Ontem eu encontrei um caderno
antigo da escola e perdi uns bons minutos olhando para uma folha pautada como
se fosse um documento arqueológico. Era daquela época em que a gente ainda
marcava de lápis a linha que ia pular antes de começar a escrever, como se existisse
alguma ética muito séria envolvendo a organização de um caderno que,
inevitavelmente, terminaria rabiscado no fim do ano.
Engraçado como certos objetos conseguem devolver uma versão de nós mesmos que já nem lembrávamos que existia.
Depois fui mexer na estante da
sala e achei uma pilha de CDs cobertos de poeira. Coloquei um para tocar,
começou Onde Anda Você, e aconteceu aquela sensação que eu odeio tentar
explicar porque sempre soa cafona quando colocada em palavras. Não era saudade
de alguém, era saudade de uma época em que a vida parecia andar um pouco mais
devagar... Deu uma vontade quase cinematográfica de acender um cigarro, abrir
uma cerveja barata e ficar olhando pela janela como se eu fosse a protagonista
de um filme francês insuportavelmente pretensioso. Felizmente não fumo (tanto
quanto antes), então sobrou só a vontade mesmo.
Resolvi ler alguma coisa para
quebrar o clima. Tinha uma pilha de livros que comprei anos atrás e sequer
tirei do plástico me encarando da estante, todos compradas naquela eterna
ilusão de que um dia eu vou conseguir acompanhar os lançamentos. Passei mentalmente
por todas, demorei pra levantar, só pensando que eu deveria escolher o próximo
passo com muito cuidado... existe um conforto quase covarde em voltar para
aquilo que já conhecemos. Abri uma caixa esquecida, encontrei uma pilha de
Marvel Max fora de ordem, organizando por capas (muitas as quais eu tinha memorizado
o número, de tanto reler) e comecei como quem não quer nada, Alias de
novo, desde a primeira edição.
Acho curioso como eu lembrava tão
pouco desse gibi, tinha só a lembrança de ter lido adolescente e achado a
Jessica Jones absurdamente descolada e engraçada, sem ler nada das entrelinhas
dramáticas que o Bendis escrevia (e como escrevia bem esse careca). Eu lia
aquilo com aquela arrogância típica de quem acha que já entendeu a vida aos
dezesseis anos. Achava incrível o jeito como ela mandava todo mundo se foder,
tava sempre entediada, fumava demais, bebia demais, confiava de menos. Hoje a
sensação foi completamente diferente. Pela primeira vez eu me impressionei com a
pose dela, só reconheci o cansaço.
Tem uma frase logo no começo que
nunca saiu da minha cabeça. A Jessica diz que parou de ser super-heroína pelo
mesmo motivo que parou de brincar de boneca. Quando li isso anos atrás, achei
genial. Hoje acho cruel. Existe uma idade em que a gente percebe que não
abandona certas fantasias porque amadureceu, abandona porque elas simplesmente
deixaram de caber na vida que acabou construindo. Crescer talvez seja isso,
descobrir que você continua sendo a mesma pessoa, só ficou melhor em esconder
as partes que davam mais trabalho.
Enquanto isso, do lado de fora, o
bairro inteiro parecia tomado pela histeria coletiva de mais um jogo do Brasil.
Gente gritando como se o destino da civilização estivesse sendo decidido em
noventa minutos, fogos, buzinas, televisão no último volume (afinal, todo mundo
tem que ser obrigado a parar a vida e torcer, até “os meninos” perderem de novo
e todo o amor virar ódio...), uma coreografia nacional que se repete há
décadas. Fechei portas e janelas e só havia eu num quarto relendo uma HQ
lançada quando muita gente que hoje comenta na internet ainda nem tinha
nascido.
Engraçado... passei a tarde
inteira sentindo saudade de coisas que continuam exatamente onde sempre
estiveram.
E por falar em saudade...
