Justiceiro: Uma Última Morte - Uma nova direção para o maior assassino da Marvel no MCU - Review com spoilers

 


A Marvel parecia não saber o que fazer com o Justiceiro no MCU nos últimos anos, mas eis que temos uma boa surpresa com Justiceiro: Uma Última Morte, em que temos Jon Bernthal mais uma vez no papel do maior assassino da Marvel.


Na realidade, Bernthal tinha voltado a interpretar o Justiceiro na série Demolidor: Renascido, mas uma coisa que a gente pode dizer do personagem no MCU é que ele está bem deslocado na continuidade e até sofreu uma espécie de soft reboot. Pega o Justiceiro que aparece em Demolidor: Renascido e nesse especial, e você perceberá que eles não dialogam. Na série, Frank Castle está à vontade no papel de executor dos bandidos vagabundos, mas nesse especial ele começa perdido, pois terminou de executar os últimos responsáveis pelo assassinato de sua família, os Gnucci, e não tem mais propósito na vida.


Percebemos também que optaram por desconsiderar aquela ideia imbecil de que não foi a Máfia, mas uma conspiração de CIA com o Exército que assassinou a família de Frank, como ocorreu na série do Justiceiro da Netflix. Isso na verdade tiraria sua motivação de se tornar o Justiceiro e executar os criminosos. Apesar de gostar da caracterização de Bernthal como Justiceiro, não considero que a personalidade seja semelhante à dos quadrinhos. Nas HQs, o personagem é mais frio e mais tático, ainda que tenha seus momentos de humanidade.




O Justiceiro do Bernthal é mais emotivo, dado a acessos de raiva e até mesmo chega a chorar em algumas ocasiões. Dos atores que interpretaram o Justiceiro, os mais fiéis à versão dos quadrinhos foram Dolph Lundgren e Ray Stevenson. O Lundgren, acho o Frank Castle cuspido e escarrado. É só tingir os cabelos dele de preto que ele fica igual ao personagem. E o fato de ele ser um ator limitado é até bom, porque deixa o Justiceiro com um aspecto mais frio e pouco expressivo, como nas HQs.


No especial, o Frank Castle de Bernthal tem crises de fé e chega a delirar e se mutilar. Coisa que o Justiceiro das HQs jamais faria. Depois de ele manda os Gnucci para o Inferno, o bairro de Little Italy está um caos, porque os mafiosos é que mantinham a ordem. Em uma das cenas, um mendigo com boné dos fuzileiros é surrado, roubado e tem seu cachorrinho jogado na rua para ser atropelado por um marginal. A cena é de uma violência tão gratuita que a gente sabe que no final o Justiceiro vai acertar essa conta. Tipo quando matam o cachorro do John Wick.





Outra coisa que o Frank Castle de Bernthal não tem muito a ver com a versão das HQs é que ele está alheio a todo o caos que está acontecendo. Ele sai andando pelas ruas vendo pessoas sendo agredidas e atacadas e não faz nada. Depois ele vai no túmulo de sua família e quase mete uma bala na cabeça. O acontecimento que causa a mudança de direção na história é quando a matriarca dos Gnucci, a Mama Gnucci, aparece querendo vingança pela morte de seu marido e filhos e coloca uma recompensa pela cabeça de Frank. Para quem não sabe, Mama Gnucci é uma vilã criada por Garth Ennis nos quadrinhos, que perdeu os membros e o couro cabeludo quando o Justiceiro a fez ser atacada por ursos polares no zoológico. Depois disso, ele finalmente dá fim na velha a fazendo queimar viva. E com ela está a versão do Barracuda do MCU. Não sei se muitas pessoas repararam nisso.

A partir desse ponto é que o especial engrena, com o Justiceiro enfrentando vários bandidos que estão atrás dele. A cena do confronto é longa e uma das melhores cenas de ação dos últimos tempos, em que Frank usa de toda arma que consegue para dar cabo dos bandidos, desde armas de fogo até bastões e facas. Sem dúvida, uma das influências foi John Wick, com seu balé de violência, mas não só, também lembra o filme Anônimo, pois Frank se machuca bastante e passa por poucas e boas. Essa é uma versão mais humana e mais fraca do Justiceiro, que até se difere bastante da versão de Garth Ennis nos quadrinhos da série Max, que é quase uma força de natureza e dá cabo dos inimigos sem muita dificuldade. E, claro, a gente também tem de dar o crédito a diretores como John Woo. Sem ele, provavelmente os filmes de John Wick e esse especial do Justiceiro não seriam feitos.

A virada do episódio é quando Frank tem a oportunidade de ir atrás de Mama Gnucci, mas desiste quando vê a família do dono do bar ser atacada. Ele liquida os marginais e salva a menininha. Nesse ponto, surge o Justiceiro como um anjo vingador. Depois disso, na última cena, ele liquida o marginal que matou o cachorrinho do mendigo com um tiro na cara. Essa é a tal última morte. Que não é a última. A partir daí, ele vai seguir sua missão de matar bandidos vagabundos que aterrorizam as pessoas de bem. Parabéns a Jon Bernthal e ao diretor Reinaldo Marcos Green por este especial. Mandaram muito bem.

Agora resta saber o que será feito do Justiceiro no futuro. O personagem ainda vai ter uma participação em Homem-Aranha: Um Novo Dia, mas será uma versão PG-13 do Justiceiro. Provavelmente, será um Justiceiro que não tem nada a ver com o de Uma Última Morte nem como o de série Demolidor: Renascido. Espera-se que esse seja um ensaio para que o personagem enfim tenha uma nova série do Disney Plus. Não acho isso tão improvável, uma vez que não se sabia se dariam sequência à série do Demolidor da Netflix, mas isso acabou ocorrendo. E eles fazem séries bostas como Coração de Ferro e Agatha, mas não uma série nova do Justiceiro. Isso é que é foda.




A lacrolândia, como já era esperado, já está atacando o especial. Que audácia do Justiceiro dar cabo em um monte de vítimas da sociedade que só matam, roubam e estupram para poder tomar uma cervejinha e comer picanha. Vejam só. A verdade é que o personagem sempre posicionou a Marvel em um ponto moral delicado, e isso não é de hoje. Nos anos 80 e 90, embalado pela era dos “filmes de brucutu”, o Justiceiro vendia tanto que chegou a ter três revistas mensais: The Punisher, escrita por Mike Baron; Punisher War Journal, escrita por Carl Potts; e Punisher War Zone, escrita por Chuck Dixon. Na época, a despeito do objetivo principal das histórias serem entreter, havia um pouco de discussão social, principalmente questionando as ações do Justiceiro e dando a entender que no fundo ele não mudaria muito as coisas. Isso vinha mais das histórias escritas por Mike Baron e Carl Potts, que se situavam no espectro mais da esquerda. Porém, até nas histórias escritas por Chuck Dixon, que é reconhecidamente um autor de HQs de direita, a gente via um pouco disso.


Depois de uma época de saturação e de péssimas ideias, como a fase em que ele vira um “anjo vingador”, o Justiceiro teve um novo respiro com as histórias escritas por Garth Ennis, para as linhas Marvel Knight e Max da Marvel, em que o personagem foi redefinido. Ennis o tornou um personagem maior e, na fase Max, o fez existir em um mundo em que seria necessário. Claro que nessa época de politicamente correto extremado e movimento woke, a Marvel pisa muito em ovos em tudo que envolve o personagem. No entanto, a verdade é simples. Se fizeram coisas que o personagem que agradem os fãs, como esse especial do Justiceiro, os fãs vão gostar. E quem não é fã vai reclamar. Então, acho que é mais seguro e certo agradar os fãs e mandar quem não é fã ir para a casa do cacete. Nota 9 de 10.