A Marvel parecia não saber o que fazer com o Justiceiro no MCU nos últimos anos, mas eis que temos uma boa surpresa com Justiceiro: Uma Última Morte, em que temos Jon Bernthal mais uma vez no papel do maior assassino da Marvel.
No
especial, o Frank Castle de Bernthal tem crises de fé e chega a delirar e se mutilar.
Coisa que o Justiceiro das HQs jamais faria. Depois de ele manda os Gnucci para
o Inferno, o bairro de Little Italy está um caos, porque os mafiosos é que
mantinham a ordem. Em uma das cenas, um mendigo com boné dos fuzileiros é
surrado, roubado e tem seu cachorrinho jogado na rua para ser atropelado por um
marginal. A cena é de uma violência tão gratuita que a gente sabe que no final
o Justiceiro vai acertar essa conta. Tipo quando matam o cachorro do John Wick.
Outra
coisa que o Frank Castle de Bernthal não tem muito a ver com a versão das HQs é
que ele está alheio a todo o caos que está acontecendo. Ele sai andando pelas
ruas vendo pessoas sendo agredidas e atacadas e não faz nada. Depois ele vai no
túmulo de sua família e quase mete uma bala na cabeça. O acontecimento que
causa a mudança de direção na história é quando a matriarca dos Gnucci, a Mama
Gnucci, aparece querendo vingança pela morte de seu marido e filhos e coloca
uma recompensa pela cabeça de Frank. Para quem não sabe, Mama Gnucci é uma vilã
criada por Garth Ennis nos quadrinhos, que perdeu os membros e o couro cabeludo
quando o Justiceiro a fez ser atacada por ursos polares no zoológico. Depois
disso, ele finalmente dá fim na velha a fazendo queimar viva. E com ela está a
versão do Barracuda do MCU. Não sei se muitas pessoas repararam nisso.
A
partir desse ponto é que o especial engrena, com o Justiceiro enfrentando
vários bandidos que estão atrás dele. A cena do confronto é longa e uma das melhores
cenas de ação dos últimos tempos, em que Frank usa de toda arma que consegue
para dar cabo dos bandidos, desde armas de fogo até bastões e facas. Sem dúvida,
uma das influências foi John Wick, com seu balé de violência, mas não só,
também lembra o filme Anônimo, pois Frank se machuca bastante e passa
por poucas e boas. Essa é uma versão mais humana e mais fraca do Justiceiro,
que até se difere bastante da versão de Garth Ennis nos quadrinhos da série Max,
que é quase uma força de natureza e dá cabo dos inimigos sem muita dificuldade.
E, claro, a gente também tem de dar o crédito a diretores como John Woo. Sem
ele, provavelmente os filmes de John Wick e esse especial do Justiceiro não
seriam feitos.
A
virada do episódio é quando Frank tem a oportunidade de ir atrás de Mama
Gnucci, mas desiste quando vê a família do dono do bar ser atacada. Ele liquida
os marginais e salva a menininha. Nesse ponto, surge o Justiceiro como um anjo
vingador. Depois disso, na última cena, ele liquida o marginal que matou o cachorrinho
do mendigo com um tiro na cara. Essa é a tal última morte. Que não é a última.
A partir daí, ele vai seguir sua missão de matar bandidos vagabundos que
aterrorizam as pessoas de bem. Parabéns a Jon Bernthal e ao diretor Reinaldo
Marcos Green por este especial. Mandaram muito bem.
Agora
resta saber o que será feito do Justiceiro no futuro. O personagem ainda vai ter
uma participação em Homem-Aranha: Um Novo Dia, mas será uma versão PG-13
do Justiceiro. Provavelmente, será um Justiceiro que não tem nada a ver com o de
Uma Última Morte nem como o de série Demolidor: Renascido.
Espera-se que esse seja um ensaio para que o personagem enfim tenha uma nova
série do Disney Plus. Não acho isso tão improvável, uma vez que não se sabia se
dariam sequência à série do Demolidor da Netflix, mas isso acabou ocorrendo. E
eles fazem séries bostas como Coração de Ferro e Agatha, mas não uma série nova
do Justiceiro. Isso é que é foda.
A
lacrolândia, como já era esperado, já está atacando o especial. Que audácia do
Justiceiro dar cabo em um monte de vítimas da sociedade que só matam, roubam e
estupram para poder tomar uma cervejinha e comer picanha. Vejam só. A verdade é
que o personagem sempre posicionou a Marvel em um ponto moral delicado, e isso
não é de hoje. Nos anos 80 e 90, embalado pela era dos “filmes de brucutu”, o
Justiceiro vendia tanto que chegou a ter três revistas mensais: The Punisher,
escrita por Mike Baron; Punisher War Journal, escrita por Carl Potts; e Punisher
War Zone, escrita por Chuck Dixon. Na época, a despeito do objetivo principal
das histórias serem entreter, havia um pouco de discussão social, principalmente
questionando as ações do Justiceiro e dando a entender que no fundo ele não
mudaria muito as coisas. Isso vinha mais das histórias escritas por Mike Baron
e Carl Potts, que se situavam no espectro mais da esquerda. Porém, até nas histórias
escritas por Chuck Dixon, que é reconhecidamente um autor de HQs de direita, a
gente via um pouco disso.
Depois
de uma época de saturação e de péssimas ideias, como a fase em que ele vira um “anjo
vingador”, o Justiceiro teve um novo respiro com as histórias escritas por Garth
Ennis, para as linhas Marvel Knight e Max da Marvel, em que o personagem foi
redefinido. Ennis o tornou um personagem maior e, na fase Max, o fez
existir em um mundo em que seria necessário. Claro que nessa época de
politicamente correto extremado e movimento woke, a Marvel pisa muito em ovos
em tudo que envolve o personagem. No entanto, a verdade é simples. Se fizeram coisas
que o personagem que agradem os fãs, como esse especial do Justiceiro, os fãs vão
gostar. E quem não é fã vai reclamar. Então, acho que é mais seguro e certo agradar
os fãs e mandar quem não é fã ir para a casa do cacete. Nota 9 de 10.
















