Tolete Azul, Azul Tolete



O ideal de cada civilização é superar a anterior em feitos, conquistas e realizações. Mas como suplantar, ou mesmo se equiparar, quando a perfeição numa área já foi alcançada anteriormente? No campo das artes plásticas, como sobrepujar, ou mesmo se colocar ombro a ombro, com os grandes da Renascença, Michelângelo, da Vinci, Botticelli etc? Como não corar de vergonha ao se dizer um artista, um pintor ou um escultor, quando, visivelmente, não se detém sequer uma fagulha do talento e da destreza destes monstros renascentistas?

Simples. Partindo para a picaretagem, para o lero-lero, para a embromação. Para o embuste semântico. Os tais artistas contemporâneos aproveitam-se da ignorância geral a respeito de arte (na qual, eu me incluo), descontruem o conceito do que é arte, ressignificam o belo, subvertem o sublime. A partir daí, saem a dizer que qualquer coisa pode ser considerada arte, que qualquer merda - literalmente -, desde que descontextualizada de suas origens ou funções iniciais, é o suprassumo da genialidade humana.

Os adeptos e praticantes da chamada arte contemporânea são muito mais hábeis (pensam que são) em pintar ou esculpir conceitos do que propriamente trazer-lhes ao mundo em belas e concretas formas. Em suma : um bando de charlatães empoados.

O francês Marcel Duchamp, por exemplo, roubou um mictório de um banheiro, desses nas paredes onde os caras mijam e ficam um a manjar a rola do outro de canto de olho, e o instalou em uma galeria de arte. 

Pronto : o mictório passou a ser considerado uma das obras mais revolucionárias de todos os tempos, um marco para a sua época. Foi e continua a ser aplaudido e incensado por uma pretensa elite intelectual.

Um outro, o italiano Piero Manzoni, recebeu a sua consagração no meio das artes com a criação de uma série de 90 latas, que enchia com suas próprias fezes e as lacrava hermeticamente. O rótulo constava de informações sobre a quantidade e a data de envazamento do produto : "merda de artista/conteúdo líquido 30 g /conservada ao natural/ produzido e embalado em maio de 1961".

Mais aplausos, mais olhares idiotas e abobados de admiração. Em 2016, a lata de número 69 foi vendida por 275 mil euros em um leilão na Itália.

E é lógico, é óbvio, que esses caras fizeram escola, arrebanharam magotes de discípulos e imitadores mundo afora. Qualquer um pode cagar numa lata.

Tão significativas foram as suas contribuições para as artes plásticas que os reflexos e o ecos de suas obras chegaram até mesmo à inculta e feia Ribeirão Preto.

Hoje, ao ir buscar meu filho na escola, deparei-me com essa obra-prima da arte contemporânea exposta numa calçada. Por pouco, não piso nela.


Toletes de bosta de cachorro pintados com spray azul.

Algum cachorro no aperto, tutoriado por um humano dos mais porcos e mal-educados (sim, que agora animal de estimação não tem dono, tem tutor), aliviou-se de suas necessidades fisiológicas na calçada e ali elas permaneceram, à mercê do sol, da chuva, de alguma sola de sapato distraída.

Para qualquer um que por ali passasse, os três toletes de merda seriam tão-somente o que de fato são, três pedaços de merda. Mas não para o artista. Não para um sujeito tão iluminado e agraciado com tanta sensibilidade. E aí é que entra em cena a centelha da criação. Para o artista, aqueles pedaços de merda não são mera matéria fecal, não são lixo ou dejetos indesejáveis. São o substrato sobre o qual ele irá edificar a sua arte, são o embrião de sua próxima criação. São a tela de sua Mona Lisa. O mármore de Carrara de seu Davi.

Esse cara, esse anônimo, fez uma releitura da bosta, lançou um novo olhar sobre a obra de outro artista, o cachorro. O cachorro obrou naquela calçada e o artista obrou sobre a obra do cachorro.

Senti-me numa Bienal a céu aberto, numa galeria ao ar livre, em Inhotim. A arte ao alcance de todos. Se o povo não vai até a arte, a arte vem até o povo. O artista deve ir aonde o povo está. Arte viva, interativa.

O que passa na cabeça, o que leva um sujeito a pintar toletes de merda com um spray azul? Não sei. Mas quem somos nós, meros e fúteis mortais, para querermos entender e decifrar o que acontece na alma de um artista?


E tão inovadora é essa obra que o seu conceito poderá se estender para além das artes plásticas, tão vanguardista que poderá gerar uma série de desdobramentos, de spin-offs em outros âmbitos da criação humana, poderá se tornar uma arte multimídia.

Na música, por exemplo : tolete azul, azul tolete, tolete azul...

Pãããããããta que o pariu!!!




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