O que representam os vilões do Homem Aranha?

 





 Depois do Batman, Homem Aranha é um dos heróis com uma das galerias de vilões mais conhecidas da cultura pop. Até mesmo quem nunca leu uma hq na vida conhece os inimigos do cabeça de teia como o Duende Verde, Doutor Octopus e o Venom.



Os motivos por trás dessa popularidade podem ser identificados em vários aspectos dos vilões, como seus designs memoráveis, seus poderes/gadgets únicos, suas personalidades carismáticas e suas rivalidades com o Aranha, com alguns sendo pessoas próximas do protagonista.

Mas, pelo menos pra mim, o ponto que faz vilões do Aranha funcionarem é como maioria deles age como um reflexo distorcido do protagonista.

Como expliquei no meu texto sobre os vilões do Batman, sou um grande fã quando escritores fazem com que as histórias dos heróis e vilões sejam reflexos um da outro. Isso torna os vilões não apenas figuras para o herói derrotar na força bruta, como também personificações dos defeitos do herói, forçando-o a ver o que ele poderá se tornar em sua jornada pessoal se escolher um caminho errado e leva-lo a crescer como uma pessoa.

No caso dos vilões do Aranha, cada vilão que ele enfrenta age como uma representação de defeitos e qualidades que o Peter possui como indivíduo e que ele precisa aprender a lidar se quiser se tornar um homem mais responsável.








Mas que defeitos são esses? Que aspectos do Homem Aranha seus vilões representam?

Bem, é disso que esse texto irá tratar....

Vamos por partes!

 

 

Luto (Harry Osborn, Alistair Smythe e Chacal)




Uma das motivações do Peter para combater o crime é a culpa que ele carrega pela morte de seu tio Ben, vítima de um criminoso que o jovem se recusou a capturar quando teve a chance. É a vergonha e o sentimento de perda que leva Peter a decidir ser um herói, honrando a memória do seu tio usando seus poderes para ajudar outros e não deixar a mesma falha se repetir.

Não tem nada de errado em sentir magoado ou movido pela perda de um ente querido. O problema se encontra quando um indivíduo deixa essa emoção influencia-lo a realizar ações prejudiciais a si próprio e a outros. Esse é o caso de alguns vilões do Aranha.

O mais famoso de todos, com certeza é o Harry Osborn, que teve um periodo, nas hqs e adaptações (como filmes do Raimi e Homem Aranha série animada), onde ele assumiu o manto do Duende Verde, para se vingar do Aranha por ter causado a morte de seu pai, Norman Osborn, sendo incapaz de reconhecer o monstro abusivo que seu pai era.



Já do lado dos vilões mais desconhecidos, temos figuras como Alistair Smythe, filho de Spencer Smythe, o criador dos Esmaga-Aranhas, cuja morte levou seu filho a seguir por um caminho ainda mais distorcido que o pai, não só passando a tentar destruir o Aranha com suas maquinas como também transformou a si próprio em ciborgue para enfrentar o herói.




Também tenho que citar Miles Warren, o Chacal. Embora o público conheça ele mais como o cientista louco que criou clones do Aranha (e, com isso, iniciou a infame Saga dos Clones). Mas a origem de seu ódio pelo Aranha se devia pelo fato do Warren culpar o Peter pela morte da Gwen Stacy, que era alvo de uma paixão perturbadora do vilão.



 

Desafios da idade (Abutre e Cabelo de Prata)





Na época em que foi criado, uma das características que tornava o Aranha distintos dos outros super heróis, era o fato que ele era um adolescente relacionável, que encarava não só super vilões, como também situações cotidianas desses estágio da vida, como atividades escolares, relacionamentos, bullying, etc...

Por causa de sua idade, era comum Peter ser subestimado por pessoas, julgando-o como um jovem ingênuo e não preparado para os desafios de um adulto.


Por isso, é apropriado que um dos primeiros inimigos que ele teve na carreira foi o Abutre, agia como seu completo oposto. Ao invés de jovem, Adrian Toomes é um inventor idoso revoltado com pessoas por o subestimarem, vendo-o como um sujeito incapaz só por ser velho. Seus crimes eram sua forma de desmentir essa visão e ao mesmo se vingar daqueles que o fizeram se sentir inferiorizado.




Essa mesma insegurança pode ser identificada em outro vilão, o Cabelo de Prata. Embora, a primeira vista, ele pareça apenas um mafioso, sua motivação envolve ele tentando preservar seus status no mundo do crime, que fica ameaçado com a ascensão de novos criminosos, como o Rei do Crime e o Lápide.

A princípio, sua resposta para esse desespero foi tentar restaurar sua juventude com uma formula da Tabuleta Antiga. Quando aquele plano falhou (com Cabelo de Prata tendo se rejuvenescido até se tornar um micróbio e, depois, voltar a ser velho), ele optou por transformar a si próprio em um cyborg, permitindo não só que ele conseguisse bater de frente com o Aranha e outros heróis, mas garantindo que ele conseguisse a “imortalidade” que tanto queria.



 

Crise de identidade ( Mysterio & Camaleão)




Como uma pessoa, Peter é um jovem que carrega muita culpa por suas ações e a forma como elas acabam afetando as pessoas próximas a ele. Se ele escolhe priorizar sua vida como Homem Aranha, ele é incapaz de atender outros como Peter e vice versa.

Combinado com as críticas que ele sofre constantemente do Jameson, é natural Peter considerar desistir de sua vida heroica, ou, em alguns casos, priorizar sua vida como Aranha para fugir dos problemas de sua pessoal.

Essas dúvidas sobre sua dualidade acabam sendo explorada contra Peter por vilões como o Camaleão (um mestre dos disfarces, que já roubou a identidade do Aranha em ocasiões) ou o Mysterio (um mestre das ilusões, capaz de fazer Peter questionar sua própria noção da realidade).



Mas, a ironia é que esses vilões citados tem suas próprias crises de identidade, com suas habilidades sendo uma forma deles fugirem da imagem negativa que eles tem de si próprios.

Os disfarces do Camaleão não são apenas instrumentos para seus crimes, mas resultado dos traumas que ele carrega devido aos abusos que sofreu na infância, nas mãos de seu irmão Kraven. Sua habilidade reflete o ódio que ele carrega por sua própria pessoa e tentativa de escapar na pele de outros.



Já Mysterio leva as coisas a um extremo maior, com sua identidade vilanesca e técnicas sendo uma forma de auto-empoderamento, dando a ele confiança, assim como ideia de controlar o mundo a se encaixar em sua imagem, ao invés de aceitar a realidade. Suas ilusões não servem apenas para enganar suas vítimas, mas também ele mesmo.

 


Necessidades financeiras (Homem Areia, Shocker)




Além de super vilões e relacionamentos, outra dificuldade que Peter Parker encara em sua vida envolve suas finanças. Ele sempre sofre com falta de dinheiro e necessidade de procurar um trabalho. Sua profissão mais conhecida pelos fãs é seu emprego como fotógrafo para o Clarim Diário, onde Peter vende fotos de seu alter-ego em ação.

Embora seja possível aponta alguns questões éticas sobre a atitude do Peter, pelo menos pode-se dizer que ele conseguiu seu dinheiro com trabalho honesto e não prejudica inocentes.

O mesmo não pode ser dito para vilões como Homem Areia e Shocker. Assim como Peter, eles adquiriam poderes em um acidente científico (Homem Areia) ou tinham um talento com invenções (Shocker). Mas ao invés de usar essas habilidades para conseguir dinheiro de forma lícita, eles escolheram uma vida de roubos e assaltos.



Esse paralelo fica mais forte na primeira aparição do Homem Areia, cujo clímax acontece na escola Midtown, onde o vilão invade a sala do Peter, por acidente, e exige um diploma do diretor. Quando este se recusa a dar isso para o ladrão, ele tenta ataca-lo, provando sua recusa de fazer trabalho duro para conseguir seus objetivos, preferindo forçar outros a cederem a sua vontade.



 

 

Corrupção com o poder (Lagarto e Escorpião)



Duas palavras que definem as histórias do Aranha é “poder & responsabilidade”. Cada aventura explora a vida complicada do herói e como, mesmo com seus poderes, os problemas que ele lida não são resolvidos facilmente, mas sim ficam mais complicados. Em muitos desses desafios, Peter tem que ser humilde, flexível e se adaptar a sua situação.

No outro do lado desse spectrum, temos personagens como Largato e Escorpião, que obtiveram poder para seus próprios fins, mas acabaram sendo “amaldiçoados”, tanto fisicamente quanto mentalmente, e impossibilitados de poderem voltar ao normal.

 







Raiva (Venom)





Outro vilão marcante do Aranha para muitos fãs é Venom. Podemos dizer que, visto suas habilidades idênticas ao Aranha (devido ao alien simbiote ter se conectado ao herói antes), o Eddie Brock é praticamente um reflexo distorcido do Peter, e o que ele poderia se tornar caso usasse seus poderes para o mal.



No entanto, o aspecto que ele representa do Peter é sua frustração com os problemas em sua vida. Tal como Peter , Brock teve sua vida virada de ponta cabeça, após ele ter publicado uma matéria acusando uma pessoa errada de ser o vilão Devorador de Pecados. Tendo sido desmentido pelo Aranha, Brock não só foi demitido, como teve sua reputação manchada, sua noiva rompeu com ele e seu pai o renegou. O fato dele ter adotado o nome Venom foi para representar esse estado sofrível que ele se sentia.



O ponto onde Peter consegue se separar de Brock é na forma como eles reagem esses problemas. Peter pode ficar frustrado, mas sabe assumir culpa pelos seus erros e seguir em frente. Brock, por outro lado, não possui tal atitude, devido a forma exigente como criado por seu pai, que o ensinou a nunca assumir responsabilidade por seus erros, o que resulta nele tendo um comportamento bem desiludido, culpando outros (nesse caso o Homem Aranha) por seus problemas e se fingindo de vítima. Isso não só torna Eddie um contraste ao senso de responsabilidade do Aranha, como a presa perfeita para o simbiote manipular.



 



Orgulho (Kraven & Doutor Octopus)




Um detalhe que muda em adaptações quanto a origem do Aranha é o motivo dele não ter pego o ladrão que viria a matar seu tio Ben. Em versões como os filmes do Sam Raimi, ele faz isso para se vingar do promotor de lutas, após esse ter se recusado a pagar o valor que devia. Porém, na versão original do Stan Lee e Steve Ditko, a atitude de Peter se deve a puro orgulho. Ele não impediu o ladrão porque para se sentir separado do problema de outros, ignorando eles da mesma forma que os colegas de sua escola o ignoravam.

Embora ele tenha aprendido a ter consideração pelos outros e virou um herói, o orgulho de Peter não desapareceu, tendo ocasiões onde, em sua frustração, ele expressa se sentir injustiçado por não ter as mesmas vantagens que outros heróis, achando como se merecesse mais que outros. Por sorte, esses momentos são breves e seguidos por Peter reassumindo sua compostura humilde e se adaptando as suas condições.

Já para vilões como Kraven e Doutor Octopus, suas ações são movidas por seus egos frágeis.

O caçador russo se julga o maior do mundo, mas, quando é derrotado pelo Aranha no primeiro conflito, ele passa a priorizar seu desejo de captura-lo a todo custo.  Não importa para o Kraven que existem outras presas no mundo, a fortuna de sua familia ou seus relacionamentos com figuras como sua amada Calipso. A captura e derrota do Aranha se torna sua obsessão na vida.

Até mesmo quando ele consegue capturar o Aranha, em sua grande história “A Última caçada de Kraven”, não foi o bastante para satisfazer. Não só Kraven assumiu a identidade do herói e tentou se provar um lutador melhor que ele, mas nem quer matou o Aranha, com Kraven escolhendo deixa-lo apenas para que Aranha soubesse que tinha sido superado. Isso demonstra como Kraven ficou tão afundado nessa obsessão, que no final ele não teve ninguém para exibir sua vitória, exceto seu grande inimigo.



Já Octopus possui um paralelo bem mais forte com Peter, visto como os dois são interessados por ciência e descobertas científicas. Pode-se dizer que Otto é quase um reflexo do tipo de pessoa que Peter poderia se tornar caso continuasse a evoluir nessa carreira. No entanto, apesar de ser um cientista talentoso, Otto Octavius é exigente ultra-focado em seu trabalho, não enxergando obstáculos para seus objetivos. Quando ele sofre o acidente que funde sua espinha aos seus tentáculos mecânicos, isso desperta essa personalidade inescrupulosa, com Octopus disposto a tudo, incluindo métodos criminosos e sem ética, para realizar suas experiências.



O que torna a situação ainda mais trágica é que algumas histórias demonstram que Otto tem o desejo de conseguir mudar o mundo com suas invenções e pesquisas e adquirir respeito da população. No entanto, tudo que cria ele converte em uma arma contra inocentes, buscando inferiorizar e controlar outros do que ajuda-los. Apesar de suas gabar de ser um gênio, o legado de Octopus é ser lembrado como o homem que não conseguiu resolver nenhum problema da humanidade.

 

 

Dualidade (Duende Verde)



Finalmente chegamos ao maior inimigo do Aranha em toda sua histórias dos quadrinhos: Norman Osborn, o Duende Verde.

Para alguns, ele e Peter são completos opostos em classes sociais: Enquanto Peter é um trabalhador com dificuldades financeiras, Norman é rico e um dono de uma grande empresa.

Porém, quando olhando mais de perto, nota-se que Peter e Norman são perfeitos reflexos um do outro: Os dois são homens com vidas duplas, que eles mantém em segredo de seus familiares (Peter tem a tia May e Norman tem o seu filho Harry).




No entanto suas dinâmicas com seus respectivos alter-egos são como dia e noite: Homem Aranha é a identidade que Peter usa para ajudar pessoas. Ele representa seu desejo de ser uma pessoa melhor e compensar pelos seus erros.



Já o Duende Verde não é apenas um disfarce, mas sim o monstro que Norman é por dentro. Ao colocar a máscara, ele não esconde quem é, mas sim expressa sua frustração e se vingança contra aqueles que, em sua perspectiva, o prejudicaram. Ironicamente, apesar de ser mais velho que Peter, Norman age de forma infantil como Duende, tentando resolver seus problemas de forma caótica, como uma criança tendo surtos de raiva.



Enquanto os problemas e desafios que o Peter encara em sua vida normal o ajudam a manter sua humildade, Norman não tem a mesma experiência porque ele opta por priorizar sua própria imagem do que estar presente na vida do seu filho Harry, distorcendo a responsabilidade como um pai em uma desculpa para justificar seus atos cruéis e egoístas.

Isso fica evidente quando se olha o surto de Norman antes da morte dele em “A noite que Gwen Stacy morreu!”, é um resultado nele vendo Harry doente por causa das drogas, como se ele estivesse sendo forçado a encarar o dano que sua negligência provocou em sua família, o que Norman, naturalmente, opta por culpar o Aranha e todos a sua volta por seus problemas. É essa qualidade que o torna o vilão perfeito para um herói que representa os ideais de responsabilidade e crescimento.

 


 

Então é isso! Qual a opinião de vocês quanto aos vilões do Homem Aranha? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões e ideias nos comentários abaixo.