de drogas, após o Demolidor tentar socorrer uma garota de doze anos que estava tendo alucinações e morre de overdose. Depois a trama corre em torno de problemas que a namorada de Matt, Gleen, vem tendo com corrupção para cuidar da empresa que herdou de seu pai. Há uma estória descontraída protagonizada por Foggy Nelson, o amigo e parceiro do Demolidor como advogado Matt Murdock. Em pouco tempo os ninjas da Mão voltam com tudo, bem quando o Demolidor perde o controle de seu radar novamente, tendo que buscar ajuda com o velho Stick, enquanto a Viúva Negra volta a acompanhá-lo no combate.


A edição #190 é uma das melhores. Tendo tamanho extra, mostra nas primeiras páginas a origem da amada Elektra; explicando de forma rápida como ela chegou no ponto em que a conhecemos. O Rei do Crime que aparecia o tempo todo de uma forma meio terciária vai voltando a ter mais atenção. Impressiona como Miller e Klaus Janson usam os mesmos personagens tantas vezes, mas continuam sempre prendendo o leitor. A edição #190 traz Elektra de volta ao centro das atenções e é o melhor clímax que podiam ter feito para a HQ, com muitos dos melhores personagens tendo alguma importância. Qualquer série tem sorte de conseguir terminar com um final desses.



Demolidor #191: Roleta-Russa - O Final


"Eu vim para jogar um jogo com você. Se chama roleta-russa. Mas não é o tipo que você joga no cassino. Tradicionalmente, a roleta-russa exige uma bala, uma arma e dois idiotas. Esses somos nós."

Para acabar a série, na edição #191 Demolidor vai visitar seu arqui-inimigo, o Mercenário, no hospital. O psicopata está paraplégico em uma cama, não consegue sequer falar após o último combate que teve com o herói. Com um dos textos mais sombrios que Miller já escreveu, o personagem tira um revólver e começa a conversar com o vilão dizendo que vai jogar roleta-russa com ele. Uma vez ele aponta para o Mercenário, e outra para a própria cabeça. Não é um final feliz. Como no resto da série, aqui Matt entra em contato com muitos sentimentos nada heroicos, lidando com o cara que matou sua amada. Ele está deprimido e amargurado, nas edições anteriores estava até começando a demonstrar insanidade.


No monólogo Matt Murdock recorda toda a sua vida, momentos significativos da infância que moldaram quem ele se tornou e uma recente investigação que o fez passar por uma série de reflexões. O atormentado herói então se pergunta as consequências de quem ele é, as influências que ele passa para crianças, o heroísmo e o vigilantismo, o que ele carrega do próprio pai, tudo que o molda e aonde tudo vai parar. Esse é um daqueles trabalhos que você lê, termina e, emocionado, sabe que acabou de ler algo mais... algo diferente. Alguma coisa aquilo fez com você. A revista do Demolidor não corre mais risco de cancelamento. Frank Miller e Klaus Janson se despedem da série com força e honra.



O Que Aconteceria Se...? (#28 e #35)


"Em nem todos os mundos a história termina com o garoto se tornando um combatente do crime fantasiado... Vamos ver como um único fator divergente pode causar um mundo de diferença."

"O que aconteceria se..." era uma linha de revistas da Marvel que mostravam curiosas versões alternativas da história dos personagens. Com a colaboração de Mike W. Barr, na edição #28 Miller e Janson mostram o que aconteceria se Matt Murdock tivesse virado um agente da S.H.I.E.L.D. Na aventura quando sofre o acidente que o deixa cego, Matt é espalhafatosamente resgatado por Tony Stark, o Homem de Ferro, e levado para a S.H.I.E.L.D., onde começa a ser treinado por Nick Fury e tem que enfrentar os soldados da organização HYDRA. Na edição #35 a brincadeira é e se o Mercenário tivesse sido assassinado por um guarda ao tentar fugir da prisão? É bacana como com os artistas originais da clássica morte da Elektra, tudo realmente lembra o original, com a diferença dos rumos tomados serem diferentes. Essa última é sombria, dramática e reflexiva, uma viagem comprometida por uma realidade onde as coisas aconteceram de outra forma.




Eu, Wolverine


"Eu sou Wolverine. Sou o melhor no que faço. Mas o que eu faço melhor é nada agradável".

Sem os X-Men, Wolverine se aventura no Japão, onde encontra velhos amores e faz novos inimigos. Primeiramente, foi nessa série que Miller desenhou uma das melhores capas da história. Quase tudo que Miller coloca o dedo envolve ninja, mas aqui a criação é compartilhada com o lendário roteirista dos X-Men: Chris Claremont. A trama falha em nada e é muito bem equilibrada. A personalidade do Wolverine além de esclarecida é bem trabalhada, deixando de ser aquele personagem pobre que só tinha agressividade para apresentar ao leitor, em "Eu, Wolverine" Logan compartilha sua parte da filosofia oriental. O mutante expressa reflexões relacionadas à honra e os caminhos "do bem" ou "do mal" da vida, o yin-yang. Sua busca pelo amor o faz ter problemas com criminosos do território, que são tão estilosos quanto os do Ocidente. É divertidíssimo e possui uma forte identidade de seus criadores, inclusive do Frank Miller, apesar de receber os créditos pelos desenhos aqui. Nos últimos anos saiu duas vezes em encadernados no Brasil, ambos contavam também com uma aventura dos X-Men logo após esse arco.





Ronin


"RONIN representa um salto gigantesco no progresso criativo de Miller." Will Eisner

Após tantos excelentes trabalhos, em "Ronin" Miller faz algo completamente autoral, como só viria a se tornar mais comum na outra década. Com um estilo de mangá, é revelada a estória de um samurai que se torna um ronin e sai em busca de vingança contra o demônio Agat que matou seu mestre. Há um tremendo pulo temporal passando para uma Nova York pós-Terceira Guerra Mundial em que tudo está quase completamente destruído e vemos projetos sinistros de uma agência poderosa o que inclui uma super inteligência artificial e um garoto sem membros que serve como modelo para testes com membros cibernéticos. É no corpo desse garoto que o Ronin "encarna" na sua viagem temporal, ao mesmo tempo que Agat também vem. Na época Frank era um dos artistas que mais prometia e Ronin marcou território. Hoje pode ser visto claramente como a série sintetiza tudo que há na carreira do autor, mas acaba passando uma impressão mediana. Digo porquê. Há um pouquinho de tudo, mas não chega a ser tão ágil quanto o Demolidor, tão biruta quanto a Elektra, tão crítico quanto o Batman ou chocante como o Sin City, então acaba não adicionando muito em comparação com as obras mais famosas dele (atualmente).



Demolidor: Amor e Guerra


"E com um simples bloco infantil... ela me esfaqueia. Ela me destrói".

Vanessa Fisk, esposa de Wilson Fisk – o Rei do Crime – está em um estado mental quase morto. Então o Rei manda raptar Cheryl, esposa de Paul Mondat, um famoso médico, obrigando-o a curar Vanessa. Para isso, Fisk contrata um marginal chamado Victor. Esses são os personagens principais dessa belíssima história. Sim, o Demolidor é apenas um coadjuvante de luxo. A trama começa a ficar interessante devido aos seguintes acontecimentos:

- Victor mantém Cheryl sob cativeiro, mas começa a nutrir uma paixão platônica e sórdida por ela, e a situação começa a piorar devido a sua dependência de medicamentos.
- Paul Mondat consegue um significativo progresso no processo de cura de Vanessa e a usa para chantagear Wilson Fisk, dizendo a ele que, se quisesse Vanessa “de volta”, o Rei teria de libertar ele e sua esposa, Cheryl.

É claro que, nas poucas cenas de ação, o Demolidor aparece para “salvar o dia”, mas o principal é o suspense e o lado psicológico que Frank Miller trata os personagens. É interessante que, desde os tempos da fase clássica do “Demolidor de Frank Miller”, Miller sempre deixou transparecer, pelo menos para mim, que o ponto fraco do Rei do Crime sempre foi a esposa, Vanessa, e não o Demolidor. E nesta Graphic Novel, isto fica mais claro ainda. Os desenhos são de Bill Sienkwiecz com seus traços peculiares parecendo pinturas, mas sem ser realista. Confesso que, na época, eu não gostei muito, pois ainda não estava acostumado com este tipo de arte, e nem havia tantos desenhistas com esta característica, mas hoje, acho a arte dele muito boa. Enfim, Demolidor – Amor e Guerra é um thriller de suspense psicológico que merece a leitura e principalmente um lançamento em capa dura da Panini.

*A análise de "Demolidor: Amor e Guerra" foi enviada pelo Roger, do Planeta Marvel/DC.



Elektra Assassina


"Às vezes eu ouço os ninjas falarem sem mover os lábios. Estou aprendendo sua magia."



Na trama a Elektra tem alguns detalhes de sua origem explicados enquanto entra em uma missão contra todos para impedir que um demônio ancestral, que só ela consegue ver por causa de seus sentidos ninja, destrua toda a vida na Terra. Mas falar mais da trama de Elektra do que da forma da narrativa é errado. O roteiro não é ruim, com Miller e o desenhista Sienkiewicz fazendo suas sátiras políticas, atirando pra tudo quanto é lado, piadas nonsense inacreditáveis e belas cenas de ação. Miller mais uma vez envolve influências de estudos psicológicos, com Jung e Freud sendo mencionados mais de uma vez em relação à psique dos personagens. Mas o que mais marca é a narrativa totalmente surrealista. Apesar de ser confuso às vezes, dá pra entender o que se passa, mas o surrealismo é intencionalmente alto, mesclando o humor negro com o bobo e as insanas e intensas sequências de ação. Foi um marco nos quadrinhos. O Universo Marvel quase não tem influência, com o Demolidor, Stick e Nick Fury fazendo curtas aparições, mas o foco é mesmo a própria identidade da série, mostrando um lado bem mais sombrio da personagem em  uma aventura super insana.

"Elektra é algo inédito!" Frank Miller



Batman: O Cavaleiro das Trevas


"Ele é um personagem incrível que eu pretendo revisitar várias vezes no futuro. Ele é um desses personagens perfeitos. Você pode virá-lo do avesso, contorcê-lo, amarrá-lo em uma parede e ele ainda vai funcionar, não importa o que você fizer" Frank Miller

"Cavaleiro das Trevas" é considerada uma das principais obras, se não a principal, que deu vida nova aos super-heróis com o virar das décadas que ameaçava desgastá-los. Miller escreve e desenha aqui, daquele jeito que só ele sabe fazer. Na trama o Batman largou o combate ao crime há 11 anos. Gotham City e todo o planeta está decadente, tanto em termos culturais, quanto político-sociais e até ambientais! Bruce Wayne aposentado apresenta tendências depressivas e suicidas conforme sua existência vai carecendo de qualquer sentido. Não só o retorno do do herói à ação já é uma narrativa espetacular na primeira parte, como toda a trama que se desenvolve posteriormente.


Miller pode não se utilizar de toda a mitologia do Batman (nem metade na verdade, apenas os coadjuvantes e vilões principais) mas o que ele faz com Coringa, Duas-Caras e o comissário Gordon é inesquecível. De forma nada espalhafatosa, vemos muitos dos melhores dramas já feitos com esses ricos personagens. O único que ficou zuado foi a Mulher-Gato, aliás, o único ponto negativo dessa HQ. Mas voltando aos pontos positivos, o que dizer então do Superman? Que é colocado como uma arma do governo e no final tem que conter seu velho amigo na talvez melhor luta já colocada em uma HQ, onde se mistura poesia, os diálogos testoterônicos de sempre do Miller, uma clara referência ao Estado x o Povo e muitíssima emoção!?


Enquanto isso as pessoas desse tempo alternativo são demonstradas com curtas narrativas extremamente competentes de tragédias sociais; notícias de TV são mostradas constantemente revelando o estado trágico e ignorante da população. Isso não só influenciou para sempre o universo do Batman como serviu de influência para qualquer obra no entretenimento que procura mostrar um futuro distópico. Até sequências de clássicos do cinema como "Robocop" e "Exterminador do Futuro" tomaram um pouco de Cavaleiro das Trevas. Não há HQ mais completa.

"Mais dia, menos dia, alguém vai me ordenar a prender você. Alguém com autoridade! Quando isso acontecer..."
"Quando isso acontecer, Clark... Que vença o melhor!"






Demolidor: A Queda de Murdock


"Este lugar fede a ratos. Eu preferia ficar com um amigo. Mostre-me um e eu fico com ele. Mostre-me uma única pessoa no mundo que não tenha me traído..."

Não é sempre que temos a sorte do roteirista que trouxe o auge de um personagem voltar a trabalhar com ele anos depois. Afinal, muitas vezes ele já usou suas melhores ideias e não teria muito a adicionar. Não foi o caso. Em "A Queda de Murdock" Miller supera seu grandioso feito passado em que tinha redefinido personagens e até criado a Elektra. Os desenhos dele já eram incríveis, mas agora seu parceiro David Mazzucchelli consegue fazer ainda melhor com uma arte cheia de quadros inesquecíveis. A identidade secreta do herói foi vendida ao Rei do Crime e agora ele faz de tudo pra se vingar do vigilante calculadamente. Murdock começa a sofrer de síndrome do pânico e se vê destruído psiquicamente, socialmente e fisicamente. Como se não fosse o bastante a quantidade de revelações e acontecimentos inesperados a cada capítulo, o texto ainda é magnífico, passando uma incrível imersão do desespero que passa o personagem.


Aqui Miller representa a corrupção da forma mais assustadora até o momento. E olha que ele já tinha trabalhado assustadoramente com o Rei do Crime antes! Mas como eu disse, o escritor voltou ao seu auge para agilmente construir um andar mais alto. Além da constante montanha-russa que é a narrativa de Miller+Mazzucchelli, ainda é criado um novo personagem, o marcante Bazuka que foi introduzido na série Jessica Jones do Netflix.

"Me dá a vermelha"





Batman: Ano Um


"Eu preferiria morrer... do que esperar. Eu esperei dezoito anos, desde aquela noite... Desde quando minha vida perdeu qualquer sentido."

Com a reformulação da DC após a Crise, ninguém melhor do que Miller para restabelecer quem era o personagem Batman. Assim sendo, "Ano Um" te ambienta no passado extremo referente ao "Cavaleiro das Trevas", se Miller mostrava o Bruce Wayne aposentando o uniforme em 86, agora ele o mostrava o vestindo pela primeira vez. Não são poucos os que consideram o verdadeiro protagonista dessa HQ o novato James Gordon, iniciando sua dificílima carreira como policial na corrupta Gotham City. Assim como em CDT, aqui ele é tremendamente crível, sendo mostrado até traindo a esposa. Porém, o início de carreira do vigilante mascarado não perde o fascínio por causa disso, os sentimentos do personagem quanto ao início da sua cruzada contra o crime são mostrados de forma sensível e inesquecível. Tão bom quanto poderia ser. Aliás, podia ter sido maior. E aqui a Mulher-Gato é super legal, Miller e Mazzuchelli mostram uma jovem Selina Kyle tendo que sobreviver no complicado mundo da prostituição; Coringa e Duas-Caras também são mencionados.





Demolidor: O Homem Sem Medo


"Por ora, ele é só um jovem com coração partido. Um jovem castigado novamente."

Aqui é feita uma origem bem modesta do herói da Cozinha do Inferno. Digo modesta porque em momento nenhum ela mira em um grande roteiro pretensioso; os personagens como Foggy, Elektra, Stick e Rei do Crime são apresentados de forma simples, sem tanto envolvimento com o protagonista, de forma que os autores não passam os pés pelas mãos, contam um início bem convincente da cruzada do personagem. Os desenhos são de Romita Jr., e como sempre, eles cabem muito bem. Você vê o melhor autor que já trabalhou com o personagem mostrando a sua infância, seus primeiros dias de luta e vigilantismo, assim como os primeiros encontros com alguns dos coadjuvantes e antagonistas mais importantes da sua jornada.







Sin City


"Meus heróis em Sin City são cavalheiros em armaduras sujas, banhadas de sangue. Eles trazem justiça a um mundo que não lhes dá medalhas, não lhes dá saudações ou recompensas. Esse mundo, essa cidade, constantemente os mata pelo bravo serviço." Frank Miller

O grande projeto noire de Frank Miller na Dark Horse. Ele era o cara e basicamente a editora queria publicar com o nome dele, então deixaram ele fazer o que quisesse. Foram várias séries escritas, se passando no mesmo Universo. Constantemente os personagens carismáticos interagem e compartilham de suas estórias. Aqui Miller leva sua mitologia suja de crimes ao máximo. É muita violência e muita sujeira, como em nenhum outro trabalho anterior do cara. Os poucos personagens que cultivam bons valores estão suando e sangrando por suas vidas. Foi bem adaptado ao cinema com dois filmes dirigidos por Robert Rodriguez, com a ajuda de Quentin Tarantino e do próprio autor original. Aqui Miller roteiriza e ilustra todas as estórias, que são completamente em preto e branco, trazendo um excelente meio termo às suas maiores influências: o noire ocidental (The Spirit) e o mangá oriental (Lobo Solitário).


A Cidade do Pecado


"Hah, hah, hah, hah, hah, hah! Isso é o melhor que podem fazer, suas bichas?!"

Apesar de todas as estórias de Sin City serem polêmicas, aqui é um dos exemplos em que os níveis de violência e profanação mais se destacam. É contada uma tragédia na vida de Marv, um dos personagens mais carismáticos que Miller fez. Marv é um brutamontes sem finalidade na vida que apenas bebe muito e se mete em brigas mortais, se arrastando de um bar e um puteiro para outro durante a madrugada. O cara deixa claro já ter cometido uma série de assassinatos violentíssimos na sua vida e precisa conter problemas mentais tomando pílulas. Mas nem por causa da agressividade do personagem Miller deixa de fazer um texto envolvente, mesmo tudo sendo sinistro e bizarro. Marv vai se metendo cada vez mais em perigos com diferentes classes criminosas da cidade do pecado, algumas que ele nem imaginava que existissem! Junto à insanidade psicopata do protagonista, um dos maiores destaques são os desenhos extremamente sensuais que Miller faz de garotas lindíssimas. Realmente roubam a cena e fazem contraste aliviando os banhos de sangue.



Sin City: A Dama Fatal (A Dame to Kill For)


"Eu digo todas as coisas que jurei jamais dizer de novo. Eu pertenço a ela... De corpo e alma".

Uma das sequências que mais prende, é bem surpreendente. Conheça a cidade e muitos dos seus principais personagens. Dwight McCarthy é o clássico sujeito bravo consigo próprio e com o que se tornou sua vida; vendendo fotos comprometedoras de pessoas como um trabalho de detetive. Ele procura viver direito para não libertar uma chamada "besta", um instinto selvagem assassino que ele procura bloquear. Eis que Ava, uma velha paixão, volta a sua vida procurando ajuda por causa de seu marido atual, que ela diz ser um psicopata abusivo. McCarthy mal consegue resistir, apesar de lembrar que Ava já significou problemas na sua vida. Uma das peças mais chocantes de Miller em que ele melhor usa as características do seu estilo. "A Dama Fatal" foi a trama principal do segundo filme, com Eva Green.

Um suspense inesquecível


Sin City: A Grande Matança (The Big Fat Kill)


"Os caras são uns merdas! Eles se meteram nessa enrascada e merecem o que está por vir. Então, por que essa sensação podre no meu estômago de que tem algo muito, muito errado?"

Todas as mulheres são perigosas em Sin City, mas as principais são as prostitutas, que dominam a área criminosa do Centro Velho, onde nem os tiras ousam se meter. O problema é que esse acordo tá prestes a ser quebrado, levando Gail, Miho e companhia a partirem contra os que se opõe à ordem que foi estabelecida no território já há muitos anos, fazendo com que as prostitutas ditassem as regras do serviço sem serem desrespeitadas ou agredidas. O senso de humor negro nos diálogos é bem forte e a trama faz jus ao título. É guerra na cidade do pecado e Miller também trabalha muito bem as paranoias e surtos de ansiedade do protagonista com uma narração super criativa.

Medinho



Sin City: O Assassino Amarelo (The Yellow Bastard)


"Um velho morre. Uma garota vive. Uma troca justa. Tudo fica escuro. Eu não ligo muito."

Já vi pessoas dizerem que esse é o melhor gibi já feito. Policiais honestos e direitos em Sin City são jóias raras, Hartigan é um desses e está prestes a aposentar. Acontece que minutos antes de sua carreira terminar ele mexe com inimigos que podem fazer do resto de sua vida um inferno. Como sempre, aqui as incansáveis habilidades de narrativa gráfica do Frank Miller se destacam. Há várias páginas de uma imagem só, mas esse recurso se mostra mais eficiente do que preguiçoso, há muitas cenas impactantes. Aqui as perturbações mentais também são muito bem mostradas, você realmente entra nelas, assim como no desespero que é tentar sobreviver em uma sociedade dominada por hipocrisia, terror e corrupção. Acompanhando a estória do policial Hartigan você também compartilha de sua dor.





Os 300 de Esparta


"Isto é blasfêmia! Isto é loucura!"
"Isto é Esparta!"

Aqui o espartano Leônidas lidera o seu exército de trezentos sincronizados soldados contra o exército de persas que pretende dominar a Grécia. O que mais chama a atenção são as páginas duplas na chamativa publicação da Devir, é muito divertido de ler; Miller não deixa de ser o melhor no que faz. Em 300 ele meio que faz exatamente o que quer, sendo inspirado em um filme sobre espartanos que havia assistido na infância. Como eu disse, o mais bacana é a arte, a sequência narrativa é altamente admirável, se tratando do cara que a revolucionou, mas a estória em si tem nada demais. Se tratando de uma aventura entre culturas que existiram, Miller foi fortemente criticado por não ter feito representações tão fiéis como pesquisas indicam que elas eram, inclusive do Alan Moore. Mas é nada tão horrível, na minha opinião. Vale lembrar também que é uma ficção, e no caso uma sem pretensões muito grandes. Vale a experiência da leitura, o problema é o preço que costuma sair meio salgado.






Hoje Frank Miller faz sessenta anos. Hoje muitas pessoas são apaixonadas por histórias em quadrinhos por causa dele. A nossa homenagem visou trazer os trabalhos mais marcantes do artista, mas claro que ainda há um pouco mais. Miller voltou a trabalhar com o Batman, fez outros volumes de "Sin City" e também o polêmico "Terror Sagrado". Colaborou com várias adaptações de seus trabalhos para o cinema, com resultados divergentes. Enquanto algumas estórias como "300" e "Sin City" conseguiram marcar território no público popular, a adaptação de "Spirit", criação do seu mentor Will Eisner, foi um enorme fracasso.


Todos os trabalhos dele vêm sendo republicados atualmente no Brasil, desde sua primeira série com o Demolidor, até "Ronin", "Sin City" e "Elektra Assassina". Celebrando os trinta anos de "Batman: O Cavaleiro das Trevas", Miller trabalhou na DC junto com Brian Azzarello em uma sequência chamada "A Raça Superior", essa nova série ainda está sendo publicada atualmente, tendo estrelado entre as revistas mais vendidas. Apesar de continuar tendo os seus créditos devidamente respeitados, em comparação com outros autores como Neil Gaiman, Alan Moore e Grant Morrison, Frank não contribuiu muito artisticamente nos últimos anos, já que mesmo seus trabalhos no cinema contém nada de inédito, são todos adaptações de trabalhos antigos.


Junto com um estado de saúde debilitado por causas que Frank se recusa a dizer, o público acreditava que não veria muito mais dele no futuro, inclusive não faltava gente acreditando que ele não ia durar mais de um ano. Por incrível que pareça, em entrevistas atuais Miller afirma claramente vontade de trabalhar muito mais com quadrinhos, nas próprias palavras dele "Sempre há mais um trabalho que você quer fazer". Miller confirmou que gostaria de voltar aos seus trabalhos autorais com a Dark Horse, escrevendo mais aventuras nos universos de "Sin City" e "300". Ele comentou estar considerando com seu atual colaborador, Brian Azzarello, fazer um crossover da cidade do pecado com "100 Balas", série de Azzarello. Ele chegou a dizer que estava considerando o título "100 Balas: É só o que você tem?" pois seriam necessárias mais de cem balas para derrubar os personagens de Sin City, hehe.


Miller também diz gostar muito da Robin garota que ele criou para seu universo do Batman, a Carrie Kelly. Ele fala como nessa versão ela seria a herdeira do bat-legado e quer escrever uma graphic novel de investigação protagonizada por ela.


Enquanto relembramos seus incansáveis trabalhos atemporais, ele explica que gostaria de fazer uma série ambientada na Segunda Guerra Mundial com os heróis da DC. O Superman representaria a libertação dos oprimidos, o Batman o desenvolvimento bélico e a Mulher-Maravilha o front do Pacífico. Também fala que gostaria de fazer uma série só do Superman, pois gosta muito do personagem e só o trabalhou à sombra do Batman. E aí? O que me diz?

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