A minha última publicação foi em 6 de julho. Para mim, isso parece ter acontecido no domingo passado. O
calendário, aparentemente, não recebeu a informação de que eu ainda estou
mentalmente naquela semana. É curioso como o tempo muda de velocidade dependendo
de quem olha para ele: para algumas pessoas, dois meses são tempo suficiente
para mudar de emprego, terminar relacionamento, aprender um idioma e começar
uma dieta nova; para mim, aparentemente, foi o intervalo entre abrir um
rascunho, pensar “termino isso depois” e descobrir que o “depois” já virou
setembro.
E talvez a fagulha que finalmente
me fez tirar um desses rascunhos (que comecei a escrever por volta dos últimos
dias do mês passado) da gaveta tenha vindo do último texto do Gambit sobre esquerda, direita e a recepção ao terceiro episódio de Lanterna Verde. Não vou
entrar no mérito do episódio porque eu nem estou acompanhando a série, então
seria aquela maravilhosa tradição moderna de discutir apaixonadamente uma coisa
que você não viu (algo até comum em um comentarista que me ama e finge que me
odeia). Mas o texto dele me fez lembrar de um filme que eu já vinha querendo
escrever há bastante tempo: Ficção Americana. Um filme que
foi indicado ao Oscar, que provocou toda aquela discussão previsível sobre ser
“woke”, “anti-woke”, conservador ou qualquer outra etiqueta que permita uma
pessoa decidir se deve gostar da obra antes de assisti-la.
Curioso esse conceito do “não vi
e já gostei”, né?
E o curioso é que o filme parece até brincar com isso. Ele coloca toda essa discussão política na mesa, mas usa boa parte dela como isca para falar de algo muito mais interessante.
O autor que ninguém conhece
Monk é um escritor brilhante, mas
essa não é a coisa mais interessante nele. O interessante é que, quando ele
fecha o notebook, não vira um grande representante da literatura negra
americana, não vira porta-voz de uma comunidade e muito menos uma espécie de
entidade intelectual acima das pessoas comuns. Ele continua sendo um sujeito
com uma mãe complicada, um irmão cheio de problemas, alunos que nem sempre
entendem o que ele tenta ensinar e uma vida pessoal que não está minimamente à
altura da imagem que sua carreira poderia sugerir.
Monk é apresentado primeiro como “aquilo
que ele faz”.
Um professor intelectual,
exigente, irritado com a superficialidade dos alunos e cada vez mais frustrado
com o tipo de literatura que passa a receber atenção. A primeira impressão é
justamente essa de alguém que parece existir em função da própria cabeça.
Fora da escrita, ele volta a ser
simplesmente um sujeito comum, cheio de problemas familiares, ressentimentos e
dificuldades que nenhuma discussão literária resolve. Uma aula de como um filme
consegue ser relacionável para mim nos primeiros vinte minutos...
Seu núcleo familiar se resume
mais a sua mãe e ao seu irmão, Cliff. Ele é um sujeito fisicamente imponente,
com aquela aparência que muita gente associaria imediatamente a um “macho
alpha”, e justamente por isso o filme consegue brincar com um estereótipo
que muita representação costuma repetir: o homem gay necessariamente afeminado,
frágil ou imediatamente identificável. Cliff não se encaixa nisso. E há uma
ironia dolorosa no fato de que justamente a mãe, tão preocupada em compreender
os filhos, não consiga reconhecer a homossexualidade do próprio filho porque
ele não corresponde à imagem que ela esperava. É como se até dentro de casa ele
precisasse caber numa categoria visual para que sua identidade fosse
reconhecida.
E o mais humano é que toda essa
aparência de segurança não impede que ele seja ferido. Ele pode ser fisicamente
imponente, seguro em determinados ambientes e ainda assim carregar
vulnerabilidades que ninguém enxerga. O filme entende uma coisa que parece simples,
mas que Hollywood frequentemente esquece: aparência não é personalidade e muito
menos blindagem emocional. Você pode olhar para alguém e pensar que ele aguenta
qualquer coisa, quando aquela pessoa está justamente escondendo aquilo que mais
a machuca.
Isso parece simples, mas é
justamente uma das coisas mais humanas do filme. A ficção que Monk escreve e a
pessoa que ele é não coincidem perfeitamente.
E por que deveriam?
Esse é um erro que cometemos o
tempo inteiro com escritores, atores, músicos e até pessoas comuns. Vemos
alguém fazer alguma coisa muito bem e imediatamente imaginamos que conhecemos o
sujeito inteiro. Como se um músico que compôs uma música linda tivesse
necessariamente uma personalidade interessante, ou como se um autor que
escreveu sobre sofrimento precisasse ser sábio sobre a própria vida. Às vezes o
sujeito só é bom naquilo que faz. O resto é tão bagunçado quanto o nosso.
“A coisa mais negra desses livros
é a tinta”
Uma das cenas que mais gosto
acontece quando Monk entra na livraria e vê seu livro colocado na seção
dedicada a autores negros. É uma situação engraçada justamente porque ele
percebe imediatamente o absurdo daquilo. O livro está ali não porque o conteúdo
se encaixa naquele estereótipo de literatura negra que o mercado espera, mas
porque o nome do autor pertence à categoria certa para a prateleira.
“A coisa mais negra desses livros
é a tinta”, verbaliza Monk, enquanto o vendedor fica em pânico sobre como reagir
naquela situação...
E eu gosto disso porque Monk não
está necessariamente dizendo que escritores negros não devem escrever sobre etnia.
Ele está questionando a expectativa de que um escritor negro obrigatoriamente
precise produzir a literatura que outras pessoas consideram autenticamente
negra. É aí que o filme começa a ficar realmente ácido. A pessoa que deveria
estar sendo celebrada como indivíduo é transformada em produto de uma
identidade.
Isso também aparece na sala de
aula, quando Monk analisa textos e parece cada vez mais irritado com a maneira
como certas obras são premiadas justamente por oferecerem ao público aquilo que
ele já espera encontrar. O problema, para ele, não é o autor falar de sua
experiência. É a transformação dessa experiência em fórmula, como se existir
dentro de determinada identidade obrigasse alguém a produzir sempre a mesma
história.
Essa não é apenas mais uma Ficção
Americana
Talvez a verdadeira “ficção
americana” não seja apenas aquilo que Monk inventou como piada e virou um hit,
mas aquilo que o público, o mercado e até nós mesmos inventamos sobre aquilo
que merece ser lembrado. Quanto mais simples a embalagem, mais fácil
reconhecer, vender e repetir. Um artista raramente tem o luxo de ser percebido
como uma obra inteira; quase sempre acaba reduzido ao momento em que conseguiu
atravessar a barreira do anonimato. E aí começa a parte perversa: aquilo que
deveria ser apenas um sucesso vira uma sentença. Pensa em “Ana Júlia”,
dos Los Hermanos. É uma música boa, funcionou, virou fenômeno e
praticamente ensinou o Brasil inteiro a associar a banda àquela canção, mas
quando alguém diz Los Hermanos, para uma quantidade enorme de pessoas a
conversa termina ali, como se Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante tivessem
acordado um dia, escrito aquela música e passado o resto da carreira tentando
descobrir como reproduzir exatamente o mesmo raio dentro de uma garrafa. O
público quer a familiaridade, e quando encontra alguma coisa que consegue
reconhecer rapidamente, transforma aquilo na identidade inteira do artista.
No cinema acontece a mesma coisa,
e às vezes é ainda mais injusto. Eu gosto muito de Cidade das Sombras,
por exemplo, mas é impossível falar de Alex Proyas sem que O Corvo
apareça imediatamente, como se todo o restante da carreira precisasse disputar
espaço com aquele filme. O sujeito pode dirigir outra coisa interessante,
experimentar outra linguagem, mudar completamente de gênero, mas para boa parte
do público continuará sendo “o diretor de O Corvo”. E não é uma exclusividade
dele. Existem atores lembrados por um personagem, cineastas lembrados por um
filme, escritores lembrados por um único livro, bandas condenadas eternamente
ao maior sucesso e até artistas que passam a vida tentando fugir daquilo que os
tornou famosos justamente porque perceberam que o público se apaixonou por uma
versão simplificada deles.
A ironia é que o sucesso, que
deveria ampliar a carreira, muitas vezes estreita a percepção que os outros têm
dela.
E acho que é aí que Ficção
Americana deixa de ser uma sátira sobre mercado editorial e começa a falar de
algo muito mais próximo da nossa vida. Nós fazemos exatamente isso com pessoas.
Um aluno perde a cabeça uma vez na escola e vira “o garoto que surtou”. Uma
colega no trabalho responde atravessado numa reunião e passa a ser “a
arrogante”. Um sujeito faz uma idiotice aos vinte anos e, dez anos depois
(ainda mais com os registros e juízes da internet), ainda existe alguém que só
consegue enxergá-lo por aquele episódio. Você pode passar uma década inteira
sendo engraçado, gentil, responsável, estudioso ou simplesmente tentando ser
uma pessoa melhor, mas existe sempre a possibilidade de alguém guardar uma
versão de você que cabe em uma frase e preferir aquela versão porque é mais
fácil. Afinal, uma pessoa complexa dá trabalho. Uma caricatura não. E talvez
seja justamente essa a piada mais amarga do filme: o mercado quer transformar
um escritor em uma categoria, mas nós fazemos a mesma coisa uns com os outros
todos os dias, só que sem ganhar dinheiro com isso.
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| Vamos ao elefante na sala? |
E o progressismo?
O filme não está simplesmente
dizendo que o progressismo é ruim ou que determinadas pautas são ridículas.
Seria uma leitura reducionista demais, talvez feita por gente que já foi assistir
ao filme com uma sentença pronta. O alvo é mais interessante: a transformação
da própria identidade em produto cultural, principalmente quando pessoas que
dizem defender minorias começam a tratá-las como se fossem incapazes de falar
por si mesmas.
Existe um tipo de progressismo
tão obcecado em demonstrar virtude que acaba transformando pessoas em mascotes
morais. É a lógica do “café com leite” das brincadeiras de infância: você
participa, mas com regras especiais; pode até ganhar, desde que ninguém precise
admitir que você realmente entrou na competição. Corra! já
brincava com essa contradição de outra maneira, mostrando uma admiração racial
que rapidamente fica desconfortável quando percebemos que aquela admiração
também pode ser uma forma de fetichização. Sorry to Bother
You leva algumas dessas ideias para um território ainda mais absurdo e
satírico. O mérito maior de American Fiction ao tratar desses temas é que nada
vira palestra pra quem já é convertido.
Daqui a vinte ou trinta anos, boa
parte das discussões específicas que cercaram American Fiction
provavelmente estará datada. Termos mudam, guerras culturais mudam, o
vocabulário político muda e aquilo que hoje parece uma provocação gigantesca
pode virar nota de rodapé. Mas as relações humanas continuam funcionando. A
família complicada. A necessidade de reconhecimento. O medo de ser reduzido a
uma caricatura. O artista descobrindo que o público prefere uma versão
simplificada dele.
É por isso que eu acho American
Fiction mais interessante do que a discussão sobre se ele é ou não “de
esquerda”. Ele tem, obviamente, posicionamentos e críticas políticas, mas usa isso
de gancho para discutir a nossa incapacidade de enxergar uns aos outros por
inteiro.
E talvez eu tenha demorado tanto para escrever porque esse filme bate numa coisa que me incomoda há muito tempo: eu também sou uma personagem para quem me lê. Você também é. O Gambit é. O Xandão é. Até o sujeito mais estridente e carente na caixa de comentários que aparece apenas pra dizer que tudo é woke (que está me lendo nesse exato momento, mesmo pedindo a minha expulsão do blog, um fã em negação) e que minorias tem que ser eliminadas acaba virando um personagem na cabeça de alguém.
A diferença é que alguns de nós ainda conseguem perceber isso. Outros
passam a vida inteira tentando convencer o mundo de que o personagem que
criaram para si é a pessoa real.
Uma ficção final? Acreditar que
podemos controlar completamente a história que os outros contam sobre nós. Até
daqui há dois domingos ou dois meses? Vejo vocês nos comentários.


















