Retrospectiva melhores histórias do Batman (Parte 3 - Era de Bronze)



 Confiram também:



Embora eu tenha defendido as histórias da Era de Prata no capítulo anterior, a realidade era bem mais difícil. O seriado do Adam West e Burt Ward tinha chegado ao fim e seu estilo campy refletido nos quadrinho se mostrava datado.



Com as vendas estavam caindo, com o risco da revista ser cancelada, Julius Schwartz editor da DC decidiram que era hora de uma mudança. Então, em 1969 DC buscou fazer o personagem voltar a suas origens, quando suas histórias eram sombrias e menos inocentes comparadas com o estilo da Era de Prata.



O roteirista escolhido para se encarregar das revista foi Dennis O’Neil. Esse homem viria a ser um dos, senão o nome mais importante para história do Batman dos quadrinhos. 



Nos anos que escreveu o personagem, O’Neil conseguiu reformar o personagem do Batman até suas raízes, fazendo-o voltar a ser o solitário vigilante da noite, com suas histórias abraçando o estilo de gêneros como terror, mistério e aventura pulp. 



Mas Dennis O’Neil não se resumiu a apenas resgatar elementos passado, como também expandiu a mitologia do Batman, criando figuras  e elementos importantes, como Ra's Al Ghul e a Liga dos Assassinos, o Asilo Arkham o Beco do Crime. 





Para muitos fãs e leitores, o Batman de Dennis O’Neil é a versão mais importante do cavaleiro das trevas, sendo a base de inspiração para muito dos autores que vieram depois, conforme veremos no decorrer da retrospectiva.

Nesse capitulo, irei apresentar as melhores história de O’Neil e outros autores durante a Era de Bronze (anos 70 a meados dos anos 80) e como elas reinventaram o Batman para a versão que muitos estão acostumados.

 

Uma de muitas balas



·        Leitura: Batman vol.1 nº217

No fim da década de 70, Batman teve que lidar com um dos seus momentos mais difíceis de sua vida. Não se tratava de um mistério difícil ou um novo vilão ameaçando Gotham, mas sim o fato que Dick Grayson, Robin, estava indo para faculdade.



Depois de uma despedida, Bruce, sentido que a partida de seu parceiro como um sinal, decide ser mais ativo em sua luta contra o crime. Ele se muda para uma cobertura da Fundação Wayne no centro de Gotham e funda um programa especial para auxiliar vítimas de tragédias. 



A primeira pessoa que ele decide ajudar é a doutora Susan Fieldwing, cujo marido tinha sido assassinato por um gangster misterioso.

Sem perder tempo, a DC já estabelece o novo status quo para o Batman, fazendo-o voltar a agir sozinho e tendo suas histórias abordando questões como perda e luto causado em vitimas do crime. 



O dialogo apresenta um comentário meta, com o próprio Batman descrevendo sua decisão como algo necessário para evoluir como um combate do crime. Não há nada de sutileza, mas já deixa os leitores avisados sobre as mudanças que os quadrinhos iriam sofrer.

Obs: Não creio que seja coincidência o momento do Bruce descrevendo seu antigos equipamentos como obsoletos, com a bat-caverna tendo o mesmo visual do seriado dos anos 60.



 

O segredo dos túmulos vazios



·        Leitura: Detective Comics nº395

Em sua primeira história de Detective Comics, Dennis O’Neil já começou tirando o Batman de sua zona de conforto.

Nessa aventura, Bruce faz uma viagem até o México, tendo sido convidado para uma festa num cemitério dos Muertos, um casal de ricos da região.  



No entanto, ao chegar lá, Bruce, como Batman, salva a vida de um dos convidados, Valves, de duas tentativas de assassinato. Espionando os Muertos e Valves, Batman, eventualmente, descobre que o homem é um agente do governo, tentando impedir os Muertos de espalharem umas rosas especiais pelo mundo, cujo aroma transformar pessoas em imortais, a custo de sua sanidade.



Já nesse primeiro trabalho no Batman, Dennis O’Neil consegue escrever uma aventura que resgata a pegada das aventuras de terror gótico da Era de Ouro, combinando-as com tramas que lembram filmes do James Bond, com ambientes exóticos, personagens excêntricos e várias cenas de ação.


A trilogia do Morcego Humano



·        Leitura: Detective Comics nº 400,402 e 407

Como a iniciativa dessa reformulação era afastar o personagem do estilo campy do seriado dos anos 60, Dennis O’Neil, a princípio, evitou usar vilões clássicos do Batman. No lugar, ele desenvolveu novos antagonistas.

Um dos primeiros a se destacar foi o Morcego Humano. Em sua primeira aparição, ele foi introduzido como Kirk Langstrom, um cientista que injetou em si mesmo uma formula que lhe permitiria obter o sentido radar dos morcegos. 



Como muitos dramas sci-fy, algo deu errado e Kirk acabou se transformando num homem morcego.



De início, ele tenta apenas encontrar uma cura, chegando a salvar a vida do Batman de uma gangue. Porém, conforme seus experimentos falham e seu segredo é descoberto pelo Batman, a polícia e sua noiva, Francine, Kirk vai sendo corrompido por seu lado animal, se tornando um monstro alado que o Batman tem que deter.

Tal como Duas Caras, a origem do Morcego Humano se beneficia por ser dividia numa trilogia, com cada edição mostrando a evolução do Langstrom. O roteiro consegue torna-lo um personagem bem simpático, o que torna sua perda de humanidade bem trágica para os leitores. 

A ideia dele ser um literalmente a criatura da noite que Batman finge ser foi uma forma astuta de Dennis O’Neil criar um contraste entre o herói e o vilão, com Langstrom representando o que Bruce pode se tornar se deixar ser consumido por sua identidade fantasiada.




A saga do Demônio



·        Leitura: Detective comics nº 405, 411 e Batman vol.1 nº232,235,240, 242 a 244

Embora o Morcego Humano tenha sido um personagem marcante, ele não foi o vilão a ser o grande destaque da fase do Dennis O’Neil. Esse foi Ra’s Al Ghul.

Diferente do vilão anterior, Ra’s foi introduzido durante uma saga, onde Batman teve uns confrontos com a Liga dos Assassinatos. Enquanto investigava esse grupo, o herói, durante uma de suas aventuras, conheceu a bela Talia, que o ajudou a derrotar o suposto lider da Liga dos Assassinos, Darhk.



Mal sabia Batman que seu caminho se cruzaria com Talia novamente, quando ela e Robin foram sequestrados, resultando no cavaleiros das trevas se encontrando com Ra’s Al Ghul, que pediu sua ajuda para encontra-los. 

No entanto, Batman logo descobriu que foi o próprio Ra’s que armou esse sequestro. Era tudo um teste para ver se ele era digno de se tornar seu sucessor e se unir a ele em sua missão de eliminar humanidade restaurar o equilíbrio natural do planeta.



Diferente dos vilões de rua que o Batman enfrentou até agora, Ra’s se prova uma ameaça muito maior em escala. Sendo um ecoterrorista e lider de uma organização global, os esquemas de Ra's sempre forçam Batman a sair numa jornada por vários cantos do planeta. 

Ra's Al Ghul também introduz um aspecto sobrenatural para o mundo do Batman, já que é um imortal graças ao seu poço de Lázarus, que lhe permite reviver sempre que está as portas da morte.




Porém, o aspecto mais interessante do vilão é seu respeito pelo detetive de Gotham, vendo-o como um igual, embora esse seja responsável por suas derrotas.

A inclusão de sua filha, Talia, na história, torna o confronto ainda mais pessoal para o Batman, que fica dividido entre seu dever e seus sentimentos pela filha da Cabeça do Demônio.



Claro que não posso falar desse arco sem nem citar a arte marcante do Neal Adams, com o auge sendo no duelo de espadas entre Batman e Ra’s Al Ghul. Os desenhos fazem qualquer um querer reler a história de tão fantásticos que eles são.



A vingança de 5 formas do Coringa



·        Leitura: Batman vol.1 nº251

Depois do sucesso desses vilões originais como o Morcego Humano e Ra’s Al Ghul, Dennis O’Neil decidiu que era de trazer de volta uns vilões clássicos do Batman.

Começando pelo Coringa, Dennis O’Neil escreveu esse retorno do palhaço do crime, onde ele sai em busca de 5 capangas que o traíram em uma ocasião passada. 



Após falhar em salvar dois capangas, Batman consegue encontrar seu inimigo, prestes a jogar seu último capanga num tanque de tubarões. Para salvar a vida dele, Batman se oferece para assumir o lugar do ex-capanga. Mas o Coringa o engana e joga os dois no tanque. 



É apenas graças a engenhosidade do Batman que ele consegue salvar o capanga e confronta seu arqui-inimigo.

Foi graças a essa edição que o Coringa deixou de ser o brincalhão louco da Era de Prata e voltou a ser representado como o assassino psicopata que conhecemos atualmente. Suas lutas com Batman se tornaram bem intensas, com o herói nem sempre conseguindo salvar as vítimas do Coringa, aumentando ainda mais as dúvidas de como Batman irá derrotar esse vilão assustador.



Quem sabe qual o mal?



·        Leitura: Batman vol.1 nº253

Eis um crossover bem inesperado que o Batman já teve.

Depois de capturar uma facção criminosa, Batman descobrem que eles fazem parte de um grupo maior, escondido no Arizona. Ao viajar para lá com a intenção de derrubar essa organização, Batman começa a receber de um aliado misterioso, que salva sua vida várias vezes, mas nunca revela seu nome.

Após capturar toda gangue, Batman volta a Gotham, onde encontra aquele que tem auxiliado em sua aventura: O Sombra.



Esse é um encontro especial, visto que é Batman conhecendo o herói pulp que o inspirou, algo que o autor Dennis O’Neil faz uma bela referência, com Batman revelando para o Sombra como ele foi sua inspiração para se tornar um combatente do crime.

 

Não há esperança no Beco do Crime



·        Leitura: Detective comics #457

Um ponto de Gotham a ganhar mais importância na era de bronze foi o Beco do Crime, o local onde os pais do Bruce foram mortos.

Nessa história, é revelado que, no aniversário da morte deles, Batman sempre prioriza fazer uma visita ao Beco, ao lado de Leslie Thompkins, uma gentil médica que fez companhia ao Bruce na noite em que ele perdeu pais, se tornando uma figura materna para o jovem órfão.



Chegando no beco, Batman sai a procura de sua companheira. No caminho ele vai se deparando com vários problemas da região, incluindo assaltos, violência e pobreza, fatores que fazem o homem morcego questionar a possibilidade dos habitantes do Beco do Crime terem uma vida melhor.

Como dá pra ver, essa história é mais um exemplo de Dennis O’Neil usando quadrinhos como forma de tocar assuntos realistas, como questão da pobreza e a forma como afeta regiões do meio urbano e seus moradores. Mas o roteiro também possui uma mensagem bem otimista, com pessoas como Batman e Leslie representando as figuras que acreditam e lutam por um futuro melhor para os cidadãos de Gotham.



Claro tenho que citar a primeira aparição da Leslie Thompkins, uma das coadjuvantes mais subestimadas do Batman em minha opinião. Não só a relação dela com o Batman revela mais esse lado humano do herói, como o fato dela ser apenas uma velha senhora que ainda tenta ajudar as pessoas de sua comunidade é bem inspirador, revelando como Gotham não é uma cidade condenada e que Batman não está sozinho em sua cruzada.


Estranhas aparições



·        Leitura: Detective Comics nº471 e 472

Dennis O’Neil pode ser o nome mais importante na hq do Batman, mas ele não foi o único a realizar reformulações no mundo do cavaleiro das trevas. Teve vários outros autores que continuaram seu trabalho. Um deles foi Steve Englehart, cuja fase introduziu figuras novas como o corrupto político Rupert Thorne e a socialite Silver St Cloud, um dos melhores interesses românticos do Batman.




Dos arcos que escreveu, um dos mais importantes foi “Estranhas Aparições”. Tendo inicio logo após Batman ter derrotado o insano Doutor Phosporus, a história mostrou o herói ainda lidando com o envenenamento radioativo das feridas que sofreu. Para se recuperar, Bruce Wayne decide fazer um tratamento numa clínica para bilionários. No entanto, ao entrar no prédio, Bruce é drogado e preso numa cela. Mudando para sua identidade, Batman escapa e descobre que clínica é uma fachada, criada pelo Hugo Strange para capturar seus clientes e usa-los em seus experimentos.

Quando Batman confronta seu velho inimigo, ele acaba sendo capturado e desmascarado. 




Com o segredo do cavaleiro das trevas em suas mãos, Hugo Strange entra em contato com 3 criminosos, planejando leiloar a identidade do herói. Esses vilões viriam a ser antagonistas que Batman teria que enfrentar no resto da fase do Steve Englehart.



Se tem um motivo pelo qual tivemos adaptações de Hugo Strange como nos jogos Arkham, se deve a Steve Englehart. Antes disso, Hugo era apenas um cientista louco da Era Ouro. Porém nesse arco ele evolui para um inimigo bem mais pessoal para o Batman, com Hugo demonstrando ter uma obsessão doentia por seu oponente mudando entre odia-lo e respeita-lo.

 


Os peixes risonhos



·        Leitura: Detective Comics nº475 e 476

As histórias envolvendo o Coringa costumam variar entre cômicas ou sombrias. Era um tom ou o outro. Por isso é impressionante como “Os peixes risonhos”, do Steve Englehart, conseguiu equilibrar ambos com eficiência.

Nessa história icônica, o palhaço do crime volta a agir em Gotham, dessa vez com um de seus planos mais insanos: Ele envenena as águas de Gotham, fazendo com que os peixes passem a ter seu sorriso, para então poder cobrar por sua imagem sendo usada nos peixes. 



Quando é informado que ele não pode cobrar direito pelos peixes, Coringa ameaça matar todos os burocratas de Gotham, um por um, até que suas exigências sejam cumpridas.

Numa perspectiva realista, essa ideia do Coringa é ridícula. Para alguns pode tirar a seriedade dele como vilão. No entanto, Englehart consegue usar essa ideia para destacar o que torna o o personagem tão assustador: O Coringa sabe que seu plano é ilógico, mas não se importa. Ele é um louco e quer ver o mundo siga sua visão distorcida. Se alguém recusa, ele responde matando-a de forma inesperada. Isso é o que torna sua presença tão imprevisível para os personagens e também os leitores, já que, a qualquer momento, qualquer personagem pode ser morto.



Outro destaque nessa história é o relacionamento do Bruce Wayne com a Silver St Cloud, que conclui de forma trágica após ela descobrir o segredo de seu amado, mostrando como a vida do Batman pode ser uma maldição para o Bruce, impedindo qualquer chance de ter uma vida normal.




A vinda do terceiro Cara de Barro



·        Leitura: Detective Comics nº478 e 479

Com a saída de Steve Englehart na 476ª edição de Detective Comics, os roteiros da revista foram assumidos pelo falecido Len Wein, que também se tornaria responsável pelas história no título solo do Batman.  

Como uma de suas primeiras história, Len Wein escreveu “A vinda do terceiro Cara de Barro”. Já dando pra adivinhar pelo título, essa história de duas partes introduziu Batman a um novo Cara de Barro, Preston Payne.

Embora fosse introduzido como um serial killer louco, a trama aos poucos foi revelando o quão complexo Payne era: Diferente de seus antecessores, Preston não era um ator louco ou um ladrão ganancioso, mas sim um cientista que tentou adquirir as habilidades de Matt Hagen para poder consertar uma deformidade física. Porém, o experimento acabou piorando as coisas, com Preston se transformando num monstro de barro, que precisa infectar pessoas com seu toque corrosivo para poder se sustentar.



Desesperado por uma cura, Preston começa a usar suas habilidades para roubar produtos químicos, o que o leva a seus confrontos com o Batman.

Além de introduzir um vilão novo e com uma origem trágica, Len Wein cria uma dinâmica interessante entre Batman e Preston na forma como eles são afetados por seus relacionamentos. Enquanto Preston possui uma relação bizarra com Helena, um manequim que ele vê como “a única pessoa que ele pode tocar”, Bruce ainda estaria se recuperando do rompimento de seu romance com Silver St Cloud.





Será um clima frio numa cidade fria hoje à noite



·        Leitura: Batman vol.1 nº308

Muita gente dá crédito ao Bruce Timm, Paul Dini e produtores do Batman Série Animada, por ter reformulado o personagem do Mister Freeze de um vilão fantasiado genérico para um antagonista trágico e complexo. O que muitos talvez não saibam é que, muito antes do personagem ser escrito por Paul Dini, Len Wein já tinha tentado dar ao Freeze uma motivação envolvendo um trágico amor.

Em “Será um clima frio numa cidade fria hoje à noite”, o vilão gelado começa a agir, desta vez sequestrando milionários. Quando Batman investiga esses crimes, ele descobre que Freeze está transformando os milionários em zumbis de gelo, para auxilia-lo num experimento.



Conforme o mistério se desenvolve, é revelado que essa experiência de Freeze se trata dele tentando recriar o acidente, que lhe transformou num homem de gelo, em sua amada Hildy, para que possam viver juntos eternamente. A tragédia é que Hildy revela estar interessada apenas na imortalidade, planejando matar Freeze após atender seu desejo.



Essa motivação do Freeze pode não ser tão interessante quanto a que a Série Animada lhe deu, mas foi um bom primeiro passo em torna-lo num antagonista compreensível. Seu drama cria um paralelo com uma sub-trama do Bruce lidando com a volta da Selina Kyle, a Mulher Gato, que diz ter reformado e deseja fazer negócios com o empresário, deixando-o em duvida se deve ou não confiar na felina fatale.

 


 

Tenha um natal mortal



·        Leitura: Batman vol.1 nº309

Um vilão da Era de Prata que não cheguei a falar no capítulo anterior foi o Arrasa-Quarteirão. Seu nome verdadeiro era Mark Desmond, irmão de cientista criminoso que o usou como cobaia em um experimento, transformando num brutamontes. Apesar de seu comportamento selvagem, havia uma certa inocência em Desmond, tornando um monstro incompreendido, que era rejeitado pelas pessoas e manipulado por criminosos como seu irmão.

Em uma noite de natal, depois de escapar de sua prisão nos laboratórios STAR, Desmond foi para Gotham onde acabou conhecendo Kathy Crawford, uma moça desempregada deprimida, que estava quase cometendo suicídio. 



Ao salva-la, o Arrasa Quarteirão, acaba sendo confrontado pelo Batman, que assume que ele estava tentando sequestrar a moça.

A luta dos dois chega até um rio congelado em Gotham, onde o Arrasa Quarteirão, percebendo que seu peso o faria afundar, entrega Kathy para Batman, se sacrificando para salvar a jovem mais uma vez.  Seu ato heroico acaba tendo um impacto em Kathy, que se sente tocada ao saber que o Arrasa Quarteirão acreditava que ela era digna de ser salva, quando a própria tinha perdido tal vontade.



Esse é um especial de natal que apresenta tópicos pesados, como depressão e suicídio, mas destaca como um ato bondoso pode mudar a perspectiva de uma pessoa. Ter isso sendo executado por Arrasa Quarteirão foi uma reviravolta, mostrando como até mesmo vilões são capazes de heroísmo.

 

A sombra do gato



·        Leitura: Batman vol.1 n°323 e 324

Uma das tramas recorrentes na fase do Len Wein foi o retorno da Mulher Gato. Tendo decidido se reabilitar, a ladra começou se aproximar de Bruce Wayne e os dois desenvolveram um romance. Realmente parecia que Selina tinha deixado seus dias de criminosa para trás. 



No entanto, aos poucos foi sendo mostrado que ela estava escondendo algo de Bruce, e estava ligado a obsessão dela por urnas egípcias no museu de Gotham.



Quando essas urnas são roubadas por um gatuno, Selina é incriminada. Se recusando a se entregar para a polícia, Selina volta a ser Mulher Gato para provar sua própria inocência. Seguindo a fugitiva, Batman acaba se encontrando com Selina e os dois descobrem que ela tinha sido incriminada por seu rival, o Homem Gato.

Após escaparem de uma armadilha, os dois se unem para caçar o Homem Gato, com Selina revelando que urnas egípcias contém cura para uma doença terminal que ela estava sofrendo.



Esse arco é o início da evolução da Selina de uma vilã para se torna uma anti-heroína, com um complexo código moral.

 

Duplo perigo



Leitura: Batman vol.1 nº328 e 329

Um dos aspectos que torna Duas Caras um personagem tão trágico para os fãs e leitores, além de sua queda de um dedicado promotor para um criminoso, é seu romance com sua noiva, Gilda. Mesmo após ter se tornado um vilão, Harvey ainda tinha sentimentos por sua noiva, assim como ela não perdia esperança de que um dia ele poderia se redimir. Com o passar do tempo, Gilda acabou desistindo de Harvey e se casou com outro promotor Dave Stevens.

Infelizmente, a tragédia caiu sobre a vida de Gilda, quando seu atual marido foi morto pelo chefe mafioso Anton Karoselle, que por sua vez, algum tempo depois, seria executado por Carl Ternion.

Enquanto Batman tenta descobrir o motivo por trás da ação de Ternion, esse começa um relacionamento com Gilda. Sem que ela e Batman saibam, Ternion é na verdade o Duas Caras disfarçado, planejando um novo esquema para eliminar Batman e poder se casar com Gilda.



Essa é uma história que explora muito bem a dualidade do Harvey Dent, com ele, mais uma vez ficando dividido entre sua vingança e seu amor por Gilda. Isso é perfeitamente representando no clímax, onde ele e Batman se enfrentam no tribunal, com herói e Gilda tentando convence-lo a aceitar a ajuda deles e reconhecer que ele ainda possui bondade dentro de si.



 

Ataque ao Olimpo



·        Leitura: Detective Comics nº483 e 484

Enquanto Dennis O’Neil é conhecido por ter criado vilões como Ra’s Al Ghul e Morcego Humano, um pequeno numero de fãs talvez saibam que ele foi responsável por criar um vilões mais subestimados do Batman, na minha opinião: Maxie Zeus.

Introduzido como antagonista nessa quasi-sequência de "Não há esperança no Beco do Crime", Maxie foi apresentado como um gênio do crime com um “complexo de deus”, que está planejando executar um capanga que traiu sua organização, sem considerar os inocentes que seriam pegos no fogo cruzado.



Para sorte do fugitivo, Batman e Leslie Thompkins interferem no esquema e consegue salva-lo, junto com os outros moradores. A partir daí a história adota uma direção bem estilo “Duro de matar”, com Batman invadindo o prédio de Maxie para capturar o vilão, tendo que passar por armadilhas tematizadas em mitologia grega.



Para um vilão que é visto pelo público atual como uma piada, o Maxie Zeus demonstra ser um vilão bem carismático nessas primeiras aparições, conseguindo ser cruel mas ter momentos de humor com a reação das pessoas a sua desilusão de divindade.  Até sua dinâmica com Batman é interessante, visto que Max demonstra certo respeito pelo herói e, quando capturado, ele reconhece sua derrota como culpa de seu orgulho. Afinal, nas palavras do próprio Zeus, “orgulho é o erro dos deuses”.


 

A charada do Velo de ouro






·        Leitura: Detective Comics nº491

Se a primeira aparição de Maxie Zeus já foi uma boa introdução para o vilão desiludido, sua segunda história é bem melhor.

Dessa vez, Maxie envia seus capangas para roubar um tecido de ouro criado por um dos cientistas das empresas Wayne. 



Mas qual o motivo por trás desse roubo? Qual esquema Maxie estaria planejando dessa vez?

Não revelarei a resposta, pois eu quero que vocês confiram por si próprios, mas garanto que é uma revelação bem tocante, que não só resulta em mais um exemplo da compaixão do Batman como também humaniza o Maxie Zeus como um personagem, demonstrando o seu potencial que muitos autores seguintes acabaram ignorando.

 

Quebrado até o osso



·        Leitura: Batman vol.1 Annual 10

Hoje em dia é muito comum o pessoal zoar o fato do Batman ser rico, dizendo que o “grande poder dele é o dinheiro” e que “ele só pode ser um herói se tiver grana”.

Apesar desses comentários serem apenas brincadeira, a história “Quebrado até o osso” mostra que existe certa verdade nessa visão.

Escrita por Doug Moench, essa revista tem como foco o Bruce Wayne sofrendo uma sequência de azares: Em um dia ele perde sua companhia, sua fortuna fica detida, ele é expulso de sua mansão, Alfred sofre um ataque cardíaco e, por não ser capaz de se sustentar, ele perde a guarda de Jason Todd.



Como senão bastasse esses problemas em sua vida pessoal, um Batman impostor está a solta em Gotham, cometendo roubos e incriminando o herói. Embora o Comissário Gordon, acredite na inocência de seu companheiro, a posição dele acaba o tornando alvo da mídia. Todos esses problemas levam Batman a ficar sozinho, nas ruas de Gotham, enquanto tenta se reerguer e descobrir a verdade por trás dessas perdas.

Basicamente essa história é a “Queda de Murdock” do Batman, mostrando um vilão misterioso destruindo lentamente a vida do Batman, até o herói ficar isolado nas ruas de Gotham, tendo que recorrer a sua engenhosidade e determinação para sobreviver. É agonizante ver Bruce sofrer tantas perdas no início, mas a segunda metade é recompensadora, conforme vemos ele não desistindo, provando como seu grande poder, no final de tudo, não é sua fortuna ou gadgets, mas sim seu intelecto e força de vontade.

 

O homem que matou Mlle Marie



·        Leitura: Detective Comics nº501 e 502

Desde sua aparição na década de 40, Alfred demonstrou ser um dos aliados mais fiéis ao Batman, sempre buscando ajudar seu patrão em momentos de dificuldade, além de agir como uma figura paterna.

No entanto, nessas duas história, o mordomo de Bruce começa agir estranho quando recebe um telegrama vindo de Paris. 



Sem avisar, ele viaja na companhia de Lucius Fox. Estranhando o sumiço de seus dois amigos, Bruce os seguiria até Paris, onde descobre que eles foram convocados pela Resistência, um grupo da Segunda Guerra Mundial, que buscam colocar o Alfred em julgamento pela morte da líder deles Mlle. Marie.



Não só essa história é um clássico mistério, com Batman tendo que agir fora de sua cidade, mas ela explora de forma profunda o passado do Alfred como um agente da Inteligência Britânica, com o final implicando numa conexão de Alfred com a filha de Marie, Julia, que só veria ser revelado edições depois.


Quem morreria pelo Manequim



·        Leitura: Detective Comics nº506 e 507

Essa é uma história de uma vilã do Batman que infelizmente nunca apareceu de novo: O Manequim.

Nessa sua única aparição, ela é introduzida como uma assassina, vestida como um manequim, que tem como alvos fashions designers, que ela acusa de terem “destruido sua vida”. Por sua roupa ser um exo-esqueleto que aumenta sua força, Manequim demonstra ser uma vilã difícil para Batman derrotar no combate direto.



No entanto, ao investigar a ligação da Manequim com esses fashions designers, Batman descobre que ela é Miranda, uma jovem modelo que teve sua carreira arruinada após um de seus designer ter sabotado seu carro, fazendo com que ele explodisse e deixando-a desfigurada.



A personagem pode ter tido apenas uma história de destaque, mas foi uma história bem impactante, que explore a temática sobre quem é o verdadeiro monstro. Miranda pode ser a antagonista, mas o verdadeiro vilão é o designer que arruinou sua vida. Esse é um tipo de história que ficaria muito associado aos vilões do Batman (principalmente na série animada dos anos 90)


Haven



·       Leitura: Detective Comics nº514

Um aspecto recorrente nas histórias do Batman é a forma como aborda temáticas perda, trauma e como pessoas reagem diante desses sintomas. Isso não só é representado pelo protagonista como também dos personagens que ele encontra em sua jornada.

Um deles foi Haven, um homem alto e forte, que salvou Batman quando este ficou perdido nas montanhas, enquanto perseguia Maxie Zeus. Ficando amigo do gigante, Batman aprende que Haven é um homem pacífico e de bom coração, que apenas deseja viver em paz nas montanhas, isolado da sociedade. 



No entanto, seu santuário é perturbado quando Maxie Zeus e seus homens, que tentam forçar Haven a ceder a violência.



Essa é a melhor história do Batman escrita pelo Len Wein, cujo faz os leitores se conectarem com Haven e sua busca por paz, tornando seu final um dos momentos de derramar lágrimas.

Uma noite na cidade



·        Leitura: Batman vol.1 nº392

Nem toda história do Batman precisa ser sombria e deprimente para ter uma boa qualidade. As vezes o personagem pode ter histórias divertidas, que exploram seu lado relacionável.

Como exemplo temos “Uma noite na cidade”, uma história onde Batman sai para mais uma patrulha diária em Gotham. Quando ele se encontra com a Mulher Gato, ela propõe que os dois passem uma noite juntos num encontro, o que o cavaleiro das trevas concorda.



O resto da história é uma sequência divertida de Batman e Mulher Gato tentando ter um encontro normal, mas sempre sendo interrompidos por algum problema no local.



Depois de tantas histórias retratarem o Batman como um homem obcecado por seu trabalho e sem ter tempo para seus amigos, é uma boa quebra de paradigma ver ele numa situação causais, como  ir num encontro.  

Embora seja galhofa ter ele e Mulher gato saindo com suas fantasias, é  também um cenário onde Batman não precisa bancar o playboy que ele finge ser em publico e consegue expressar sua personalidade verdadeira.



Apenas anjos tem asas



·        Leitura: Brave and the bold nº191

Batman e Coringa possuem uma das rivalidades mais intensas de toda cultura pop. Muitas de suas histórias envolvem várias lutas marcantes em toda trajetória do Batman nos quadrinhos.

Por isso “Apenas anjos tem asas” irá surpreender a muitos, pois sua trama o oposto do que acabo de descrever: ela sobre um team-up entre Batman e Coringa.

Nessa história, palhaço crime é visto executando o Pinguim ao vivo na TV. Quando Batman sai para caça-lo, o Coringa é quem vem até ele, dizendo que ele não é o assassino. Embora tenha dúvidas, Batman acaba tendo que acreditar no Coringa, visto que um vilão egocêntrico como ele não mataria sem se gabar de seu feito. Então, Batman e Coringa formam uma parceira temporária para encontrar o verdadeiro culpado.



Em um estilo bem “buddy cop”, a hq desenvolve a dinâmica do Batman com o Coringa, com o ultimo tendo uns momentos bem surpreendentes para um vilão conhecido por sua crueldade e sadismo, incluindo uma cena breve onde ele demonstra luto pela morte do Pinguim.



A autobiografia de Bruce Wayne



·        Leitura: Brave and the bold nº197

Por mais divertido que seja acompanhar as aventuras de heróis nas hqs, um fato triste mas verdadeiro é que, por causa de sua popularidade como ícones, tais personagens nunca envelhecer ou ter finais para suas histórias. Batman é uma das principais vítimas desse tratamento, com ele nunca podendo seguir em frente, se casar ou ter filhos. Alguns autores chegaram estabelecer em histórias que o personagem está destinado a sempre terminar com uma vida trágica e solitária.



Por isso, “A autobiografia de Bruce Wayne” é um perfeito contra-ponto a essa ideia. Se passando na Terra 1, essa história mostra Bruce Wayne atendendo ao casamento de sua ex-namorada, Linda Page. 



Durante a cerimônia, o Espantalho invade a festa. Ao tentar captura-lo, Batman acaba sendo atingido pelo gás do medo, que faz com que ele seja incapaz de ver ou ouvir seus entes queridos.




Se vendo incapaz de derrotar o Espantalho sozinho, Batman recorre a única pessoa que não é tanto uma aliada quanto uma inimiga: A Mulher Gato. 



Durante sua busca pelo mestre do medo, o morcego e a gata vão, aos poucos, descobrindo os sentimentos que sentem um pelo outro, o que acaba tendo uma grande importância quando Batman é forçado a enfrentar seu grande medo.



Sob certa perspectiva, essa história pode parecer que foi feita apenas para explicar como Batman e a Mulher Gato se casaram na Terra 2. Mas, com a inclusão do Espantalho e a trama do Bruce lidando com suas ilusões, ela se torna um conto mais pessoal e com mais significado para aqueles que leram as histórias do Batman na Era de Ouro.

Se aquelas histórias eram sobre Bruce começando como um vigilante solitário que aos poucos foi desenvolvendo suas relações, “A autobiografia de Bruce Wayne” é sobre ele encarando a possibilidade de que, um dia, seus entes querido irão deixa-lo de novo. Por isso que é difícil para Bruce deixar de ser Batman, pois é a forma dele se empoderar, com o foco em seu trabalho servindo para controlar seus traumas. Consequentemente, isso resulta nele se fechando para as pessoas que deseja proteger, ironicamente, repetindo o mesmo ciclo de perda e solidão que ele sentiu quando perdeu seus pais.

Após ser infectado pelo gás do medo, Bruce é forçado a perceber o quão prejudicial sua tática é que ele não pode usar sua identidade de Batman para ignorar seu medo. Ele só pode vencer esse medo deixando essa “armadura” que ele criou entre si mesmo e o mundo.




Por isso que, de todos os interesses românticos para  ajudar Bruce, a escolhida foi a Selina Kyle, que não só ganha uma nova origem (envolvendo tópicos bem sérios como relações abusivas), como também ela serve como um paralelo ao Bruce, sendo uma pessoa que também usou sua identidade de Mulher Gato para lidar com seus próprios traumas. Mas, ao contrário de Bruce, ela veio a perceber o quão essa vida era vazia, cometendo roubos para preencher um vácuo que nunca ficaria satisfeito. Ela não apenas "a namorada do Batman", mas sim uma personagem independente e com seu próprio papel.



A decisão de Bruce em se casar com Selina não é fan-service para os shippers. Ela representa Bruce finalmente escolhendo ter felicidade em sua vida, mesmo com um futuro incerto, aceitar ter algo mais em sua vida além da missão. 

Embora tanto ele quanto esposa viriam a perecer antes da Crise nas Infinitas Terras, o final dessa história, onde Bruce expressa seu amor por Selina mesmo após a morte dela, e como sua busca se trata de achar significado em vida, passa para os leitores uma sensação de uma perfeita conclusão para a história do Batman da Era de Ouro.



 

Noite da ressurreição



·        Leitura: Batman vol.1 nº400

Se Autobiografia de Bruce Wayne foi um encerramento para a história para o Batman da Terra 2, “Noite da ressurreição” pode ser considerada o final do Batman da Terra 1.

Na 400º edição de seu título solo, Batman, enquanto se prepara para seu aniversário, recebe uma mensagem alertando-o para se preparar para seus inimigos. 



Logo em seguida, acontecem duas fugas em massa do Asilo Arkham e da penitenciaria. Todos os vilões do Batman escaparam. Sendo reunidos por aqueles que o libertou, os vilões começam a sequestrar pessoas, como Harvey Bullock, Julia Pennyworth, Comissário Gordon e até Alfred.



Em sua caverna, Batman se encontra com Ra’s Al Ghul, que revela ser a mente por trás desses incidentes, que são parte de um plano para forçar Batman a se tornar seu herdeiro, com Ra’s se oferecendo para ajuda-lo recapturar os vilões que recapturou. 





Tendo se recusado a ceder às exigências de Ra’s, Batman se reúne com seus aliados (Robin, Talia e Mulher Gato) para juntos derrotarem os vilões e salvarem seus amigos.



Essa história é um perfeito exemplo de uma edição de aniversário. Tudo parece como o encerramento de um teatro, com todos os personagens as histórias do Batman tendo sua presença na história, com a cereja do bolo sendo Ra’s sendo o grande antagonista e ele e Batman travando um de seus duelos mais intensos.



Assim como a “Autobiografia de Bruce Wayne”, o final dessa história é bem simbólico, com os amigos do Batman reunidos para celebrando seu aniversário, enquanto o homem morcego se dirige para longe deles, sabendo que ainda tem muitos vilões a solta para capturar. Essa é a essência de Batman: Um homem que escolhe enfrentar uma luta sem fim, para proteger a felicidade de seus companheiros. Uma imagem perfeita para fechar a história do Batman Pré-Crise.




Aqueles que conhecem a cronologia da DC vão, provavelmente, querer apontar que essa revista não foi o final do Batman da Terra 1, visto que ela foi publicada em outubro de 1986, enquanto a Crise terminou em março, 8 anos antes dessa revista ser publicada.

É um argumento válido, mas o fato que define essa história como a última do Batman Pré-Crise é ela ter sido o último trabalho da equipe de criadores da Era de Bronze, que foram passaram por uma reformada conforme a DC passou por mudanças para se adaptar nova linha de quadrinhos da pós-crise.

Por isso, Batman nº400 não é só um bom encerramento para o Batman Pré-Crise, como também uma carta de amor a como esses criadores conseguiram redefinir o herói para essa geração de fãs e leitores.

Então é isso! Quais são suas histórias favoritas do Batman da Era de Bronze? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões e ideias nos comentários abaixo