Frank Castle matou a própria família, isso é um fato.

 



    Calma, calma, soltem as pedras das mãos. Sou um fã apaixonado pelo Punisher. Nunca gostei muito dos heróis, todos aqueles regulamentos morais, aqueles discursos hipócritas sobre jamais cruzar a fronteira, para nunca matar nenhum bandido. Quantos o Coringa matou? Todo esse sangue está nas mãos do Batman. Quantos o Duende Verde e Dr. Octopus também mataram? Quando somos crianças, está tudo bem achar muito grandioso o Spider ser um bom garoto e apenas tentar prendê-los, mas na vida adulta, no que a gente conhece do mundo, se ele tivesse matado seus inimigos, centenas de vidas seriam poupadas. O sangue também está em suas mãos, Peter.

    Mas voltando ao tema do título, em todas as fases de Jason Aaron e Garth Ennis (as que eu mais li), além de todas as edições com o selo Max, não me recordo de uma morte que o Justiceiro tenha cometido, que tenha me feito acreditar que ele passou do ponto, ou que foi imoral. Minha memória é fraca, mas sei que todos ali mereceram. O ponto principal aqui é que é absurdamente impossível que o Justiceiro não tenha deixado sua família ser morta.

    Sou policial há 13 anos. Passei por diversos episódios traumáticos, combates semelhantes aos que ocorrem em guerras (salvas as devidas proporções). Trabalhei em unidades especiais, de confronto direto ao crime, mas mesmo com essa experiência, eu não sou 0,000001% do que o Frank é. Nem em treinamento, nem em visão, nem em mentalidade, nem em capacidade de caça, em nenhum outro critério que possa ser colocado em uma balança. E mesmo sendo tão infinitamente inferior ao cara em todos esses aspectos, dificilmente eu baixo a guarda. Os olhos seguem atentos, longe. Se você visualiza um risco a menos de 30 metros, esse risco já é iminente, no exército também aprende-se a visualizar o perigo o mais distante possível, acima de 100 metros. Muitos homens juntos? Quais os trajes? Volume na cintura? Barulho de carros? Árvores se mexendo? Cheiro de cigarro e uísque barato? Galhos quebrando com as pisadas?  Quem lutou o tanto que o Frank lutou no Vietnã desenvolveu instintos de sobrevivência sobre-humanos, ele jamais abaixaria a guarda no Central Park (ou sei lá onde ele estava na hora, minha memória não é das melhores) em um piquenique com seus bens mais preciosos, Maria e as crianças.

    Em Born (Garth Ennis), em uma das obras que mostra a origem do nosso querido personagem, Justiceiro estava cercado por vietcongues e quase morto, quando ouviu uma voz, que pode ser interpretada como a Morte ou a Guerra e propôs um pacto com ele, ele viveria, mas teria que continuar lutando para sempre, mesmo que isso custasse o que ele mais tinha de valor (a família). O cara já saiu da guerra sabendo que ia perder a família, e o destino deles não foi selado por mafiosos se enfrentando no parque, mas sim por um "Sim" selado no Vietnã.




    Na obra que me inspirou a escrever este tópico, foi justamente sob as mãos de Jason Aaron que o Mercenário abriu esse pensamento não só para mim, como para muitos outros leitores. O psicopata doente do Mercenário recriou várias e várias vezes o cenário do que aconteceu no parque aquele dia, estudou o Castle em todas suas nuances, cada detalhe, e então o confrontou com a verdade. Ele descobriu que Frank tinha permitido que aquilo acontecesse, tanto que sabia exatamente a última frase dita pelo Justiceiro à sua esposa: "EU QUERO O DIVÓRCIO".




    O que motivou Frank a se tornar o Justiceiro? Em teoria, a morte de sua família, mas por que ele não parou quando conseguiu sua vingança? Por um simples detalhe, utilizou da desculpa do luto pela família para prosseguir fazendo o que gosta: matar. E internalizou isso em sua mente para justificar todas as chacinas cometidas.

    

    Frank Castle é um dos meus personagens favoritos dos quadrinhos, muito provavelmente pode estar até em primeiro lugar, mas é inegável que não é um poço de virtudes. É um psicopata sombrio, que sacrificou a família para continuar seguindo sua paixão, o que ele mais ama: matar



    Frank Castle não é o Justiceiro de luto que você quer ser quando fecha os olhos e sonha com justiça. Ele é o monstro que usou o caixão da própria esposa como palanque para fazer a única coisa que realmente o faz feliz: puxar o gatilho. E se você acha isso ruim, talvez devesse voltar a ler Homem-Aranha ou o Batman, deixe o Punisher para os adultos.


 


"Quando você percebe que tudo é uma piada, ser O Comediante é a única coisa que faz sentido"