Uma das qualidades marcantes dos filmes do Batman é
como os produtores sabem aproveitar a galeria de vilões do homem morcego.
Maioria dos vilões icônicos (ex: Coringa, Pinguim, Charada, Espantalho, Mulher
Gato, etc...) já tiveram uma ou mais adaptações nos filmes do Batman. Se foram
representações boas ou ruins é outra discussão.
No entanto, nem todos vilões conhecidos do Batman
tiveram essa sorte. Um que tem tido dificuldade de ser adaptado, apesar da
exigência de muitos fãs, o personagem em questão no texto de hoje: O Cara de
Barro.
Tendo aparecido em Detective Comics nº40 (1940), criado por Bob Kane e Bill Finger, o
Cara de Barro, a princípio, era um ator que virou um serial killer, após
descobrir que um estúdio estava fazendo um remake de seus filmes. Ele não tinha
poder nenhum e sua luta contra o Batman era algo mais próximo de um filme slasher.
Conforme os quadrinhos foram abraçando conceitos sci-fy, o personagem foi reinventado como um monstro de barro, capaz de alterar sua aparência. Isso não só o tornou uma ameaça física a altura do Batman, como também criou a imagem que fãs tem do Cara de Barro.
Algumas versões futuras, como a da popular série animada, enriqueceriam
o personagem, mostrando-o como vilão trágico, um homem desfigurado que foi
transformado em um monstro contra sua vontade.
Infelizmente, por causa da insistência dos filmes do
Batman em terem um tom mais “realistas”, o personagem do Cara de Barro acabou
sendo excluído, devido ao seu conceito ser fantasioso demais. Tinha também a dificuldade de traduzir seus
poderes para live-action de forma convincente. Por isso que o personagem é mais
usado em animações e vídeo-games, onde os criadores tem uma variedade maior de
visuais e técnicas que podem utilizar.
Mas nem toda esperança está perdida, pois, nesse mês
de outubro, o personagem virá a estrear seu filme solo, que abraçar o lado de
“horror corpóreo” do personagem e introduzi-lo para uma nova geração de fãs.
Visto essa notícia, achei uma ocasião para
apresentar uma história do Cara de Barro para os leitores interessados em
conhece-lo: “Barro”.
Escrito pelo saudoso Alan Grant e desenhada Enrique
Alcatena na séries Legends of the Dark
Knight nº89 e 90 (1996 a 1997), esse arco, de duas partes, consiste em uma
versão moderna da origem do Matt Hagen, o segundo Cara de Barro (irei falar
disso daqui a pouco), só que com uma abordagem bem mais psicológica, com um tom
macabro e foco em temas sobre identidade, mortalidade e a corrupção do poder.
Trama
Esperando pela chegada de seu patrão, Alfred se
espanta ao encontrar o Batman, todo ferido, caído perto da mansão Wayne. O
mordomo leva cuida dos ferimentos de Bruce, que explica que eles foram causados
criatura feita de barro, que matou uns capangas do chefe Xylas e sequestrou uma
prisioneira que ele tentou salvar.
Enquanto Batman tenta localizar esse novo vilão, a
história passa a focar nas interações da criatura com a jovem Lisa, que
descobre que o monstro é seu namorado Matt Hagen, um capanga de Xylas,
responsável por esconder diamantes roubados na baia de Gotham. Quando ele
decidiu trair seu chefe e roubar os diamantes, Hagen acabou sendo pego com a
boca na botija e perseguido pelos homens de Xylas.
Se abrigando em uma caverna, ele acidentalmente caiu
em uma misteriosa “piscina química”, que tornou seu corpo em barro.
Aprendendo que pode mudar de forma, Hagen decide
usar suas novas habilidades para se vingar de Xylas e assumir controle do submundo,
virando uma nova ameaça que Batman terá que enfrentar.
De
um vilão surreal da Era de Prata para uma figura assustadora da era moderna
Quem conhece o Matt Hagen pela série animada do
Batman, provavelmente deve estranhado essa origem que descrevi.
Por que Hagen é um capanga de um mafioso? Ele não era um ator que foi desfigurado?
É o seguinte...nos quadrinhos houve vários
personagens que usaram o nome do Cara de Barro. A versão do desenho animado dos
anos 90 é uma fusão de aspectos dessas versões: A profissão de ator pertencia
ao primeiro Cara de Barro (Basil Karlo) e a origem dele sendo um homem
desfigurado que se torna um monstro veio do terceiro (Preston Payne).
Já o nome e os icônicos poderes de metamorfose
pertenceram ao segundo Cara de Barro, Matt Hagen, que nos quadrinhos, era
simplesmente um ladrão que, acidentalmente, encontrou uma piscina que lhe
transformava nesse monstro de barro.
“Barro” pega essa história da Era de Prata e aplica
uma abordagem mais condizente com o tom sombrio das hqs do Batman das décadas
que seguiram. Matt Hagen continua sendo um ladrão que se torna um super vilão
ao entrar em contato com substância química, porém Alan Grant dá um pouco mais
de dimensão para suas motivações, estabelecendo Hagen como um mero capanga, um
ladrão pequeno que trabalha para figurões do submundo. Quando se torna o Cara
de Barro, Hagen passa a ver sua transformação como uma forma de subir no
submundo e acabou corrompido pelo poder.
Isso pode não torna-lo uma figura simpática aos
olhos dos leitores, mas também não é difícil sentir pena por Hagen querer ser
uma figura respeitada, mas, aos poucos, ele é levado a loucura pela poça
química.
Essa tragédia é fortalecida pela presença de Lisa, a
ingênua mas leal namorada de Hagen. Durante a história, ela age como a
consciência dele, tentando convence-lo a deixar essa vida de crime e fugir com
ela. Mas a recusa de Hagen em ouvi-la e sua obsessão pelo poder leva a relação
entre eles a ruína, com Lisa aprendendo tarde demais o monstro que Hagen
totalmente é.
O fato de Hagen ter rejeitando a única pessoa que
lhe deu amor torna sua transformação uma forte alegoria para a corrupção que
vem com o poder e como isso custo que isso tem na sanidade e a vida do
indivíduo.
Batman
vs medo da morte
Além de entregar uma origem mais sombria do Matt
Hagen, “Barro” também uma abordagem mais detalhada do primeiro conflito do
Batman contra um super vilão.
No lugar do herói todo preparado estoico, que sempre
mantém a seriedade, não importa o quão bizarros sejam seus oponentes, temos um
Batman que fica traumatizado em sua primeira luta contra o Cara de Barro, com a
história estabelecendo o quão fora da zona de conforto o Batman está contra
esse tipo de oponente. Afinal, apesar de todas suas habilidades, no final do dia,
Batman é apenas um vigilante que luta contra loucos fantasiados, não estando acostumado a lidar com esses super-humanos, como Superman ou Flash fazem em suas aventuras.
Esse é um raros exemplos onde Batman demonstra medo por sua mortalidade e insegurança se ele será capaz de vencer esse oponente assustador.
Através desse estado mental do Batman, a história explora tópicos sobre medo e a habilidade de um indivíduo em conquistar essa emoção, temas que estiveram presentes na história do cavaleiro das trevas desde o começo.
Ao invés de sucumbir a insegurança, Batman passa
parte da história se preparando para seu futuro confronto com Cara de Barro,
criando novas armas e aprendendo novas abordagens para encontra-lo (incluindo
criar sua identidade de Matches Malone). Diferente de versões modernas, que
mostram como um herói que sabe tudo e está sempre preparado, o Batman é
mostrado como um sujeito que, embora tenha seus conhecimentos, não é invencível
e se adapta diante os cenários.
Esse detalhe contribui para criar um contraste
perfeito do Batman com o Cara de Barro: Enquanto o vilão fica viciado em seus
poderes, rejeitando sua identidade (representando sua humanidade), o homem
morcego reconhece que é um mero humano, mas não deixa isso impedi-lo de tentar
se opor ao Cara de Barro com sua inteligência e habilidade de aprender e
evoluir.
Considerações
finais
Matt Hagen pode não ser minha versão favorita do
Cara de Barro (essa é o Basil Karlo) mas eu acho que Barro faz um bom trabalho
modernizando o personagem, sem ter que torna-lo uma cópia de outras versões
(como visto na série animada e o futuro filme).
Com o público presente a ser apresentado a uma nova
versão do personagem, esse arco de duas partes é uma leitura para aqueles que
quiserem conhecer o personagem das hqs e sua diferença para essas versões mais
conhecidas.
Também recomendo para aqueles interessados em ver
uma história onde Batman não é o herói invencível e todo preparado que a DC
costuma representa-lo hoje em dia, mas sim um vigilante que sabe como se
adaptar as diferentes situações.
Nota:
9/10
Então é isso? Qual a opinião de vocês quanto a
Batman: Barro? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões nos comentários
abaixo.





















