Semana que vem, chegará
aos cinemas um dos filmes mais discutidos pelos fãs desde seu anuncio: A
Odisseia, um novo blockbuster de
Christopher Nolan, que adaptará o clássico poema de Homero sobre o herói grego
Odisseu, e as aventuras que ele passa, enquanto tenta voltar para sua casa, na
ilha de Ítaca.
Embora o filme de Nolan seja tão aguardado, ele não é o primeiro a adaptar a obra de Homero. Já houve vários outros exemplos da Odisseia sendo adaptada em outras mídias, todas distintas, mas mantendo a essência da obra original.
No meu caso, minha
introdução a Odisseia começou na minha infância. Na época eu tinha algumas VHS,
o que incluía uma animação da Odisseia (entitulada o Cavalo de Troia).
Mas meu interesse pela
obra de Homero só viria a surgir quando assistir a minissérie de 1997, com
Armand Assante no papel de Odisseu. Era uma adaptação bem mais sombria e
próxima do poema original, representando muito bem os desafios que o Odisseu
encarou em sua jornada, e todo drama emocionante envolvendo ele e sua família.
Por um longo, eu considerei essa minissérie sendo a melhor adaptação da
Odisseia.
Porém, minha opinião
mudou quando conheci um outro projeto que adaptou a história de Odisseu: Epic - the musical.
Ele consiste
basicamente em álbum musical, produzido em 2019, por Jorge Rivera-Herrans, que
contam a história de Odisseu através das músicas e canções.
Tendo viralizado no
TikTok, o projeto criou uma legião de fãs, com muitos tendo chegado a produzir
animações e clipes para apresentar a história de forma visual, podendo ser
assistido no youtube.
Visto como ambos
projetos adaptam a Odisseia de formas distintas, esse texto irá fazer uma
comparação entre eles, para, no final, decidir qual dos dois é a melhor versão
do poema grego.
Lembro que é baseado em
minha opinião e vocês podem discordar nos comentários.
Tendo explicado isso,
vamos começar...
É HORA DO DUELO!
O
herói
Um dos grandes motivos
pelo qual a Odisseia é uma história tão lembrada até os dias hoje se deve ao seu protagonista, Odisseu (ou Ulisses para quem prefere tradução latim). Ele não
era um semideus, com poderes sobre-humanos, como Hercules, ou movido por desejo
de glória ou heroísmo, como Aquiles ou Teseu. Ele era um rei inteligente,
tentando retornar para sua ilha natal, onde sua família o esperava.
Maioria desses aspectos
são representados de forma de igual qualidades tanto pelo filme quanto o
musical, fazendo o público se interessar pelo Odisseu e sua jornada.
O ponto que eles
diferem é no desenvolvimento do rei de Ítaca durante suas viagens.
No filme de 97, o
Odisseu é mostrado sendo um guerreiro corajoso e nobre, mas com uma postura
arrogante, achando que ele pode fazer tudo sozinho e sem a ajuda dos deuses.
Então, seu retorno pra casa se torna um arco de humildade, com Odisseu
aprendendo a não se deixar levar pelo orgulho e se reconhecer como um mero
mortal (uma lição comum nas histórias de mitologia grega).
Já no Epic, Odisseu já
é mostrado como um guerreiro bem contraditório. Um rei nobre e pai responsável,
mas também um general responsável por ajudar os gregos a destruírem uma
civilização, escravizando e matando vários inocentes. Logo nas primeiras duas músicas (The Horse and the infant e Just a Man) é mostrado esse paradoxo com
Odisseu, por ordem dos deuses, matando Astianax, filho infante de Heitor, para
impedir que ele se tornasse um adulto e buscasse vingança. Ele não sentiu
orgulho de suas ações, mas o fato de que ele acatou as ordens dos deuses cria a
questão ao redor desse Odisseu: Ele é um homem bom?
Seu desejo de querer voltar para sua família é compreensível e ajuda o público ter simpatia por Odisseu, mas o que ele disposto a fazer para realizar esse desejo, é onde essa simpatia começa a ser questionada, não só pelos fãs, mas pelos personagens, com muitos sofrendo com as consequências das decisões dele.
Mesmo quando chega em Ítaca, Odisseu tem que lidar com o peso de saber das ações que tomou para chegar lá, questionando se ele digno dessa felicidade após tudo que passou e como ele seguirá em frente com tanto pecados em sua consciência.
Essa direção que o
personagem segue pode ser controverso para alguns devido a forma como
descontrói a imagem idealística do Odisseu. No entanto, eu penso diferente:
Esse arco do Odisseu consegue trazer o personagem para um contexto mais
moderno.
Tenham em mente que, na mitologia grega, a representação de herói não é como nós pensamos hoje em dia
(caras bons, que sempre fazem a coisa certa). Em muitas das histórias eles eram
conhecidos por matar monstros e fazerem atos sobre-humanos, com suas tragédias
servindo para ensina-los a serem humildes e reconhecerem que não são
invencíveis e tem limitações.
Epic trabalha a questão
da moralidade do Odisseu. Suas tragédias servem para fazê-lo perceber a
dificuldade se manter 100% puro e que suas ações tem consequências. É um
desenvolvimento que funciona melhor para o público atual e sua visão do que
define um “herói”, sem perder a essência do herói grego.
Sendo assim, apesar da
versão do Armand Assante ser bem cativante (principalmente nas expressões
faciais), eu acho o Odisseu do Epic muito mais complexo.
Vencedor:
Epic – O musical (2019)
Elenco
de apoio
A jornada de Odisseu
não seria tão interessante se não fosse pelos personagens envolvidos nela.
Nesse ponto nenhuma das adaptações decepcionou, dando a cada personagem momento
de destaque e uma influência na narrativa.
Começando pela família
do herói, composta por sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco, eu acho que o
filme/minissérie 1997 foi melhor, por ter dedicado várias cenas para
estabelecer a relação de Odisseu com eles e o sofrimento que os dois passam na
ausência do herói, com Penélope tendo que suportar os pretendentes, ao mesmo
tempo evitar que Telêmaco seja morto por causa de seu temperamento e
impulsividade.
No Epic, os dois não
são ruins, mas não fazem tanta coisa, exceto por Telêmaco convencer Atena a
ajudar seu pai a voltar para a casa.
Tendo falado da família
do herói, é justo falar dos companheiros de Odisseu em sua jornada.
Curiosamente a forma como a história aborda os personagens varia dependendo da
adaptação.
No filme de 97, os
soldados de Odisseu não são tão desenvolvidos, mas o recebem várias cenas que
expõe suas personalidades próprias, seja o curioso Antipulo, o grande e comilão
Polites ou o leal língua de prata Euriculus. Além disso, o filme faz o público
acreditar no respeito deles pelo Odisseu, mesmo que eles, de vez em quando,
desobedeçam suas ordens.
Dos tripulantes de
Epic, apenas Polites e Eurilicus recebem atenção, com o primeiro agindo como o
otimista do grupo, enquanto o outro tem uma postura mais crítica e realista.
Porém os dois personagens e direção que suas histórias seguem tem uma
influência na evolução do Odisseu.
Outros personagens que
tem um papel importante em ambas adaptações são os deuses gregos. Enquanto a
versão de 97 retrata eles como muitos esperam, sendo indivíduos misteriosos,
que ocasionalmente interferem em eventos da história, o Epic consegue ser
melhor, não só dando os deuses designs bem criativos, mas também personalidades
bem mais carismáticas.
Dos olimpianos, a mais
destacada é Atena. Nada contra Isabella Rossellini, que tem uma forte presença
com ao deusa da sabedoria, mas a versão do Epic ganha muito mais
desenvolvimento em sua relação com Odisseu. Ela começa com uma mentora para o
herói, mas, após um desentendimento, ela vem reconhecer suas próprias falhas.
Isso culmina em um dos momentos mais épicos do musical, onde Atena confronta os
deuses para ajudarem Odisseu. Como não achar ela uma personagem top?
Entretanto, apesar de
todo elogio que dou para versão da Atena e dos deuses do Olimpo do Epic, sinto
que o vencedor dessa categoria é o filme/minissérie de 97, que soube
desenvolver os personagens mortais e seus relacionamentos, o que, pra mim, é o
aspecto chave para que viagem de Odisseu possa ser tão cativante.
Vencedor:
A Odisseia (1997)
Vilões
Durante sua viagem para
Ítaca, Odisseu e seus homens são obrigados a enfrenta vários perigos e
criaturas mitológicas. Como os eventos dessa jornada mudam dependendo da
adaptação irei falar apenas dos vilões incluídos em ambas adaptações.
O primeiro é o Polifemos,
o ciclope que prende Odisseu e seus homens, quando esses acabam invadindo sua
caverna.
Nesse caso a vitória
pertence a Odisseia (1997). Embora a versão de Epic tenha um design bem
assustador e uma motivação compreensível para sua agressividade (afinal,
Odisseu e seus homens invadiram sua casa e estavam roubando suas ovelhas), a
versão de 97 tem um equilíbrio melhor de um grandalhão ingênuo, porém
ameaçador. Suas interações com Odisseu são cheias de suspense, visto que
Polifemo pode decidir matar ele e seus homens a qualquer segundo.
Depois do ciclope,
temos a feiticeira Circe, responsável por transformar os homens de Odisseu em
porcos. Assim como Polifemos, ela é outra personagem que foi melhor
representada no filme de 97, vivida pela Bernadette Peters, que deu a
personagem um maneirismo e charme de femme
fatale. Toda vez que acha que Odisseu passou a perna na bruxa, ela revela
um ás na manga.
A Circe do Epic tem uma
boa construção, com sua música estabelecendo-a como uma rival intelectual a altura
de Odisseu. Mas, no final, ela acaba sendo uma personagem mais simpática,
agindo para proteger suas servas ninfas.
Outros inimigos que
também foram melhor representados no filme de 97 foram os pretendentes de
Penélope. Parte disso se deve ao fato do filme/minissérie dedica mais cenas aos
eventos que estavam acontecendo em Ítaca, dando ao público uma ideia do
sofrimento que a família e os servos de Odisseu estavam passando nas mãos
desses nobres arrogantes. Quando Odisseu retorna e começa a elimina-los, passa
uma sensação de recompensa, de ver o herói aplicando o devido castigo nesses
vilões depois de tanto sofrimento que eles causaram.
Isso é algo que faltou
nos personagens do Epic, que não dedicou tanto foco neles. Tirando a música “Hold Them Down”, os pretendentes acabam
não tendo momentos que convencem como uma ameaça.
Mas, outro motivo desse
erro, se deve ao fato que o confronto deles com Odisseu vem acontecer logo após
o herói ter tido uma batalha épica contra o personagem é o grande antagonista
da obra: Poseidon.
Diferente de Polifemo e
Circe, dessa vez a situação de Poseidon é invertida nas adaptações: A versão de
97 é bem mais compreensível em suas ações, com seu desprezo pelo Odisseu se
devendo a ingratidão que o herói demonstrou ao deus do mar, quando esse ajudou
na queda de Troia. Apesar dos problemas que causa ao retorno do herói grego,
Poseidon não busca mata-lo, mas sim faze-lo aprender humildade.
Enquanto Poseidon de 97 encerrou sua rixa após Odisseu reconhecer seu erro, o do Epic não tem tal misericórdia. Já de cara em sua introdução, Poseidon é estabelecido sendo um deus impiedoso, que nunca deixa de lado uma vingança. Nas palavras do próprio, em sua canção Cruel, ele acredita que “ser cruel é ser piedoso com nós mesmos”.
Isso torna Poseidon um contraste perfeito ao Odisseu, um guerreiro que busca escapar do monstro que ele sente que a guerra lhe transformou, com o deus do mar sendo um dos que mais desafiam sua crença. Toda tensão criada entre eles contribui para um confronto tão espetacular que, para muitos fãs, foi o verdadeiro clímax de Epic, enquanto a luta de Odisseu contra os pretendentes pareceu um bônus.
Então, no final, ambas
adaptações tiveram representações boas dos vilões, mas 97 soube representar
melhor a maioria deles, deixando serem antagonista mais cruéis, que os fãs
“amam odiar”.
Vencedor:
A Odisseia (1997)
Visuais
e cenas de ação
Essa categoria de
comparação vai ser meio injusta, mas acho importante aborda como as duas
adaptações consegue recriar o mundo de mitologia grega em suas respectivas
mídias.
Embora o filme do Armand
Assante tenha sido feito com o orçamento uma minissérie dos anos 90, os
produtores souberam recriar os cenários e visuais dos personagens. Destaque
para os monstros mitológicos, que foram feitos com um bom uso de efeitos
práticos e CGI.
Nem tudo é perfeito,
tendo alguns efeitos que são meio datados para a época, mas não a ponto de se
tornarem distrações.
Não só os Youtubers
souberam recriar o ambiente da obra de Homero, mas eles também subverteram a
expectiva com os visuais de algumas figuras, como no caso do Polifemos, das
Sereias, Scylla ou Eolos, dando a eles aparência distintas do que muitos
estavam acostumados.
Outra vantagem da animação está nas cenas de ação, que são bem mais rápidas e dinâmicas, conseguindo prender a atenção do espectador até o fim. É algo que o filme foi incapaz de fazer, por ser live action, portando limitado pela realidade.
A forma como ambos
representam o mundo da Odisseia é impressionante, mas a animação do Epic
conseguiu ter a abordagem mais criativa, ganhando essa rodada.
Vencedor:
Epic – O musical (2019)
História
As duas histórias são
boas adaptações do poema de Homero. Ambos tem elementos que eles mantém da obra
original, tem alguns que eles excluem, e outros que eles alteram. Mas, em
roteiro, as duas capturam a história de um guerreiro tentando desesperadamente
voltar para a casa.
A diferença se encontra
no que a trama geral escolhe focar.
A Odisseia se mantém
centrada na luta do Odisseu para poder voltar para a casa. Por isso ela adota
uma narrativa mais direta já introduziu a vida do Odisseu antes de ser chamado
para guerra e torna a ilha, a família e servos parte destaca na trama, fazendo
o público se importa tanto com Odisseu quanto sua família e torcer para que
eles possam se reencontrar.
Isso foi uma grande
mudança do poema original, onde maior parte do primeiro ato é contado do ponto
de vista de Telêmaco e Odisseu assume o protagonismo na segunda metade pra
frente e ele não tem um arco.
Epic segue uma direção
parecida com a do poema, exceto por começar com Odisseu no final da guerra e o
arco com Telêmaco só vem acontecer após a Saga do Trovão. Mas as mudanças mais
significativas tem a ver com a abordagem mais psicológica que o musical escolhe
dar para o arco do Odisseu, com seu desejo de voltar para a casa entrando em
conflito com seus valores morais. Ao invés de puni-lo por sua arrogância, a
jornada de Odisseu em Epic parece puni-lo por sua ingenuidade de achar que pode
voltar para casa, ignorando suas ações cometidas na guerra (uma clara alegoria
a dificuldade de veteranos em se reinstalar em sociedade).
Isso pode parecer uma
mensagem pessimista demais, como se adaptação estivesse tentando virar um filme
do Zack Snyder da vida. Felizmente, o musical não glorifica crueldade sobre
altruísmo, visto que, quando Odisseu decide ser mais impiedoso, suas ações
acabam levando seus homens a realizarem um motim. Não importa o caminho que ele
seguisse, suas ações tinham consequências. A mensagem do musical é sobre
Odisseu ter que encontrar um equilíbrio entre piedade e violência, a aceitar
seu lado bom e sombrio, se ser capaz de vencer com as consequências.
No entanto, mesmo que
esse foco maior no Odisseu possa ser interessante, eu sinto que Odisseia faz um
trabalho melhor mantendo a atenção no coração do poema que é Odisseu e também
sua família, usando seu tempo para criar um paralelo entre ele Penélope e Telêmaco,
conforme eles vão encarando injustiças, tentações e sofrimento, e mesmo assim
conseguindo se reunir por causa dessa conexão permite eles suportarem as
provações. Foi essa temática sobre amor e família que me levou a me interessar
pela Odisseia e é isso que me leva a gostar do filme/minissérie.
Logo, apesar de ter
curtido o desenvolvimento do Odisseu em Epic, a Odisseia 1994 continua minha
adaptação favorita da obra grega e, portanto, a vencedora desse duelo.
Campeão: A Odisseia (1997)


_poster.jpg)





















