Um dos vilões do Batman
a ter uma das maiores ascensões quando se trata de popularidade, foi Victor
Fries, o Senhor Frio (também conhecido como Mr.Freeze ou Sr.Gelo, Sr.Zero,
Senhor Geleira,etc...).
Quando foi criado nos quadrinhos, final dos anos 50, o personagem era um cientista maluco genérico com uma arma de gelo. Tinha o aspecto trágico dele ser incapaz de viver sob temperaturas acima de zero, mas era raramente explorado. Essa foi versão que adaptações da época, como a série do Batman dos anos 60, utilizaram.
Sua imagem só veio a
mudar na década de 90, quando o personagem foi adaptado no icônico desenho
animado do Batman. Assim como fizeram com vários personagens, Bruce Timm e Paul
Dini reinventaram o Sr.Frio, tornando em um cientista estoico e movido pelo
desejo de vingar sua esposa Nora.
Essa abordagem quase
shakespeariana não só fez seu episódio de estreia “Coração de Gelo”, ser um dos
mais icônicos da animação, como tornou essa versão do Sr.Frio a mais memorável
de todas. Ela foi tão amada por fãs que a própria DC reescreveu o personagens
das hqs para se aproximar da versão melancólica do desenho.
Mas é aí que se
encontra o problema: Um detalhe que ajudou o Sr Frio funcionar tão bem na série
animada foi o fato que Bruce Timm não abusaram tanto de sua popularidade,
usando o muito pouco. Apesar de não ter sido a intenção deles (tiveram várias
discussões sobre o que fazer com o Sr.Frio após Coração de Gelo) cada aparição
parecendo parte de um grande arco para o vilão gelado, com um início e fim.
Querer usar a versão do
DCAU como base para as hqs não tem o mesmo efeito pois quadrinhos são uma
narrativa continua, com as histórias dos personagens (especialmente os
populares) nunca tendo fim. Por isso, muitos autores tendo encontrar motivos
para utilizar o Sr.Frio, o que resulta em muitas delas ficando repetitivas,
inconsistentes e sem o mesmo impacto que a série animada teve.
Esse problema também se
aplica a adaptações, que tentaram recontar a trágica história do Victor Fries,
porém raras vezes conseguiriam chegar perto de seu sucesso. Eu digo que as
únicas versões que mais se aproximaram da qualidade foram os jogos Arkham e a
série animada da Arlequina.
Por isso é
compreensível porque alguns autores optam por tentar reinventar o Sr Frio e
tentar torna-lo um antagonista que possa ser usado de forma recorrente contra o
Batman. O maior exemplo disso foi o Scott Snyder, que criou duas versões
distintas do personagem:
A primeira nos novos
52, onde Fries foi apresentado como um cientista incel, apaixonado por uma
mulher congelada.
Já segunda, mais
recente, foi no universo Absolute, onde Fries é mostrado como um monstro
macabro, que trabalha para Jack Grimm (o Coringa Absolute) e os cientistas do
Ark M, capturando suas vitimas e transformando-as em zumbis congelados.
Ambas versões atenderam
a intenção do autor, mas sofreram crítica de fãs pela falta do aspecto trágico
que tornava Sr Frio um dos vilões mais complexos do Batman.
Como ele é um dos
vilões que fãs expressam desejo de ver sendo adaptado nos filmes atuais do
homem morcego (seja do Reevesverso ou do DCU de James Gunn), eu acho que, se a
DC quiser evitar essas confusões, eles deveriam usar como fonte de inspiração
uma história do personagem que passa despercebida da atenção de alguns fãs.
Essa história é “Neve”,
um arco escrito por J.h.William III e Seth Fisher, em Legends of the Dark
Knight nº192 196 (em 2005), que recontou o primeiro confronto de Batman contra
o Sr.Frio, apresentando uma versão do personagem que teve um equilíbrio do
cientista louco da Era de Prata com a figura trágica do Bruce Timm e Paul Dini.
Trama
O arco gira em torno de
duas tramas paralelas:
A primeira envolve
Batman começando a ficar sobrecarregado em sua luta contra o crime. Embora
reconheça que precise de mais ajuda no campo, seus aliados (Jim Gordon e Harvey
Dent) são limitados por seus ideais e deveres profissionais. Então o cavaleiro
da trevas decide recrutar indivíduos para serem seus agentes.
Já segunda foca-se no Victor Fries, que é apresentado como um cientista trabalhando em um projeto de criogenia. Um dia, ele recebe noticia trágica de que sua esposa tem um tumor no cérebro.
Mesmo sendo informado pelos médicos de que não existe cura, Victor decide usar sua invenção para salvar sua esposa. Porém, sem que soubesse, seu chefe tinha alterado o dispositivo para transforma-lo em uma arma. Ao tentar usa-lo em sua esposa, Victor acaba matando Nora. Deprimido, o cientista tenta se matar, destruindo sua própria invenção. Mas a explosão alterar seu corpo, tornando-o em um homem de gelo.
Enlouquecido com
alucinações de sua esposa, Victor inicia uma cruzada contra os responsáveis por terem
tornado sua invenção em uma arma.
Eventualmente as duas
tramas se cruzam, com os aliados do Batman se envolvendo na investigação dos
assassinatos do Sr Frio, levando a um confronto entre ele e o cavaleiro das
trevas que fará os dois avaliarem suas decisões e moralidade.
Quando
um homem se torna um monstro?
O Sr Frio
desse arco tem semelhanças com a versão conhecida da Série Animada: Ambos são
cientistas que amam suas esposas doentes e é seu fracasso em salva-las que os
leva a se tornarem vilões.
Mas, o que ajuda a
versão do Neve se destacar é que J.h.William III pega os pontos que o Bruce
Timm e Paul Dini acertaram e incrementa uns detalhes, sem fazer Freeze perde
seu aspecto humano que torna tão interessante.
Embora seja
bem-intencionado e seu amor por Nora seja genuíno, Victor Fries é caracterizado
também como um homem orgulhoso, que se recusa a aceitar coisas estejam fora de
seu controle (nesse caso a saúde da Nora). Mesmo com médios dizendo que sua
esposa ainda tem tempo de vida e querendo tratar ela, Victor não lhes deu
ouvido, insistindo em coloca-la em sua câmara criogênica do que aceitar a
possibilidade de perder sua esposa no futuro. Os corruptos da empresa podem
ainda ter tido papel na morte de Nora, porém Victor também teve parte nessa
tragédia e ele claramente sabe.
Sua escolha de virar um
vilão não foi uma mudança repentina mas sim o resultado de um homem desesperado
tendo sua ilusão de controle sendo quebrada pela realidade a sua volta.
Provavelmente a parte
que vai dividir leitores é a “anjo Nora” que conversa com Fries, após sua
transformação. Apesar de parecer algo exagerado para uma história com um tom
mais sério, o roteiro deixa bem claro que ela é apenas um fruto da mente
distorcida do Sr Frio. Suas interações permitem os leitores entrarem na mente
do vilão entenderem o quão sua mente está quebrada, com “Nora” sendo a voz que
o convence a cometer seus crimes como forma deles poderem “se reunir” (pela
figura angelical, representa desejo do Sr Frio por redenção).
A princípio a busca do Sr Frio é com nobre intenções, com ele buscando impedir que a empresa que trabalhava transforme sua invenção em uma arma. Porém, como diz o velho ditado: “o caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções”. Quanto mais Victor continua a seguir por esse caminho, mas ele vai procurando pessoas para matar, sejam seus colegas de trabalho, outros empresários e toda Gotham City.
Essa atitude
lembra algo que o Bruce Wayne falou com o Robin no Batman Eternamente
“Então
vai acontecer assim: você mata, mas a sua dor não morre com o Harvey, ela
cresce. Então você sai correndo na noite para encontrar outro rosto, e outro, e
outro, até que uma manhã terrível você acorda e percebe que a vingança se
tornou sua vida inteira. E você não vai saber porquê.”
Por que Batman não treina
um exército de aliados?
Falando no homem
morcego, ele também passa por um arco durante essa história, envolvendo um caso
similar com o Sr Frio: Tal como seu inimigo, Batman também é forçado a
confrontar suas limitações e aceitar que existem coisas que ele não pode
resolver sozinho.
Enquanto Victor Fries,
em seu desespero, se isolou das pessoas, Batman optou por encontrar aliados
para sua luta contra o crime. Ele seleciona alguns indivíduos que tem
experiências em áreas que podem beneficiar sua cruzada e passa a orienta-los no
campo.
No entanto, essas
pessoas, embora simpáticas, ainda são civis sendo colocados em situações de
risco, não tendo o mesmo treinamento que Bruce. Além disso, eles são todos
adultos com personalidades fortes independentes, que colidem um com outro e com
Batman, que já dificuldade sua liderança ao se manter distante do grupo, o que
contribui para falta de coordenação que eles deveriam ter.
Isso responde a
pergunta que alguns fãs com uma perspectiva errônea costumam fazer sobre o
Batman, questionando o porquê ele nunca treina um orfanato de crianças para
serem robins: Porque eles não são crianças soldados. A bat-familia não é um
exército. Ele são uma família de jovens que Batman tentou ajudar e, no
processo, os inspirou a se unirem a sua cruzada não por meio de ordens mas
exemplo. Ele não vê uma criança e
instantaneamente decide torna-la seu parceiro. Cada um teve sua experiência que
os ajudou a se conectarem e Batman decidir a treina-los a eles a escolherem
segui-lo, seja ajudar Dick Grayson a capturar o responsável pela morte de seus
pais ou ensinar Jason a usar sua raiva contra aqueles que oprimem pessoas na rua.
Considerações
finais
Reinventar um
personagem não é uma tarefa fácil. Sempre tem o dilema sobre o que fazer de
novo ou o que preservar das versões anteriores sem fazer um plágio. Mas Neve é um dos casos onde temos um autor
conseguindo criar uma versão do Sr Frio que mantém elementos de versões
populares, mas é uma abordagem nova e, o mais importante, interessante. Isso
demonstra como um personagem e história são flexíveis, podendo serem moldados
de diferentes formas, sem perder seu significado para fãs, tanto velhos quanto
novos.
Se procuram uma
história do Batman enfrentando seu inimigo de gelo, além da série animada do
Bruce Timm ou os jogos Arkham, esse arco do Lenda do Cavaleiro das Trevas é uma
sugestão que deixo para vocês.
08/10
Então é isso! Concordam
comigo? Discordam? Qual a opinião de vocês sobre Batman: Neve? Sintam-se a
vontade para colocar suas opiniões nos comentários abaixo.




















