Este texto nasceu de uma conversa longa com o Rafael nos comentários daqui há pouco mais de um mês. A discussão começou falando sobre liberdade de expressão, limites de moderação e o papel do dono de um blog dentro da própria comunidade, mas ficou ecoando na minha cabeça por muito mais tempo do que eu imaginava. Talvez porque tenha esbarrado numa questão que me acompanha há anos: sobre o que vale a pena escrever? A verdade é que eu gostaria de escrever sobre muita coisa. Tenho assuntos suficientes para preencher meses de publicações (ou não, não vou deixar o Oz sonhar). O problema nunca foi falta de pauta e sim olhar para um tema, perceber o tamanho dele e sentir uma preguiça quase física de começar. E antes que alguém aponte a ironia do "se eu tivesse um blog" abaixo, eu considero este espaço um pequeno pedaço meu, mesmo não sendo minha casa. Tenho até um blog privado que funciona como uma gaveta digital cheia de rascunhos, ideias incompletas e textos que provavelmente nunca verão a luz do dia(aos poucos que tinham essa dúvida ao clicar no meu perfil do Blogger). Mas, sendo sincera, o que mais me atrai em escrever nunca foi o desabafo pelo desabafo, nem a simples quebra da rotina. O texto nunca termina enquanto ele traz comentários.
Sempre me interessei mais pela
conversa que nasce depois, pelo momento em que alguém lê uma ideia e devolve
algo que eu não tinha considerado. Talvez por isso a pergunta que ficou daquela
conversa com o Rafael não tenha sido sobre liberdade de expressão. Foi
outra: existem temas que eu evito escrever não por falta de interesse, mas
justamente porque me interessam demais?
Quanto mais envelheço, mais
percebo que a pergunta "sobre o que você escreve?" é
menos reveladora do que a pergunta "sobre o que você se recusa a
escrever?". Quase todo mundo fala do que ama, do que odeia ou do
que considera importante. O que realmente entrega uma pessoa são os assuntos
que ela olha, considera e deixa passar.
Se eu tivesse um blog... eu
evitaria escrever sobre escândalos políticos do dia. Não porque política seja
irrelevante, mas porque existe algo de melancólico em gastar horas construindo
um texto que envelhecerá mais rápido do que uma caixa de leite esquecida na
geladeira. Hoje um ministro, amanhã um deputado, depois um empresário, um
influenciador, um vazamento, uma investigação, uma crise. O assunto muda, os
personagens mudam, mas a estrutura da discussão permanece estranhamente igual.
Muitas vezes a sensação não é de estar acompanhando a História, mas de estar
assistindo diferentes temporadas da mesma série, uma série cuja todas as
temporadas são reformulações de algo que nós já assistimos.
Também evitaria escrever sobre
celebridades.
O problema é que raramente
discutimos pessoas. Discutimos projeções. Discutimos versões editadas,
fotografadas, assessoradas e cuidadosamente embaladas para consumo público.
Existe uma quantidade absurda de energia intelectual sendo gasta tentando
decifrar indivíduos que, na prática, ninguém conhece.
Mas talvez o tema que eu mais
evitaria HOJE fosse autoajuda. Nem todo conselho é inútil, alguns são
excelentes. O problema é a complexidade da vida é comprimida em dez passos,
sete hábitos ou cinco atitudes infalíveis. Existe algo quase religioso na ideia
de que sofrimento, fracasso, solidão, ansiedade, arrependimento e perda possam
ser derrotados através de uma sequência organizada de bullet points. A
experiência humana tem muitos defeitos, mas o principal deles certamente não é
a falta de listas.
Pensando bem, talvez todos esses
exemplos tenham algo em comum. O problema nunca foi política, celebridades ou
autoajuda. O problema é a economia da atenção. Existe uma pressão constante
para que a gente opine sobre o mais recente, o mais urgente e o mais
barulhento. Como consequência, assuntos que realmente moldam uma vida acabam
ficando no canto da sala enquanto todos correm atrás da próxima sirene.
É curioso observar como pessoas
passam anos discutindo governos sem nunca refletir seriamente sobre a
natureza do poder. Passam anos discutindo felicidade sem definir o que
entendem por felicidade. Muitas conversas modernas me lembram alguém debatendo
a decoração de uma casa enquanto ignora completamente a fundação.
Talvez por isso eu goste tanto de
comentários longos em blogs, fóruns antigos e conversas que saem do roteiro. Elas
têm um “defeito” enorme: são lentos. Mas justamente por serem lentas permitem
uma coisa rara:
Permitem que uma ideia seja
explorada antes de ser julgada.
Hoje quase tudo exige
posicionamento imediato. Concorda ou discorda? Sim ou não? Está dentro ou está
fora? A reflexão virou um intervalo inconveniente entre a pergunta e a torcida
organizada.
No fim, acho que os assuntos que
evitamos revelam nossos valores porque mostram onde acreditamos que nosso tempo
é melhor empregado. Tempo é uma das poucas moedas verdadeiramente democráticas
que existem. Bilionários e desempregados recebem exatamente vinte e quatro
horas por dia. A diferença está em como cada um decide gastá-las. Talvez seja
por isso que eu desconfie tanto de determinados temas. Não porque sejam
proibidos, indignos ou inferiores. Apenas porque a vida parece curta demais
para dedicar suas melhores horas a discussões que desaparecerão antes mesmo de
você terminar de explicá-las.
Só que existe uma ironia nisso
tudo.
Porque enquanto eu dizia que
evitaria determinados assuntos nesse ano, percebi que já escrevi sobre vários
deles aqui mesmo no ano passado. Já escrevi sobre cultura de cancelamento, personagens
fictícios como se estivesse escrevendo sobre pessoas reais. Já escrevi sobre
guerras culturais que provavelmente continuarão existindo muito depois que este
texto afundar nos arquivos do blog (e acredite, isso leva menos do que uma
semana).
E não me arrependo.
Porque talvez a diferença não
esteja no tema. Talvez esteja na motivação. Quando escrevi sobre Sidney Sweeney, por exemplo, nunca me interessou a atriz em si. Não sei e nem quero
saber em quem ela vota, não sei o que pensa sobre metade dos assuntos que
mobilizam a internet e, sinceramente, não me importo. O que me interessava era
o mecanismo. Era observar a velocidade com que algumas pessoas conseguem
transformar uma mulher de símbolo de empoderamento a ameaça ideológica
dependendo apenas de quem está segurando o megafone naquele dia. O texto nunca
foi só sobre a Sidney Sweeney.
A mesma coisa aconteceu quando escrevi sobre a forma como determinados discursos contemporâneos parecem incapazes de enxergar qualquer virtude masculina sem acrescentar uma nota de rodapé pedindo desculpas. Muita gente leu aquilo como uma defesa dos homens. Não era. Era uma crítica à assimetria. Eu me interesso por desequilíbrios. Sempre me interessei. Quando uma sociedade começa a tratar um grupo inteiro como suspeito por padrão, pouco importa se esse grupo é homem, mulher, rico, pobre, religioso ou ateu. Meu instinto não é correr para a arquibancada. Meu instinto é perguntar quem está distribuindo os uniformes...
Talvez seja por isso que eu nunca
consegui me encaixar completamente em tribo nenhuma e tenha certa resistência a
fazer partes de grupos, mesmo em redes sociais.
As tribos costumam funcionar
melhor quando existe um conjunto relativamente estável de respostas aceitas por
todos. Isso não é necessariamente um defeito; grupos precisam de algum grau de
consenso para continuar existindo. O problema aparece quando a preservação
desse consenso se torna mais importante do que examinar se ele continua fazendo
sentido. Por isso sempre tive dificuldade em me sentir completamente
confortável dentro de qualquer grupo organizado. Não porque eu valorize
discordar por discordar, mas porque me interessa mais entender por que uma
ideia é considerada verdadeira do que simplesmente aceitar que ela seja.
Talvez seja também por isso que
eu tenha mais simpatia por quem descreve o que observa do que por quem assume a
obrigação de defender um lado específico. A defesa de uma causa acaba sendo
exigindo ir para o lado das concessões seletivas. A observação exige atenção
aos fatos, inclusive quando eles complicam a narrativa que gostaríamos de
contar.
O aliado muitas vezes aceita uma
mentira porque ela ajuda sua causa. A testemunha tem a obrigação de descrever o
que viu, mesmo quando isso prejudica quem ela prefere. E talvez seja exatamente
por isso que alguns textos envelhecem melhor do que outros.
Os textos que escrevi movida por
irritação ainda me parecem honestos. Os textos que escrevi movida apenas pela
vontade de vencer uma discussão já me interessam menos (ou o tempo que eu perdi
discutindo com algum troll com questões mal resolvidas achando que “me derrotou”).
A raiva pode produzir bons argumentos, só ressentimento quase nunca produz boa
análise. O Michael Corleone dizia isso, só que de maneira muito mais objetiva e
memorável no subestimado “O Poderoso Chefão: Parte III”.
Quando releio alguns dos meus
textos antigos, percebo que às vezes eu estava discutindo um filme, uma HQ ou
uma série, mas na verdade estava escrevendo sobre outra coisa. Quando critiquei
certos roteiristas modernos, não era porque eles eram incompetentes. Era porque
pareciam ter medo. Medo de desagradar. Medo de criar personagens imperfeitos.
Medo de permitir que um protagonista estivesse certo pelos motivos errados ou
errado pelos motivos certos.
O medo é um dos grandes censores
da arte contemporânea. Uma sociedade pode sobreviver a censores, o que ela
dificilmente sobrevive é ao momento em que os próprios artistas passam a se
autocensurar antes mesmo de alguém pedir. Talvez seja por isso que continuo
voltando para os mesmos assuntos por caminhos diferentes.
Mas porque quase todos esses
temas são só máscaras diferentes cobrindo a mesma pergunta. O que acontece
quando as pessoas começam a ter mais medo de dizer o que pensam do que de
estarem erradas?
Essa, Rafael, acredito que seja a
pergunta que mais me interessa, mas há semanas atrás, eu não sabia como te
dizer.






