Acabou o pão e circo


 💊Extraído do canal: JJ

🧩Vídeo completo:



“[...]...Essa é a necessidade desesperada de ter algo, qualquer coisa para torcer, porque a vida real é tão cinza e tão dura que a única válvula de escape é gritar “o hexa”. Como se isso fosse pagar as contas no final do mês.

Ó, já tô sendo o cara chato aqui. Era só para falar de futebol, né? Mas é que é triste, cara, porque se você começar a pensar na Noruega, por exemplo, a gente perdeu pr para ela, né? A Noruega, cara, é o país do Frozen, do salmão, do frio desgraçado, onde o Sol some por 6 meses e as pessoas parece que saíram de uma fábrica de bonecos de luxo.

Sabe qual que é o maior problema do Brasil contra a Noruega? Não é o Haaland, é o estilo de vida. Na Noruega as pessoas estão com uma educação de ponta, índice de criminalidade tão baixo que o maior perigo é escorregar no gelo. Enquanto aqui a gente tem bala perdida, político corrupto, desmatamento, inflação e o nosso maior herói nacional é um jogador de futebol que fez um gol de bicicleta.

É claro, a gente perde no jogo, mas a gente ganha em várias outras coisas, tipo o índice de homicídios, a gente ganha de lavada, né? A gente é quase campeão mundial nisso. Corrupção, a gente tá no topo do pódio, também pode comemorar aí, brasileiro. Evasão fiscal, a gente é referência internacional, tá?

Mas ninguém comemora isso. Ninguém chora no bar porque o Brasil é um país com maior assassinato per capita do mundo civilizado.

Não, a gente chora porque o Haaland fez dois gols, né? Esse cara aqui tem bostilheiro falando mal dele, cara. Cara, tem 1,95 de altura. Parece um deus nórdico esculpido. Tem dinheiro para comprar a ilha de Fernando de Noronha, se ele quiser. Mora na Inglaterra, joga no Manchester City, ganha o que a gente nunca vai ver na vida. Come salmão orgânico e faz treino de respiração num criogênico. E a gente vê os brasileiros médio, né, sentado no sofá lá comentando que o cara é feio. Enquanto você tá aí gordo, calvo, endividado e estressado, o Haaland tá nadando em uma piscina de notas de euro com a namorada modelo e ele literalmente ganhou o jogo. Ele vai dormir hoje na casa milionária dele e amanhã vai acordar e a vida dele vai continuar perfeitamente, com ou sem a sua aprovação estética. E falo mais, até os jogadores do Brasil depois de perder voltaram para a Europa, pros Estados Unidos nas mansões dele. E o povo continua nesse país.

E mesmo assim as pessoas agem como se tivesse acabado de receber a notícia de que o cachorro morreu atropelado. Qual que é o limite disso? Até quando a gente vai colocar toda a nossa energia, toda a nossa emoção em um espetáculo que não é nosso? Aqueles jogadores não são Brasil, como eu falei, eles moram na Europa, ganham em euro, dirigem carros que custam mais do que nossa casa. Eu vi gente falando que parcelou uma uma camisa original de R$ 500, tipo, em 12 vezes. Isso é triste demais. É muito triste só para ter essa ilusão de pertencimento.

No fundo, no fundo, eu acho que é exatamente isso que eles querem. A CBF, a Nike, os patrocinadores, eles amam ver a gente nesse estado. Eles lucram com o nosso sofrimento. Eles lucram com a nossa esperança. Cada pênalti perdido, cada gol tomado, cada lágrima do bar, isso é dinheiro. Porque amanhã a gente vai estar comentando sobre o assunto, vai discutir no Twitter, vai comprar uma camisa nova, vai assistir o próximo jogo e o ciclo recomeça. É o pão e circo moderno, cara.

E é óbvio, mas a gente não vê, não quer ver, porque a realidade é muito feia de se encarar.

Mas é isso, né? Daqui mais de 1000 dias aí, não sei, tem a próxima Copa e a gente vai buscar o hexa de novo, né? Até lá o Brasil vai est a mesma coisa, senão pior. [...]”