Uma parada que sempre me impressionou no Olavo, além do colecionismo e domínio da língua portuguesa é a memória dele. Certa vez, um outro colaborador nosso, o Ney disse “Deus abençoe essa sua memória prodigiosa”. Se você mostrar um frame de um filme (e já testei isso várias vezes) ao Olavo, ele vai dizer exatamente qual filme é, e de memória. O mesmo para várias HQs e livros, parece coisa de filme, mas se mostrar uma capa de uma HQ de décadas atrás, ele fala detalhes dela de memória como se tivesse lido ontem.
Infelizmente, a maioria de nós está indo pelo caminho contrário. Não
seguimos a máxima do Batman que tentou sobreviver ao Superman soviético, cada
vez mais terceirizamos não só a nossa memória, como muitas vezes, nosso próprio
raciocínio.
![]() |
| Porque escrever não é o bastante, tenho que dar upscale num recorte pixelado de um gibi e refazer a fala para ter uma refência em HD. 🤡 |
Até uns anos atrás, pelo período de dezembro até quase fevereiro, eu
tinha que fazer um cadastro de várias pessoas de forma presencial e quase
nenhuma delas sabia o número de telefone do cônjuge, dos filhos, ou mesmo o
próprio. Quando eu era criança as pessoas tinham agendas próximas do telefone
residencial, algumas que cabiam no bolso ou mesmo as pesadas e hoje obsoletas
listas telefônicas cheia de páginas amarelas. Mas... quase todo mundo
memorizava números residenciais, fossem da escola, do trabalho e até mesmo dos
orelhões perto de casa.
Caso isso tenha outro nome na sua região, é dessa capsula de viagem no
tempo que eu tô me referindo ao falar de “orelhão”:
Quando eu tinha uns cinco ou seis anos me perdi em outro bairro (por
culpa minha, que saí correndo de perto de outra criança pra achar um parque eu
queria ir) e quando adultos me acharam já perto do começo da noite vagando
sozinho, eu soube dizer o nome da minha da minha mãe e o número de casa, e
através disso, conseguiram me devolver. Por muitos anos eu sempre contava essa
história como algo engraçado, hoje em dia, com um menino que fez 8 anos essa
semana e um que tá com quatro meses, eu consigo sentir a apreensão que isso
pode ter causado na minha mãe, isso ainda lá no fim dos anos 90.
Mas, de volta a memória. Sofro do mesmo mal, talvez em graus diferentes,
mas ainda sofro. Antes das pessoas GPTzarem a própria vida, elas tinham o
Google, e ele foi a primeira coisa que nos deu essa falsa sensação de memória.
“Ora, por que eu vou me dar ao trabalho de memorizar ou aprender isso,
se é só jogar no Google”.
Aqui eu tenho que fazer uma clara separação pro leitor que pula os
parágrafos e vai me chamar de saudosista, a minha crítica não é sobre usar a
internet para aprender algo, semelhante ao que fazíamos antes nas bibliotecas com
aquelas Barsas enormes, e sim usar a mesma como um tipo de atalho pra nossa
preguiça.
Depois Youtube, e agora tem esse lances de “IA”, que nada mais são que
chatbots treinados para ficarem afagando a nossa vaidade, muitas vezes mentindo
na cara de pau quando não encontram uma resposta real para aquilo.
Se você parar pra pensar bem, o adulto nessa situação acaba voltando a
ser a criança de 5 anos que escuta explicações “de mentirinha” do pai para as
suas dúvidas. A diferença é que a criança muitas vezes é muito safa pra aceitar
qualquer explicação.
Horas atrás, eu tinha assistido a esse último vídeo do Azarão, e ele me
fez lembrar de uma banda que eu escutei um único disco lá por volta de 2012
chamada “Os Mutantes”, e comentei com ele que esse disco me lembrava de um dos
primeiros discos do Pink Floyd que ainda contavam com o Syd Barret, um som em
especial que começava com vozes de pessoas num café da manhã.
Que disco? Que música?
![]() |
| Seguramente eu sei que é de um desses seis primeiros discos do nosso Mega post sobre Pink Floyd de 2016. |
Isso ficou ecoando na minha cabeça. Me senti aquele mago lá da Caverna
do Dragão sem nada pra sacar da cartola (se é que aquilo que ele usa pode ser
considerado uma). Meu primeiro pensamento foi “vou pesquisar o disco do PF no
Google ou jogar no Gemini”, mas daí me contive e resolvi fazer esse texto
refletindo em voz (ou no caso, letra) alta sobre a situação. Até mesmo porque
já escutei todos os discos de PF praticamente de trás pra frente, me orgulhava
de pelo menos quanto a isso, ser como o Olavo lá no começo do texto.
Pouco a pouco eu também fui entregando a minha autonomia por
conveniência. Mas... e aí? Como anda a sua memória? Mesmo que no fundo a
nossa memória seja mais sensorial (Amnésia [2000]) do que documental, mas isso pode ser papo pra
outro dia.
Nota: por
questão de orgulho e tentativa de recuperar um pouco de respeito próprio, achei
mais digno separar os discos abaixo para ouvir no celular por MP3 no VLC Player
e assim me lembrar de “algo que no fundo eu já sabia”. É apenas um pequeno
passo bancando o Ben Grimm naquela história do Quarteto Fantástico
Ultimate onde todos aceitam pílulas dos skulls para terem poderes, mas ele
se recusa preferindo continua humano. Não conhece essa história? Posso te
contar ela na próxima ou a IA da sua escolha... E me vou--
















