Domingo


DOMINGO

Era o dia do Senhor, domingo, e, assim como foi com a ressurreição, recomeçava mais um ciclo semanal. Torço para não ser outra via-sacra como na semana anterior. Para alguns, o novo sábado, shabat, descanso; porém, a vida não para, e o descanso fica no sepulcro que outrora estava vazio, enquanto o ritmo acelerado ultrapassa o anseio da esperança das mulheres no terceiro dia.

Ah, a vida nos convida a levantar: ombros cansados e joelhos desconjuntados. Paulo entendia disso, ou quem quer que tenha escrito Hebreus, carta muito bela que retrata a superioridade dAquele a quem clamo nesse primeiro entreabrir dos olhos e balbuciar das primeiras palavras inteligíveis ao lado de bocejos; afinal, é domingo.

E nesse cenário, sempre um domingo, o sono matinal é repentinamente rasgado pelo barulho de panelas e pratos batendo sob as mãos desajeitadas de alguém que muito trabalhou e cujo ritmo da vida não o fez parar. A idade não é um mero número; 89 anos são décadas de história e hábitos que se recusam a abandoná-lo, acompanhando essa longa trajetória. A rotina era certa: sair cedo, passear na rua e cuidar de algumas bancas de madeira na feira pública. Porém, antes de tudo isso, tomar café era sagrado, um rito necessário ao lado de suas preces por toda a família. É engraçado como, no fim da vida, homens e mulheres caminham para uma vida de fé; esquecem-se de seu Criador na mocidade. Ainda bem que Ele é misericordioso e não rejeita aqueles que se aproximam com humildade.

Essa cerimônia interrompe o meu sono. Logo levanto, e os passos se seguem como um ritual: chaleira no fogo, e o aroma de um café preto toma conta dos cômodos da casa como um incenso. Pratos postos à mesa, junto com talheres e a xícara, desenham o quadro diário que o acompanhou por quase nove décadas de vida. Ele sai, mais uma oportunidade para dormir.

Antes dos olhos se fecharem para outra tentativa de sono, afinal o relógio não havia marcado nem seis horas e o sol parecia preguiçoso demais para romper as nuvens, talvez o “haja luz” do Senhor tenha atrasado hoje, ou o Santo Ano do Jubileu tenha alcançado a criação, penso. Mas, nesse ritmo lento, que era um belo convite para retornar ao sofá, surge o miado e o ronronar pedindo comida. A ração enche o pote, e a voracidade de uma fera felina domesticada é enfim saciada. Adão andou ao lado de leões; hoje os trocamos por gatos, fiéis companheiros. Mas esse não está nas melhores condições. Seu banquete real é brevemente interrompido pela necessidade dos remédios. Sim, a criatura caçadora de ratos fora ferida em combate; a batalha lhe deixou marcas da esporotricose, e o ciclo de itraconazol era um amigo fiel nesse tratamento.

Finalizada a purificação do felino, tento dormir, e peço que observem bem a palavra tento, pois tudo é um ciclo de tentativas, sempre falhas, constantemente tentativas malsucedidas. Agora, outro ser centenário desperta, não mais o avô, mas a irmã da avó já falecida, lembrança do apreço e cuidado familiar e de como acolhemos aqueles que necessitam. Porém, também é o retrato de que velhos hábitos continuam, pois em sua mão um cachimbo permanece ali, deixando o ar, antes aromatizado pelo café, tomado por um cheiro forte e incômodo.

Ela desfila pela casa, arrastando os pés, outrora fortes e firmes em uma vida de roça e vendas em feiras por todo o interior alagoano. Agora estão mais uma vez no interior, porém frágeis diante da idade avançada. A porta do quintal é aberta; os primeiros raios do sol brilham, um portal para um resto de natureza, pois os cantos dos pássaros começam a despontar em meio às plantas de folhas verdes e aos espinhosos cactos e euphorbias que ocupam o pequeno quintal. Mas esses visitantes logo serão espantados pela fumaça que o fumo de Arapiraca levanta.

Tento dormir mais uma vez, porém agora com o sentimento de que seria outra tentativa falha. Só faltava um dos nossos acordar. Aqui seria uma batalha digna de São Jorge e o Dragão, não necessariamente uma besta monstruosa que cospe fogo, mas o encontro com o mal do século, que encarcera a mais bela e doce das almas com correntes densas de medo, desespero e tantas outras mazelas e limitações que a depressão atrai.

Não há valor que possa se comparar ao aconchego do abraço de uma mãe. Uso a imagem de um pássaro sob suas asas, ou mesmo de uma galinha com seus pintinhos, para retratar a sensibilidade do carinho e do afeto. Isso é o que tentamos recuperar, uma vez que o desânimo causado pela depressão distancia o abraço maternal e o cuidado, invertendo papéis, onde filhos doam-se em cuidado por aqueles que lhes doaram amor e afeto para os gerar. Essa é a cena típica de um domingo.

Não adianta mais dormir; era inevitável o despertar, forçado, é claro, mas ainda assim um despertar para a vida. O coração pesa, a insatisfação também, imaginando o potencial da vida sendo desperdiçado em um viver voltado apenas à doação. A ausência de amizades, os poucos que tínhamos se afastaram, o amor ainda não havia chegado e talvez demore. Soma-se aqui a rotina diária: trabalho, igreja e faculdade, sem tempo para o eu, somente o doar. O eu lírico perde-se nos emaranhados de lamentos, como a chuva que venceu o sol dessa manhã.

E assim dançamos, um ritmo forçado, com passos lentos, sensação de estagnação e uma alma cansada. Hoje é domingo, o dia da revelação de João, o dia da ressurreição, o abraço da possibilidade de recomeços e novos ciclos. Volto meu olhar para o que o salmista canta: uma alma abatida reconhece a outra, assim como um abismo chama outro abismo, e em seus versos ele encerra:

“Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face e o meu Deus.”

Salmos 42:11