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domingo, 6 de novembro de 2016

PROJETO XEQUE-MATE #06

Mikhail Tal na juventude.



Pág. 28 – 31:

Jogue o seu próprio jogo

Dois fortes enxadristas podem ter estratégias muito diferentes na mesma posição e ser igualmente eficientes – deixando de lado aquelas posições em que só existem uma única sequência de lances que levam a vitória forçada. Cada jogador tem o próprio estilo, a própria maneira de resolver problemas e tomar decisões. Um segredo para desenvolver estratégias bem-sucedidas é ter consciência de seus pontos fracos e fortes, saber o que você faz bem.
Alexander Pushkin
Duas figuras proeminentes de diferentes escolas de pensamento no xadrez tornaram-se campeões mundiais. Mikhail Botvinnik confiava em sua enorme autodisciplina, trabalho intenso e rigor científico. Seu rival, Mikhail Tal, alimentava a criatividade e a fantasia desenfreadas, e pouco se importava com a saúde e a preparação metódica. Thomas Edison disse uma frase memorável: “Sucesso é 1% inspiração e 99% transpiração”. Essa formula funcionou para Edison e Botvinnik, mas nunca teria dado certo para Tal – ou mesmo para Alexander Pushkin, o fundador da moderna literatura russa. A paixão de Pushkin pela vida excitante, jogo e romance representou parte de sua capacidade de criar algumas das melhores obras da língua russa.
Tigran Petrosian, outro ex-campeão mundial, aperfeiçoou a arte do que chamamos de “profilaxia” no xadrez. Profilaxia é a arte do jogo preventivo, reforçando nossa posição e eliminando ameaças antes mesmo de se materializarem. A defesa de Petrosian era tão boa que o ataque do oponente terminava antes de começar, talvez antes de ser idealizado. Em vez de atacar, Petrosian estabelecia uma defesa perfeita, deixando os oponentes frustrados e propensos a cometer erros. Ele ficava atento a qualquer pequena oportunidade e explorava esses erros com precisão cruel.
Gosto de me referir a ele como um verdadeiro “herói da inatividade” no xadrez. Ele desenvolveu a política de “vigilância inativa”, que demonstra como vencer sem tomar diretamente à ofensiva. Generalizando, a estratégia de Petrosian era inicialmente ver as oportunidades do adversário e depois eliminá-las. Somente quando sua própria posição se mostrava invulnerável é que ele começava a analisar as próprias chances. Essa estratégia de ser um objeto imóvel demonstrou-se muito eficiente para ele, mas poucos jogadores conseguiram imitar seu estilo paciente e defensivo.
Quando joguei contra Petrosian na Holanda, em 1981, eu tinha 18 anos e Petrosian, 52. Eu estava ansioso por uma desforra, por ter perdido para ele no início do ano em Moscou, onde eu desenvolvera uma posição de ataque impressionante que acabou fracassando. Na ocasião, achei que fosse um acidente, mas depois aconteceu novamente. Toda vez que minha ofensiva parecia estar penetrando com toda a força, ele calmamente fazia um pequeno ajuste. Todas as minhas peças estavam aglomeradas ao redor de seu rei, e eu tinha certeza que era só questão de tempo para que eu deferisse meu golpe definitivo. Mas onde é que ele estava? Comecei a me sentir como um touro perseguindo o toureiro na arena. Exausto e frustrado, cometi um erro, depois outro e acabei perdendo a partida. No futebol, fato semelhante aconteceu na Copa do Mundo na Espanha, um ano mais tarde. O estilo de defesa trancada dos italianos triunfou sobre o bonito jogo de ataque dos brasileiros. Às vezes, a melhor defesa é uma boa defesa.



Durante os dois anos seguintes, consegui igualar o placar de nossas carreiras, vencendo Petrosian por duas vezes em um estilo posicional tranquilo, quase com o estilo dele mesmo. Atribuo a mudança bem-sucedida de minha abordagem ao conselho que recebi do homem que tirou de Petrosian o título mundial em 1969, Boris Spassky. Antes de enfrentar Petrosian novamente, menos de um ano após as derrotas descritas acima, conversei com Spassky, que estava participando de um torneio na Iugoslávia. Ele me aconselhou dizendo que o segredo era fazer pressão – pouca, mas firme. “Aperte as bolas dele”, Spassky me disse de maneira memorável, “mas aperte uma, e não as duas!”


As próprias experiências de Spassky contra Petrosian seguiram um padrão semelhante ao meu. Primeiro, ele disputou com Petrosian o mundial de 1966, e foi eliminado numa disputa tensa. Ele entrou no jogo acreditando – erroneamente – que Petrosian não jogava um xadrez incisivo e de ataque porque lhe faltava capacidade para tanto. Spassky complicou ao máximo, até que seus ataques foram repelidos de forma brilhante pelo ardiloso campeão mundial.
Três anos mais tarde, Spassky demonstrou que havia aprendido a lição, respeitando muito a capacidade de Petrosian. No match que disputaram em 1969, ele jogou uma partida mais equilibrada e chegou a vitória. Minhas duas primeiras derrotas me fizeram ter um profundo respeito pela capacidade de Petrosian e por sua arte de defesa no xadrez. Mas percebi que esse estilo não era para mim. Eu sempre quis estar do lado atacante, e minhas estratégias de jogo demonstravam isso. Devemos ter consciência de nossas limitações e também de nossas melhores qualidades.



Meu estilo dinâmico e agressivo de jogar é coerente com meus pontos fortes e minha personalidade. Mesmo quando sou forçado a ficar na defensiva, procuro constantemente uma oportunidade de mudar de situação e contra-atacar. E, quando estou na ofensiva, não me contento com ganhos modestos. Prefiro o xadrez incisivo e dinâmico, em que as peças voam por todo o tabuleiro e em que o primeiro jogador que cometer o primeiro erro perde a partida. Outros jogadores, inclusive Anatoly Karpov, o campeão mundial que derrotei, especializaram-se em acumular pequenas vantagens. Eles se arriscam pouco e se contentam em melhorar sua posição gradativamente até que o oponente ceda. Mas todas essas estratégias – defensivas, dinâmicas, de manobra – podem ser extremamente eficientes nas mãos de alguém que as entenda bem.
Também não existe uma única melhor estratégia nos negócios. Aqueles que estão dispostos a correr riscos coexistem com dirigentes conservadores na cúpula das quinhentas melhores empresas relacionadas pela revista Fortune. Talvez 50% das decisões de um CEO sejam tomadas de forma idêntica a qualquer homem de negócios competente, assim como há muitos lances óbvios para qualquer bom enxadrista, independente de seu estilo. São os outros 50%, ou até os 10% mais complicados, que fazem a diferença. Os melhores líderes avaliam os desequilíbrios específicos e fatores importantes de cada situação e conseguem arquitetar uma estratégia fundamentada nesse entendimento.
Jorma Ollila
O CEO da Nokia, Jorma Ollila, transformou a empresa finlandesa em líder de telefonia celular, com um estilo heterodoxo, até mesmo caótico, que modificou radicalmente o convencional em todas as situações. Altos executivos eram convidados a trocar de cargo, o pessoal de pesquisa e desenvolvimento reunia-se diretamente com os clientes, e certa vez, o principal designer de telefones comparou seu gerenciamento à forma como uma banda de jazz improvisa em suas apresentações.
Um estilo tão flexível e dinâmico não pode ter sucesso em outro setor, em outro país, ou com outro CEO. Durante várias décadas, a IBM desenvolveu suas atividades com a reputação de ser conservadora e até enfadonha. No mundo de materiais para escritório, isso representava confiabilidade, que era muito mais importante para os clientes dos negócios da IBM do que estilo. Novos modelos de telefones celulares eram lançados todos os meses, enquanto a IBM vendia e fazia manutenção em máquinas de cinco e até dez anos. Aos olhos dos clientes, esse conservadorismo extremo era uma virtude.

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