Uma ideia que costuma
ser explorada nas histórias do Batman é a possibilidade das atividades do
vigilante terem uma influência na criação de seus inimigos. É um conceito que tem alguns pontos válidos,
como fato de muitos vilões do Batman terem surgido logo quando ele começou sua
guerra contra o submundo, com eles eventualmente substituindo os mafiosos.
É uma temática que foi explorada em muitas adaptações do Batman sob abordagens diferentes, como a conexão entre Batman e o Coringa no filme do Burton, o conceito de escalada na luta entre bem e o mal na trilogia do Nolan ou a influência negativa que a violência do Batman acaba tendo em pessoas como o Edward Nygma, o Charada, no The Batman (2022).
Até mesmo Batman Série Animada teve um episódio, “Julgamento”, dedicado ao estudo dessa ideia, com sua conclusão sendo uma das melhores resoluções para o dilema.
Nesse texto, pretendo
falar de uma história em quadrinhos, até onde eu saiba, desconhecida por muitos fãs, que
explora essa discussão: Batman & Duas Caras: Crime e Castigo.
Escrita pelo excelente
J.M DeMatteis (pelo visto ele vai ser o destaque em dois textos seguidos) e
desenhada por Scott McDaniel, essa foi uma revista lançada em 1995, como um dos
projetos da DC a pegar carona com o lançamento do Batman Eternamente, que teria
a presença tanto do herói quanto do antagonista desse quadrinho, o Duas Caras.
Em contraste com a
versão galhofa que o filme nos deu, o quadrinho apresentou uma trama bem mais
sombria, que explorou não só a rivalidade do Batman e o Duas Caras como também
tocou em tópicos bem sensíveis como trauma, pecados do pai e responsabilidade sobre nossas ações.
Para abordar isso em
detalhes, irei falar dessa história em partes.
Let’s begin!
Trama
O Duas Caras está mais
uma vez ameaçando Gotham City, realizando uma onda de crimes e violência pela
cidade.
Seu ato mais notável
foi um ataque a um programa de TV para crianças vítimas de abusos, onde ele
apontou como um garoto se culpa pela forma como foi maltratado pelo pai, algo
que o vilão se identifica.
Isso dá ao Batman uma
suspeita de que Duas Caras está atrás seu pai, Christopher Dent, que ele acusa
ser responsável por sua transformação nesse criminoso dividido entre bem o mal.
Assim, a história se
torna essa caça pelo pai de Harvey, com Batman tentando chegar a ele antes do
Duas Caras, que também lida com sua própria insegurança em confrontar seu pai,
depois de todos os abusos que sofreu na infância.
Quem
criou quem?
De todos os inimigos do
Batman, o Duas Caras é o melhor candidato para explorar esse conceito de um
vilão ter sido criado por outras partes envolvidas na história.
O próprio Batman, em
muitas versões, se culpa por ter falhado em salvar o Harvey Dent do incidente
que desfigurou seu rosto, se vendo como responsável pela queda de seu aliado
para uma vida de crime.
Onde Crime e Castigo se
diferencia das outras histórias é com a inclusão do pai abusivo de Harvey e o
papel que ele teve na criação do Duas Caras, com Batman, na maior parte da
história, agindo como um observador e questionando quem é responsável pelas
ações do Duas Caras.
Foi Chris, que abusou
do pequeno Harvey na infância?
Foi Sal Maroni, o
mafioso que desfigurou o rosto de Harvey Dent?
Foi o próprio Harvey, que escolheu responder a sua situação com violência e loucura?
É um dilema bem
complexo que explora a questão sobre quem é responsável pelas má ações de outro.
Bem
& Mal ou Passividade & agressividade
Outro aspecto brilhante
de Crime e Castigo é a forma como aprofunda o confronto interno do Harvey Dent (algo que os filmes quase nunca exploram direito).
Antes da crise, Harvey
Dent era apenas um promotor que enlouqueceu após ser rejeitado pelas pessoas
por causa de seu rosto desfigurado.
Com o reinicio da DC na
década de 80, o personagem foi reinventado sendo um homem sofrendo de distúrbio
de personalidade, o que era descrito sendo um resultado dos abusos que ele
sofreu nas mãos de seu pai, em um jogo doentio onde Chris decidia ser bateria em Harvey ou não com lance de sua moeda de duas faces (logo, Harvey sempre seria agredido).
Em Crime e Castigo é
mostrado, como Christopher não só maltratava Harvey, como ainda fazia o Harvey
achar que seu sofrimento era culpa dele (uma tática de manipulação muito comum
usada por abusadores).
Foi esse processo que
resultou na mente do Harvey sendo dividida entre suas personalidades opostas,
não apenas de bem ou mal, mas sim de passividade e agressividade (outro assunto
que já discuti em um texto passado).
Por meio das legendas
de narração da revista, o leitor consegue ter uma visão mais clara quanto a
forma como as personalidades habitam o mesmo corpo (a forma como o resultado da
moeda leva a se tornar dominante, enquanto a outra pode apenas observar), assim
como os dois reagem ao mundo a sua volta: Enquanto Harvey se culpa por suas
ações, Duas Caras culpa outros por seus problemas e desconta sua raiva neles.
É uma situação muito
mais complicada, com os sentimentos de Harvey por seu pai sendo tão variados
que, ao confronta-lo, o personagem consegue ser um homem buscando vingança,
mas, ao mesmo tempo, um garoto tentando entender o que fez de errado para seu
pai odiá-lo.
O
poder da escolha
Tendo falado tanto do
Duas Caras, vocês devem achar que Batman não tem nenhum arco ou desenvolvimento
significativo?
Nem tanto.
Enquanto Duas Caras tenta encontrar alguém ou algo para culpar, Batman acredita na escolha individuo, que somos nós que fazemos nossas próprias escolhas, para o bem ou mal. Afinal, ele também sofreu um trauma em sua infância (a perda de seus pais durante um assalto), mas escolheu um caminho diferente.
O duelo dos dois não é apenas físico, mas também ideológico.
Interessante, a
história aproveita pra mostra que o próprio Batman não é perfeito e comete
erros, como ficar trabalhar tanto para encontrar o pai de Harvey e o vilão, que
ele acaba perdendo foco. Ele só consegue ter sucesso quando escolhe aceitar o
conselho de Alfred e descansar antes de retomar sua busca. Ele tomou decisão
errada, mas foi capaz de reconhecer o erro e fazer uma nova escolha.
Esse dilema é puxado
para um novo nível no clímax, onde Harvey, em um ato de desespero, tenta
cometer suicídio, pulando de um prédio. Batman poderia deixa-lo morrer,
livrando Gotham de um de seus piores inimigos e Harvey de seu tormento. Porém,
condizente com o personagem, ele escolhe salvar sua vida para que possa receber
devida ajuda e tratamentos psiquiátricos.
Embora Bruce se mostre
desconfiado sobre Harvey poder ser recuperar do Duas Caras, ele se mostra capaz
de viver com as escolhas que fez, dando ao Harvey a chance para um dia também
poder fazer a mesma realização que ele.
Essa é a mensagem sobre
Crime e castigo: Todos temos escolhas, para o bem ou mal, e a linha entre eles
nem sempre é clara. O que importa é conseguirmos refletir sobre nossas escolhas,
sermos capazes de muda-las quando reconhecemos nossos erros, também, viver com
elas.
Considerações
finais
Embora seja um dos
vilões mais conhecidos do Batman, o Duas Caras é um personagem cujas histórias
mais conhecidas parecem ser essas grandes obras como Longo dia das Bruxas e O
Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, onde ele divide espaço com várias outras
tramas e personagens.
Por isso, Crime e
Castigo, apesar de uma arte bem mais ou menos, consegue se destacar com uma
história mais isolada e pessoal, deixando de lado a ação espetacular e focando
mais no drama psicológico dos personagens, de forma que nós leitores também
questionamos nossa própria natureza. Ela
pode não ser uma história tão conhecida do Batman, mas eu considero uma
recomendação para aqueles que desejam conhecer a dinâmica do Batman com um de
seus vilões mais complexos.
Nota:
09/10
Então é isso! Qual a
opinião de vocês quanto a Batman e Duas Caras: Crime & Castigo? Sintam-se a
vontade para colocar suas opiniões e ideias nos comentários abaixo.







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