Bolsoringa (Ou, a crítica da esquerda a Bolsonaro por ele ser de... esquerda)

A rigor histórico, ser de esquerda é querer a cabeça do Rei, querer que, de preferência, nem haja um Rei - e não, como hoje, apenas querer substituir, trocar seis por meia dúzia, a bunda que se assenta e se acomoda ao macio trono. Ser de esquerda é se opor e querer o desmanche do sistema estabelecido - e não, como hoje, apenas querer usurpar e bem se estabelecer no lugar de quem vinha mantendo e perpetuando o sistema estabelecido. É querer acabar com o Baile do Rei - e não, como hoje, ansiar por ingressos em camarote VIP para tomar parte do mesmo; não, como hoje, apenas querer trocar de Rei para passar a se sentar à direita dele. 

A rigor histórico, ser de esquerda é querer romper com e demolir os paradigmas viciados do poder político vigente e renovar e modificar as suas relações, é ter um pensamento, portanto e minimamente, anárquico. Ser de esquerda é ser fora do rumo e do prumo, é pensar fora da casinha - e não, como hoje, invejar e ambicionar a casinha do outro, ainda que seja para adquiri-la, a prestações vitalícias, no Minha Casa, Minha Vida.

A rigor histórico, ser de esquerda é ser um eterno "se há governo, sou contra", um sem-teto ideológico, um sem-trono por convicção. É ser, às vistas do establishment e do cidadão comum, um "inconsequente, irresponsável e insano".

Se buscarmos nas histórias em quadrinhos, a nona arte, hoje tristemente rebaixadas a cinema, a sétima arte, que personagem é o mais anárquico, o mais contestador do sistema, o mais avesso às relações de hierarquia e comando, quem é o maior crítico da ordem da Nova Ordem Mundial, quem é que quer, de fato, ver o circo pegar fogo e não apenas ser mais um palhaço ao picadeiro? Que personagem de quadrinhos é, enfim, mais de esquerda que o desvairado Coringa? Nenhum, meus caros. Nenhum.

O Coringa quer a cabeça do Rei. E nem é para exibi-la à parede de sua sala de troféus. Muito menos para colocar à própria cabeça a coroa que antes aninhava-se na do decapitado regente. O Coringa quer a cabeça do Rei, simplesmente, porque o Rei é o Rei. No máximo, quer jogar uma pelada de fim de semana com ela e descartá-la.

O Coringa não confronta a sisudez, a disciplina, o rigor espartano e todo o poderio bélico do Batman para assumir o lugar dele na bat-caverna. O Coringa nem quer matar o Batman, só quer subvertê-lo, só quer despi-lo de sua negra e engessada armadura de morcego para vesti-lo com um modelito mais leve, mais relax; quiçá, ver o morcegão carruncudo em largas bermudas, camisas e colares havaianos.

Em um dos filmes mais recentes do Cavaleiro das Trevas, o Coringa, encarnado pelo suicida Heath Ledger, trama lá um assalto, um sequestro, ou sei lá o quê, como forma de receber um resgate trilionário (em dólar) : só  para ter o prazer de, literalmente, a fósforo e gasolina, queimar toda a sua parte. Karl Marx, vagabundo que foi sustentado pela esposa enquanto escrevia "O Capital", choraria de emoção! 

Conseguem imaginar um esquerdista de hoje tacando fogo em dólares? Conseguem conceber o Lula, o Chaves, o Maduro ou o Fidel a incinerarem "verdinhas", que são o símbolo supremo do grande capital? Quem pode ser mais fiel ao próprio discurso e mais desapegado ao capital que o Coringa? Quem é capaz de contestar mais o sistema e ser mais de esquerda que o Coringa? Ou, ao menos, equipará-lo?

Quem nos dá a resposta, é a própria mídia esquerdista, através de um de seus veículos impressos mais notórios, a revista Isto É. E a resposta é : ele, o Mito, o intrépido Bolsonaro.

Jair Bolsonaro, segundo a capa sensacionalista (e muito bem bolada, eu gostei pra caralho) da Isto É desta semana, é o Coringa, é o nosso homem de esquerda, portanto. Tão de esquerda, mas tão de esquerda, que continua sem partido até hoje. Continua sem querer a nenhuma denominação se filiar, sem querer ser representado ou definido por nenhuma sigla partidária, muito menos representá-la ou defini-la.

Diga-me a quem te coligas e te direi quem és. Pois Bolsoringa não se filia a ninguém. Mais de esquerda, mais à esquerda do sistema, impossível. Mais contrário e refratário ao sistema binário do mercenarismo político da Câmara e do Senado, impossível.

A esquerda tanto fez que acabou por colocar um homem de esquerda no Palácio do Planalto, ainda que esse homem não tenha sido o Lula (que boa piada!) nem a Dilma (que boa piada de português), ainda que esse homem não tenha emergido dentre os seus ungidos : ainda que esse homem tenha sido Jair Bolsonaro.

E o que a esquerda faz agora, que logrou o seu intento? Critica. Malha. Tenta avacalhar e esculhambar com Bolsonaro, o mais fora da casinha de nossos eleitos (no caso, das casinhas da Câmara e do Senado), o mais desalinhado politicamente de nossos políticos, o mais à esquerda e a escanteio do status quo político tupiniquim. Toda crítica da suposta e pretensa esquerda brasileira vira elogio e propaganda positiva ao Bolsoringa. Tiros de festim que saem pela culatra.

A esquerdista Isto É critica Bolsonaro por ele ser, a rigor histórico, de... esquerda. É o Samba do Bolchevique Doido! Valha-me São Bakunin!

E, claro, pãããããããããta que o pariu!!!!

 
Por que tão sérios?




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