Para o Homem que já tem tudo – Entendendo a humanidade do Superman

 



Hoje é 18 de abril, o dia do Superman, a data em que se comemora o aniversário de sua primeira aparição em Action Comics nº01 (em 1938).



Sendo um dos meus super heróis favoritos, vi esse dia como o momento perfeito para apresentar uma análise de uma das melhores histórias do Superman que se passa em seu aniversário. Eu me refiro, claro, a obra icônica “Para o homem que já tem tudo”.

Escrita por Alan Moore, com os desenhos de Dave Gibbons, essa história foi publicada em Superman Annual 11, em junho de 1985, sendo uma das últimas histórias do homem de aço da pré-crise antes de sua continuidade ser reiniciada após a Crise das Infinitas Terras.



É considera por muitos fãs, incluindo este autor que vos escreve uma das melhores histórias do Superman, devido ao seu roteiro bem escrito, momentos bem ilustrados e temáticas bem complexas sobre nostalgia, desejos e dilema sobre abrir mão do passado e abraçar o presente.

Nesse texto, irei abordar do que se trata essa história e o que a torna tão marcante para muitos.

Trama

Chegou o aniversário do Superman! Para celebrar essa data especial, Batman (acompanhado de Jason Todd) e Mulher Maravilha decidem fazer uma visita ao kriptoniano em sua fortaleza da Solidão.



Ao entrarem nela, o trio encontra o homem de aço preso, em estado de transe, pela Clemência Negra, uma planta parasita que foi dada ao herói por seu inimigo, o conquistador Mongul.



Enquanto Mulher Maravilha enfrenta o brutamontes, Batman e Robin tentam soltar o Superman, o que não é fácil, pois a Clemencia Negra prendeu Clark em um sonho onde Krypton nunca explodiu e ele é casado e tem um filho.


Para se libertar, Clark tem que reconhecer a ilusão que está vivendo e encarar um de seus mais duros dilemas: Seria ele capaz de abrir mão de seu sonho para salvar outros?


Quebrando o preconceito com Superman

Como falei em ocasiões passadas, Superman costuma ser visto por alguns como um personagem chato por ser “perfeito e bonzinho demais”, um super herói estereotipado.

Embora ele ainda tenha seus fãs que amam e defendam sua imagem, até mesmo alguns eles cometem erro ao descrever o personagem apenas como um herói que faz o bem apenas porque é certo ou porque seus pais o ensinaram assim.



Das várias versões do Superman, a da Pré-Crise (também conhecido como Superman da Era de Prata/Bronze) é uma das vítimas principais dessa visão errônea, sendo associado ao clima campy da época, com muitos dizendo que ele só ficou bom quando foi reinventado pelo John Byrne (um ponto que eu já expressei minha opinião).



Não nego que o Superman tinha umas histórias e uns conceitos bem viajados (incluindo poderes bem bizarros). Mas, a medida que vai se lendo as hqs, vão descobertas várias histórias e detalhes que expõe o quão complexo ele é.

Enquanto a origem dele continua o básico que conhecemos (um bebê kriptoniano que chega a Terra e é criado por um casal de fazendeiros), tem detalhes que acabam passando despercebidos, como o fato do Clark ter memórias de seu planeta natal (nessa versão ele veio pra Terra aos três anos de idade), além de algumas experiências difíceis que ele passou incluindo sua trágica amizade com o Lex Luthor, sua dificuldade de se abrir com outros sobre seu segredo e a morte de seus pais adotivos.





O Superman dessa época era menos um herói definido pelos Kents, e sim mais um sobrevivente das estrelas, um refugiado alienígena que se sentia deslocado dos humanos com quem convivia e usava seus poderes para impedir que seu mundo adotivo sofresse o mesmo destino que seu planeta natal.

Não quero dizer que Superman era um moleque ingrato que não valoriza os amigos que ele tem. Ele ama as pessoas em sua vida e suas relações. Porém, nas palavras do próprio Superman (ver imagem abaixo), o fato dele saber que era o único de sua raça o fazia se sentir só no universo, não vendo alguém que pudesse entender seus sentimentos e as sensações que ele tinha quando usava seus poderes.



O que Alan Moore faz em Para o homem que já tem tudo é   explorar a seguinte questão: O que aconteceria se Krypton? Como seria a vida de Clark se ele pudesse viver entre seu povo, conhecendo seus pais e tendo uma família?

Como demonstrado nas cenas do sonho dele: Clark queria ter uma vida bem normal.



Ele não é um rei ou milionário. Ele não tem seus poderes ou é famoso. Ele é apenas um kriptoniano com uma família e amigos, que o amam tanto quando ele ama a eles. São esses detalhes que expõe o o quão forte é o desejo do Superman em encontrar sua comunidade, o que apenas aumenta o impacto quando aquela ilusão começa se desfazer.

 

A toxidade da nostalgia

Na vida, sempre tem momentos que trazem nostalgia para as pessoas. Sempre tem ou surgem elementos que nos fazem lembrar de algo do nosso passado. Nós fãs da cultura pop sabemos muito bem como é essa sensação, ainda mais numa época onde industrias ficam resgatando projetos, personagens e conceitos de obras passadas, tentando chamar atenção do público veterano.






Ficar emocionado ao rever algo que traga memórias é normal. O perigo surge quando esse amor do passado se tornar uma obsessão, deixando pessoas incapazes de aceitar algo novo, ao mesmo tempo reconhecer as falhas do que eles tem.

Se hoje em dia grupos como os fãs de Star Wars ou dos filmes do Zack Snyder já fazem a maior zorra pelas direções que suas franquias seguem, imagine como deve ter sido para os fãs do Superman na época, ao saberem que seu personagem iria ter sua cronologia zerada, que as histórias que eles acompanhariam não seriam mais canônicas.

Por isso, um dos melhores aspectos de “Para o homem que já tem tudo” é toda construção para o momento em que o Superman irá se libertar. Seria bem simples ter o Superman ouvindo a voz do Batman e percebendo que está preso numa ilusão.

No entanto, Alan Moore aproveita as páginas para ir introduzindo algumas sub-tramas no sonho do Clark, como o fato de Krypton estar dividida, com Jor-El fazendo parte de um movimento contra mudanças no planeta, querendo fazer o planeta voltar a ser como antes. 



Esse grupo fanático acaba não só provocando conflitos entre as massas, com um deles resultando na Kara, a Supergirl, sendo ferida.



Esses detalhes numa ilusão que deveria criar o “mundo ideal” para o Superman. servem para a ensinar Clark (e os leitores) uma grande lição: A futilidade de tentar recriar o passado.

Por mais nostálgico querer reviver uma memória, é importante reconhecer que ela é apenas um momento de uma vida variável, cheia de altos e baixos. Não importe tente preservar essa visão idealística, cedo ou tarde defeitos vão se revelando e mudanças vão se mostrando necessárias. É um fato que muitas pessoas tem dificuldade de aceitar.

A clemência negra pode ter dado ao Clark um sonho onde Krypton nunca explodiu, mas isso não quer dizer que a sociedade kriptoniana iria se manter estável para sempre. Novas crises ainda viriam ocorrer, e com elas, necessidades de mudanças e adaptação.

Obs: Algumas tragédias de Krypton, como Brainiac roubando a cidade de Kandor, ainda aconteceram nesse mundo de fantasia, revelando como visão nostalgia pode cegar pessoas as falhas presentes no passado que elas tanto idolatram.



A presença do Jor El não se trata apenas de mostrar uma tensa relação entre um pai e filho com visões ideológicas diferentes, mas também de Clark vendo em seu pai um reflexo do tipo de pessoa que ele pode se tornar se continuar a se prender a ilusão: Um velho triste e infeliz, que desejaria que o mundo dele morresse ao invés de aceitar as mudanças do futuro.



Por isso que o final dessa história é um dos encerramentos mais tocantes das histórias em quadrinhos, com Superman aceitando a perda de Krypton, mantendo as memórias preciosas de seu povo em sua mente e artefatos na Fortaleza da Solidão, mas celebrando seu aniversário na companhia de seus amigos.



A arte das emoções

Outro fator que contribui para o sucesso dessa história são os desenhos feitos pelo talentoso Dave Gibbons (de Watchmen).

Enquanto seus designs de personagens são bem proporcionais e com pequenos detalhes, seu trunfo está nas expressões dos personagens e escolha de cores.

Cada expressão facial é muito bem desenhada, com qualquer um conseguindo deduzir o que o personagem está sentindo já no primeiro olhar.



A escolha de cores, principalmente no background, também contribui para refletir a mudança de tom, deixando o leitor ciente do nível de intensidade.




Legado

Seria um crime falar de “Para o Homem que já tem tudo”, sem citar suas adaptações nos futuros projetos do herói. O mais famoso com certeza foi no saudoso desenho da Liga da Justiça sem Limites.



Embora o episódio tenha feito umas pequenas mudanças em detalhes, os produtores se mantiveram bem fieis a obra de Alan Moore e sua essência, chegando a recriar alguns dos momentos e diálogos da própria história de forma bem fiel.



O episódio foi bem recebido por várias pessoas, incluindo o próprio Alan Moore, tornando-o a única adaptação de trabalho que o autor aprovou. Isso foi uma grande conquista.

Considerações finais

Sendo um personagem com uma longa história nas hqs, cheia de retcons, reboots e alterações na continuidade, é compreensível ter dificuldade de querer investir no Superman (tal como deve ser para vários personagens de quadrinhos).

Diante desse cenário, “Para o homem que já tudo” é uma história que prova sua relevância até os dias de hoje, lembrando nós leitores de valorizamos as histórias que vimos, mas também ficar aberto para as novas experiência que poderão vir no futuro.

Mudanças são parte da vida, e podem acontecer de formas inesperadas. O Superman pode ter perdido seu planeta, seu povo e pais, mas foi sobrevivendo e seguindo em frente com sua vida, que ele encontrou novos amigos e pessoas com quem criou laços.

Essa é a verdadeira esperança que o Superman representa. Não a ideia de que “ser bonzinho significa que sua vida será eternamente perfeita e sem conflito”, mas sim a força de vontade de continuar a crescer como uma boa pessoa, ao invés de deixar que suas experiências o isolem do mundo de possibilidades.

 

Nota: 10/10



Então é isso! Qual a opinião de vocês quanto Para o homem que já tem tudo? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões nos comentários abaixo...