Os Homens Que Eu Mais Respeitei Não Eram Bons Homens

 


Uma das primeiras pessoas que me ensinou a não baixar os olhos durante uma discussão era um homem que mentia todo mundo, em especial para a mulher.

Eu demorei anos para conseguir colocar essa frase no papel sem sentir desconforto.

Quando somos jovens, gostamos de imaginar que as pessoas vêm em categorias organizadas. Os bons de um lado, os maus do outro. Só que a vida raramente respeita essa divisão. Esse homem me ensinou a não me encolher diante de gente agressiva, a não pedir desculpas por existir e a entender que há momentos em que o mundo simplesmente atropela quem não aprende a ocupar espaço. Durante muito tempo tentei decidir qual dessas versões dele era a verdadeira. Hoje suspeito que as duas eram.



Mais tarde conheci um professor que parecia genuinamente interessado em ver os outros crescerem. Era daqueles sujeitos que ficavam depois do horário, respondiam perguntas que nem faziam parte da matéria e tratavam dúvidas sinceras como algo digno de atenção. Muita gente passa pela nossa vida nos lembrando dos limites que temos. Ele tinha o hábito raro de nos lembrar das capacidades que ainda não havíamos descoberto. Também era absurdamente vaidoso. Qualquer conversa acabava encontrando um caminho de volta para ele próprio. Qualquer assunto podia se transformar numa demonstração de conhecimento. Quando eu era mais nova, essas contradições me frustravam. Eu queria que as pessoas fossem coerentes... Hoje percebo que estava exigindo delas algo que eu mesma não era capaz de oferecer.

Talvez uma parte do amadurecimento seja justamente abandonar a expectativa de encontrar heróis. Porque heróis são confortáveis. Eles simplificam o mundo. Se a pessoa é boa, ouvimos o que ela diz, se é má, descartamos tudo.

É um sistema elegante, organizado e profundamente inútil.



A realidade costuma ser mais bagunçada. Algumas das lições mais valiosas que recebi vieram de pessoas que eu jamais usaria como modelo de vida. E algumas das maiores decepções vieram justamente daqueles que eu havia colocado num pedestal.

Cortando para a ficção. Ou nem tanto.

Bukowski foi um dos autores que mais me irritaram antes de se tornar um dos que mais me fizeram pensar. Quando li Mulheres pela primeira vez, minha reação inicial foi bem longe de admiração ou curiosidade. Henry Chinaski era bêbado, egoísta, autodestrutivo e frequentemente desagradável. Eu não conseguia entender por que tanta gente gostava dele. Só que continuei lendo. Depois vieram Factotum, Cartas na Rua, entrevistas, documentários e biografias. Aos poucos fui percebendo que o que me prendia não era a rebeldia que tantos associam ao autor. Era o fracasso. Bukowski parecia fascinado por pessoas que continuavam existindo mesmo quando não havia glória, reconhecimento ou redenção à vista. E isso me pareceu muito mais honesto do que boa parte da literatura que tenta transformar cada vida numa jornada heroica. Quanto mais eu lia sobre o homem real por trás da lenda, mais defeitos encontrava. O alcoolismo, os relacionamentos tumultuados, a crueldade ocasional, a autopromoção cuidadosamente cultivada ao longo de décadas. Nada disso desapareceu quando conheci melhor a biografia dele. Mas também não apagou aquilo que encontrei nos livros.



Com Orwell aconteceu algo parecido por um caminho diferente. Antes mesmo de chegar a 1984, foram os ensaios que me conquistaram. Textos sobre política, linguagem, propaganda, guerra e comportamento humano. Havia algo quase irritante na forma como ele insistia em apontar mecanismos de autoengano que a maioria das pessoas prefere ignorar. Em textos sobre a Guerra Civil Espanhola, sobre a Segunda Guerra Mundial ou simplesmente sobre a maneira como escrevemos e pensamos, Orwell parecia perseguir a mesma pergunta sob disfarces diferentes: o que acontece quando uma narrativa se torna mais importante do que a realidade? Só que o próprio Orwell também estava longe de ser um santo secular. Quanto mais você lê sobre sua vida, mais encontra contradições, escolhas questionáveis e comportamentos difíceis de encaixar na imagem idealizada que alguns leitores constroem dele. Ainda assim, as ideias permanecem.

E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais desconfortável dessa conversa.

Porque a ficção está cheia de personagens que nos ensinaram verdades sem jamais merecer nossa admiração moral. Hannibal Lecter me ensinou que inteligência não tem qualquer compromisso com bondade. Tyler Durden entendeu aspectos reais do vazio moderno enquanto oferecia respostas desastrosas para eles. Wolverine sempre me pareceu mais interessante do que muitos heróis impecáveis porque ele passa boa parte da vida tentando administrar aquilo que existe de pior dentro dele. Nenhum deles é exemplo de virtude. Nenhum deles deveria ser confundido com um modelo de comportamento. Ainda assim, todos carregam observações verdadeiras sobre a natureza humana.



Quando somos jovens, procuramos pessoas para admirar. Acho que isso acontece porque ainda estamos montando a nossa própria identidade e, nesse processo, sentimos uma necessidade quase desesperada de encontrar modelos. Queremos acreditar que existe alguém que já descobriu como viver, alguém que acertou as contas consigo mesmo e que pode nos servir de mapa. Por isso a juventude costuma ser tão generosa com os ídolos. Ela olha para uma qualidade específica e a transforma numa explicação completa da pessoa. O sujeito é inteligente, então presumimos que seja sábio. É corajoso, então presumimos que seja íntegro. Escreve bem, então presumimos que compreenda a vida melhor do que nós. Admirar alguém é, muitas vezes, um exercício de simplificação.

Com o tempo, essa simplificação começa a falhar. Não só porque nos tornamos mais cínicos e céticos, mas porque acumulamos contato suficiente com a realidade para perceber que as qualidades humanas raramente andam em bloco. O homem corajoso pode ser egoísta. O homem generoso pode ser vaidoso. O homem brilhante pode ser cruel. E o homem gentil pode passar a vida inteira fugindo de decisões difíceis... A maturidade não consiste em descobrir que todos são hipócritas, consiste em perceber que quase ninguém cabe dentro das categorias que criamos para eles.

Talvez por isso eu tenha continuado lendo Bukowski depois que a admiração desapareceu. Talvez por isso eu tenha continuado lendo Orwell depois de descobrir que ele era mais complicado do que a versão simplificada que muitos leitores carregam na cabeça. Em algum momento a pergunta deixou de ser "essa pessoa merece ser admirada?" e passou a ser "há algo aqui que vale a pena aprender?". São perguntas parecidas à distância, mas levam a lugares completamente diferentes. Uma coisa é procurar exemplos, outra... é procurar por ferramentas.



Ferramentas têm uma característica curiosa: elas continuam funcionando independentemente de quem as construiu. Um martelo não deixa de servir porque o carpinteiro era um canalha. Uma observação verdadeira sobre a natureza humana não se torna falsa porque saiu da boca de alguém cheio de defeitos. O contrário também é verdade. A bondade de uma pessoa não transforma automaticamente suas opiniões em sabedoria. Talvez uma das ilusões mais persistentes da nossa época seja acreditar que caráter e lucidez são a mesma coisa. Não são.

Hoje penso que os homens que mais me ensinaram foram justamente aqueles que me obrigaram a conviver com essa contradição. Alguns me ensinaram pela virtude. Outros me ensinaram apesar dos defeitos. E alguns me ensinaram através dos defeitos. Porque existe aprendizado até naquilo que decidimos não repetir.

Volta e meia eu penso naquele homem do início deste texto. O homem que me ensinou a ser forte. O homem que entrava numa sala sem pedir licença para existir. O homem que me ensinou que certas batalhas precisam ser enfrentadas de pé. Também o homem que mentia para as pessoas que amava sem piscar, para ele a verdade era apenas mais uma peça num tabuleiro que ele podia mover quando lhe fosse conveniente.

Durante muito tempo achei que precisava escolher qual dessas versões dele era a verdadeira.

Hoje acho que esse foi o erro.

As duas eram.

E talvez crescer seja justamente abandonar a esperança de encontrar heróis sem manchas e aprender a lidar com pessoas inteiras.

Mas essa é só a conclusão a que cheguei. Talvez vocês discordem completamente. Talvez acreditem que certos defeitos anulam qualquer lição que uma pessoa tenha a oferecer. Ou talvez exista alguém na vida de vocês que prove exatamente o contrário. Se esse texto serviu para alguma coisa, espero que tenha sido para lembrar de uma dessas pessoas.