Reino Sombrio - O que o filme do Adão Negro falhou em adaptar?

 



 

No meu último texto, eu falei sobre um erro de fãs deixando seu interesse pelos vilões faze-los confundir a função de um antagonista para um protagonista e o significado por trás de suas histórias.  Um personagem que personifica essa confusão é o Adão Negro.



Criado por Otto Binder e C. C. Beck em Marvel Family nº01 (1945), Adão Negro é um dos inimigos principais do Shazam e de sua família. Assim como Billy Batson, Teth Adam foi um campeão do Mago Shazam, que o escolheu na época do Antigo Egito. No entato, ele acabou se deixando ser corrompido pelo poder e escravizou seu próprio reino, forçando o Mago a bani-lo da Terra.




Como um rival, Adão negro age como um reflexo sombrio do Billy Batson, demonstrando o que o garoto poderia se tornar, caso escolhesse usar seus poderes para fins egoístas.



Conforme o tempo foi passando, roteiristas foram dando mais complexidades para o personagem, tornando-o uma figura que anda a linha entre vilão e anti-herói. Ele lutaria contra os heróis da DC, mas também se aliaria a eles, se isso atendesse seus objetivos, como garantir a segurança de seu reino Kahndaq.



Quando a Warner estava desenvolvendo o DCEU, eles planejavam introduzir o Adão Negro nos filmes do Shazam (tendo inclusive deixado pistas no primeiro filme).



No entanto, eles foram forçados a mudar de ideia por causa do ator escolhido para interpretar Teth-Adam, o icônico Dwayne “The Rock” Johnson. Não querendo fazer um vilão, ele convenceu a Warner a lhe dar um filme solo em 2022.

O resultado acabou sendo um filme genérico e com um roteiro que faz de tudo para mostrar Adão Negro como um herói incompreendido, sem as qualidades que o tornavam um personagem tão complexo.



Mas a parte mais triste é como o filme não só desperdiçou vários personagens interessantes, como também a chance de adaptar uma de suas melhores histórias de todas: Reino Sombrio.

Escrita por Geoff Johns em SJA nº56 a 58 e Hawkman vol.4 nº21 a 25 (ambas publicadas em 2005), Reino Sombrio foi um grande arco focado num confronto da Sociedade da Justiça contra o Adão Negro, quando esse e seu grupo de seguidores tomaram o controle de seu país natal Kahndaq.



Soa familiar?




Embora tanto a hq quanto filme do The Rock tenha tido a presença do Adão Negro e os membros da SJA, o arco do primeiro tinha uma história bem mais profunda, abordando tópicos sobre moralidade, poder & responsabilidade e o papel de super heróis na sociedade, trazendo em questão se eles deveriam promover mudanças no mundo ou preservar o status quo.

Para entender melhor por que esse arco é uma excelente história e superior a adaptação do The Rock, confiram minha análise da história abaixo

Trama

Buscando se redimir dos crimes cometidos por seu alter ego, o Adão Negro se uniu a Sociedade da Justiça. 



Embora ele tenha se mostrado um grande aliado em aventuras, ele logo se viu em discordância com os valores morais dos heróis. Julgando que os métodos da equipe eram ineficientes para garantir segurança no mundo, o Adão Negro, eventualmente, decide deixar a SJA, na companhia de Al Rothstein, o super herói Esmaga Átomo, executando o líder terrorista da Kobra.



A saída de Adão Negro logo se revelaria não o fim de sua história com a Sociedade da Justiça, mas sim o prelúdio para algo maior.

Liderando grupo de seguidores (Esmaga Átomo, Onda Mental II, Eclipso, Nemesis e Northwind), Adão Negro voltou a sua terra natal Kahndaq, derrubando o regime ditatorial e assumindo controle do governo.


Temendo que Adão busque expandir sua influência pelas regiões próxima, a SJA viaja a Kahndaq para confronta-lo. Porém, essa missão se mostra ser mais difícil, pois o grupo vai se deparando com situações que os fazem questionar se eles são realmente os heróis naquele cenário.

 


Mudança vs Preservação

Sob uma visão simplista, essa história pode parecer ser mais um caso de heróis com uma forte moralidade se opondo a anti-heróis e seus métodos extremistas, com as questões presentes sendo sobre o direito dos heróis em ser juiz, júri e executor de seus inimigos (algo que o filme do Dwayne Johnson chega a explorar... e muito mal).



Mas, ao ler o arco, a temática se expande para algo maior do que apenas a questão moral sobre heróis usarem força letal. Ela tem haver com a forma como heróis afetam o status na sociedade, sobre como eles promovem mudanças no mundo, ou se deveriam ser agentes de tais mudanças.

Isso é um dilema que tem sido trabalhado com super heróis desde seus primórdios, onde os personagens, como Superman, foram criados como forma dos autores abordarem problemas do contexto político/social, como a Grande Depressão e a Segunda Guerra. Naquela época, super-heróis eram tratados como a solução, indivíduos com incríveis poderes, que incentivavam mudanças para beneficiar as classes oprimidas, e aplicavam castigo nos responsáveis por esses problemas.



Mas, com o passar o tempo, as histórias foram se adaptando para se encaixar na visão dos artistas da novas época.  Super Heróis começaram a apresentar um código de conduta bem restrito, com suas ações passadas parecendo focar em tentar preservar o status quo atual da sociedade do que altera-lo. Muitas ações contrárias eram vistas como atos extremos ou terminavam em fracasso, colocando os heróis na mesma posição que nós, simples indivíduos incapazes de mudar o mundo, mesmo com suas habilidades (pelo menos não sem comprometerem seus valores morais).



O Adão Negro personifica uma crítica a essa postura. Suas atitudes podem ser violentas até demais, mas seus argumentos. Ele viu o governo negociando a liberdade de terrorista, como os agentes da Kobra. Ele viu que o povo de seu país estava sofrendo nas mãos de um ditador. Portanto, ele querer libertar os habitantes do regime opressor e assumir o controle parece algo errado? É correto a Sociedade da Justiça tentar impedi-lo e fazer o povo de Kahndaq voltar a ditadura?



É claro que isso não significa que o lado do Adão Negro seja absolutamente correto. Não só algumas de suas ações parecem ser ofensas bem pessoais, como recrutar Northwing, cujo padrinho é Gavião Negro (como se Adão estivessem tentando atacar seu ex-aliado através do afilhado), mas seu método extremo também expõe falha quando ele ameaça retaliar qualquer país que ouse ameaçar Kahndaq, colocando a região a beira de uma guerra. É um fato duro da realidade que várias pessoas tem que encarar. Não importa quanto busque fazer uma mudança no status quo, sempre tem pessoas na sociedade que irão reagir contra tal mudança, e isso leva a mais conflito.



Conflito de gerações

Sendo uma história da Sociedade da Justiça da América, é claro que uma temática presente na narrativa seria sobre gerações, a dinâmica dos heróis veteranos e os novos.

Nesse caso, o que temos é uma divisão entre os membros da SJA, com vários integrantes apresentando suas próprias opiniões em relação as ações do Adão Negro. Enquanto alguns sendo mais rigorosos, julgando que eles precisam derrotar o Adão Negro a todo custo, outros demonstram certa hesitação, reconhecendo que as perspectivas de outros envolvidos.



Essa divisão de opiniões resulta em vários momentos de argumentos entre os membros veteranos e os jovens, culminando em vários momentos importantes como o confronto de Hector Hall contra Nabu (que julga que o lado do Adão Negro está correto) ou a interação do Átomo (Ray Palmer) com o Esmaga-Átomo. São todos debates onde nenhum dos lados está absolutamente correto, tendo falhas que precisam ser reconhecidas, seja pelos jovens ou veteranos.




Por isso, é bem simbólico o herói acaba tendo um destaque em resolver esse conflito da SJA contra o Adão Negro acaba sendo Billy Batson, o Shazam, o herói que anda entre os dois mundos, tendo o coração inocente de uma criança mas também a sabedoria de Salomão.



Embora garoto mantém uma postura inocente e idealística das coisas da sua volta, Billy possui um aspecto importante: Aprendizado.

Durante essa fase da SJA, Billy foi conhecendo melhor Adão Negro, no processo, aprender mais sobre o homem que enfrentou todos esses anos, chegando inclusive a viajar ao passado, e descobrir que a revolta de Adão Negro, foi motivada pelo assassino de sua esposa e filhos. Adão poderia ser cruel, mas seu amor por seu país e povo era genuíno.





Por isso não é surpresa que Billy acaba sendo quem descobre a solução para o conflito da SJA contra o Adão Negro, não por meio da violência, mas sim expondo a verdade (que a batalha levaria a destruição da terra que Adão tanto ama) e convencendo a SJA a deixar o Adão Negro proteger Kahndaq, sob a condição de que esse não tentará provocar conflito com outras regiões, respeitando a memória de sua família (e ainda tem gente que acha que Shazam não é inteligente ou maduro...).

 


Considerações finais

Comparar essa história com o filme do The Rock é realmente o equivalente a comparar uma maçã fresca com uma maçã estragada. As duas podem parecer idênticas em aparência, mas é seu interior que faz a diferença. Enquanto o filme foi um projeto feito apenas para satisfazer o ego do The Rock (e ser uma tentativa dele assumir direção do DCEU), Reino Sombrio buscou desenvolver os personagens e apresentar uma história rica em dilemas morais personagens com diferentes perspectivas, permitindo leitores se conectarem com cada um deles.

O arco pode envolver personagens que não são medalhões da editora, comparado com figuras como a Superman, Batman ou Liga da Justiça, mas isso não impede de ter uma história bem escrita que dá um merecido destaque a personagens como Shazam,  Adão Negro da Sociedade da Justiça. É a melhor recomendação para quem quiser conhecer esses personagens (principalmente o Shazam e o Adão negro).

Nota: 10/10

 


 Então é isso! Qual a opinião de vocês quanto ao Reino Sombrio? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões e ideias nos comentários abaixo.