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terça-feira, 8 de novembro de 2016

PROJETO XEQUE-MATE #09

Kramnik...



Antes de tudo, eu gostaria de agradecer a recepção que essa transcrição do livro “Xeque-Mate: A vida é um jogo de xadrez” anda tendo, bem como o conteúdo de xadrez no blog. Atualmente, 8 dos 10 posts mais acessados da semana, são sobre xadrez, em especial o Projeto Xeque-Mate. Mesmo com pouca gente comentando, dá para perceber que o conteúdo está sendo lido, e se clarear a mente de quem está lendo, ou prestar qualquer tipo de auxilio na área de administrativa de sua vida, seja no xadrez ou não, já me sinto com uma missão sendo bem cumprida. Parar todos os dias para digitar trechos desse livro não é nem um pouco trabalhoso, pelo contrário, é inspirador, me sinto aprendendo um pouco mais a cada dia, até mesmo minha forma de absorver conteúdos enxadristas e de outras matérias melhorou, bem como, em certo nível, minha pontualidade com outros livros. Esse trabalho não visa “piratear” ou ferir de forma alguma as obras do mestre Kasparov, pelo contrário, visa que mais pessoas possam ler seus ensinamentos. A compra de seus livros, bem como esse, é um processo natural de quem estiver gostando do que lê.

Força e honra.


Pág. 39 – 43:

Quando você tem uma estratégia, empregá-la é questão de vontade

A última defesa como campeão, em 2000.

Finalmente, chegamos à parte difícil de desenvolver e empregar o pensamento estratégico: a segurança de usá-lo e a capacidade de nunca abrir mão dele. O verdadeiro trabalho começa quando você tem a estratégia no papel. Como você mantém o rumo, e como sabe quando deixou de pensar de forma estratégia?
Devemos ter fé em nossas análises, ter coragem de manter nossas opiniões. Precisamos fazer um acompanhamento constante das condições que farão nossa estratégia ser bem-sucedida ou malsucedida. Mantemos o rumo com um questionamento rigoroso de nossos resultados, bons e maus, e de nossas contínuas decisões. Durante uma partida, questiono meus lances e, após o jogo, questiono se minhas avaliações foram bem precisas no calor da batalha. Minhas decisões foram boas? Minha estratégia foi sólida? Se eu venci, foi por sorte ou habilidade? Quando esses sistema falha, ou não opera com rapidez suficiente, pode ocorrer uma tragédia.

Não estamos mais em 1984, Sr. Kasparov...

Em 2000, enfrentei meu ex-aluno, Vladimir Kramnik, num match de 16 partidas pelo campeonato mundial, minha sexta defesa do título. Eu havia recuperado o título em 1985, e estava jogando o melhor de minha vida nesse match. Em outras palavras, eu estava pronto para a derrota.
Era difícil imaginar, após anos de sucesso, que eu poderia ser derrotado. Ao entrar nesse match, eu já vencera sete torneios consecutivos de grandes disputas e não tinha consciência de minhas fraquezas. Eu me considerava em grande forma, e invencível. Afinal de contas, eu não vencera todo mundo? A cada vitória, a habilidade de mudar fica reduzida. Meu técnico, e amigo de longa data, o Grande Mestre Yuri Dokhoian, com muita propriedade comparava esse fato a levar um banho de bronze. Cada vitória acrescentava outra camada.
Quando jogou com pretas em nosso match, Kramnik sagazmente escolheu a variante Berlim da Ruy Lopes – em que as poderosas damas rapidamente deixam o tabuleiro. O jogo tornou-se uma manobra demorada, em vez de um combate dinâmico, no corpo a corpo. Kramnik havia estudado o meu estilo, e avaliara corretamente que eu acharia esse tipo de jogo entediante e, inconscientemente, baixaria a guarda. Eu me preparara intensamente e estava pronto para combater em 90% do campo de batalha do xadrez, mas ele me obrigou a jogar nos 10% que ele conhecia melhor e que sabia que eu não preferia. Foi uma estratégia brilhante, que funcionou à perfeição.
Em vez de tentar retroceder o jogo para posições em que eu estaria mais confortável, aceitei seu desafio e tentei vencê-lo em seu próprio jogo. Essa tática, inadvertidamente, beneficiou Kramnik. Eu não conseguia me adaptar nem fazer mudanças estratégicas com a rapidez necessária, e perdi o match e o título. Às vezes, o mestre deve aprender com o aluno.

Com o passar do tempo, aprendi que tinha que ser mais flexível sobre os meus tipos preferidos de posições de xadrez. Todavia, essa lição dolorosa poderia ter sido evitada com uma vigilância maior, empenhando-me mais para descobrir e corrigir minhas fraquezas antes que Kramnik pudesse explorá-las.
Líderes em todas as áreas, indivíduos ou empresas de sucesso, chegaram ao topo trabalhando com afinco e dedicando-se mais do que os outros. Os melhores realizadores acreditam em si e em seus planos, e trabalham incessantemente para assegurar que esses planos sejam merecedores de sua fé. Torna-se um círculo positivo, com o trabalho reforçando a vontade, que estimula mais trabalho. É preciso tornar o questionamento um hábito arraigado o bastante para superar os obstáculos de excesso de confiança e desânimo. É uma força que pode ser desenvolvida apenas com exercício constante.
Há um ditado de negócios que diz: “Planejamento sem ação é inútil, ação sem planejamento é fatal.” Isso repete Sun Tzu, que séculos atrás escreveu: “A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.”


   --Partida 02 do Match de 2000.
   Kramnik com as brancas, e Kasparov com as pretas:

   






Plano estratégico de batalha – Match do campeonato mundial de 1985 – Moucou, URSS


As dificuldades que tive no primeiro match com Anatoly Karpov, pelo campeonato mundial, não foram apenas no tabuleiro. Ao entrar nesse match, faltava-me experiência no preparo de um plano para toda a competição. Entrei achando que uma intensiva preparação de aberturas e bastante energia seriam suficientes. Não tínhamos um plano, além de comparecer a cada partida e jogar com empenho, e isso logo se mostrou insuficiente. Fui para o segundo match muito mais bem preparado, e por conseguinte, me senti muito mais á vontade, mesmo quando tive contratempos na primeira metade. Eis o plano de batalha de minha equipe para o segundo match:

Objetivo: Vencer o jogo. Eu precisava marcar 12,5 pontos nas 24 partidas para vencer. É importante lembrar que não era necessário eu eliminar Karpov, embora eu tivesse gostado disso. Eu só precisava vencer um jogo a mais que ele no decorrer das 24 partidas. (Um match empatado lhe daria o título). Não era necessário ganhar todas as partidas, ou vencer de maneira espetacular. Quando perdi terreno no match, depois da quinta partida, não entrei em pânico, em vez disso, continuei jogando meu jogo e seguindo meu plano de batalha. Manter o plano, com pequenos ajustes no decorrer da competição, possibilitou-me tomar a iniciativa e encostar Karpov nas cordas.

Vantagens e desvantagens: O estilo e a experiência de Karpov deram-lhe uma vantagem nas posições técnicas, em que desequilíbrios dinâmicos não eram tão importantes. Um dos meus objetivos intermediários, portanto, foi buscar posições complicadas que combinassem com meu poder de cálculo preciso, e avaliar a iniciativa. Também sentimos que minha energia vigorosa seria bem aproveitada para manter o máximo de concentração por longos períodos. Se a posição fosse simplificada, a técnica implacável de Karpov poderia me destruir gradualmente.

Preparação específica: Depois de jogar tantas partidas contra Karpov no primeiro match, tínhamos uma boa ideia de que tipo de posições ele não gostava de jogar. Planejamos meu repertório de aberturas visando atingir essas posições, não apenas seu valor objetivo. Por exemplo, poderíamos descartar uma posição de julgássemos de igual objetivo, mas que combinava bem com o estilo de Karpov.
Desenvolvemos uma variante muito arriscada de gambito com as peças pretas. Sabíamos que era objetivamente um pouco frágil, mas se tratava exatamente do tipo de posição dinâmica que eu gostava e Karpov desprezava. Eu a utilizei pela primeira vez na décima segunda partida, e Karpov concordou com o empate, basicamente em razão do impacto da ideia. Presumia-se que eu não voltaria a usar o gambito, uma vez que a equipe de Karpov estaria preparada para ele. Mas, na décima sexta partida, eu o trouxe de volta e consegui uma de minhas maiores vitórias. (Uma reação contra esse gambito foi posteriormente descoberta por Karpov contra outro adversário.)

Resultado: Vitória do match por 13-11. Apenas raramente Karpov atingia posições que gostava e, na décima primeira partida, cometeu um dos piores erros de sua carreira. Para seu crédito, Karpov aprendeu as mesmas lições que nós sobre os seus pontos fortes e fracos. Depois desse match, ele mudou completamente o repertório de aberturas com as brancas, para ficar mais em harmonia com o seu estilo natural.




   A décima sexta partida, do match de 1985, que Kasparov menciona   como   uma de suas melhores vitórias. Karpov está com as brancas, e Kasparov com as pretas:


   

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