Por que eu escrevo?
Porque a Evolução,
Distraída e inadvertidamente,
Dotou-me de polegar oponível,
Por que eu escrevo?
Porque os sumérios inventaram a escrita,
Porque os chineses inventaram o papel
(eu seria preguiçoso e inábil demais para entalhar em pedras ou em placas de barro),
Escrevo porque Marcel Bich,
Num Bic Bang de inspiração,
Criou a caneta Bic,
À imagem e complementariedade
Dos meus dedos,
Porque Branca Alves de Lima
Concebeu,
Em concepção imaculada,
A cartilha Caminho Suave.
Por que eu escrevo?
Porque tenho memória fraca.
Porque fotos são capazes
De me lembrarem de como eu era,
Mas não do que eu era,
De como pensava...
Por que eu escrevo?
Porque tenho
Um coração fidelíssimo,
Um cachorro cego de três pernas,
Um coração de votos eternos à sua Dulcinéia,
E uma alma
De paixões pétreas feito bolhas de sabão,
Feita de juramentos de um ateu
Ditos a um padre sem fé.
Escrevo
Para que cada poema
Seja lápide
Para cada amor
Sepultado sem velório no Campo Santo do coração.
Por que eu escrevo?
Porque um dia
Esse Universo, esse Deus
Sucumbirão...
Ao Big Crunch,
A uma onda de antimatéria,
Sei lá...
Mas sucumbirão.
Escrevo
Para deixar minhas anotações
Na posta restante de Deus,
Na caixa-preta do Universo.
Escrevo
Para que,
Quando novo Deus
E consequente pueril Universo
Surgirem
- que é a isso que se presta Deus, a construir novos universos -,
Meus registros
Sirvam-Lhe de bússola, sextante e astrolábio,
De manual de instruções
Para um mundo melhor :
Um mundo
Feito à minha imagem
E semelhança.













