Vingadores eternamente – Uma carta de amor aos Heróis Mais Poderosos da Terra

 



Quando se fala nas melhores histórias dos Vingadores, muitas das respostas costumam serem hqs publicadas do início dos anos 2000 até os dias atuais, como Supremos, Novos Vingadores do Bendis, Invasão Secreta e a fase do Jonathan Hickman.








Em relação a histórias anteriores a esse período, as únicas que parecem serem mencionadas pela maioria dos fãs é Guerra Kree-Skrull e eventos como Guerras Secretas e Desafio do Infinito (com esses dois últimos não sendo histórias dos Vingadores. Eles tem participação, mas não os personagens principais).





O fato é que, antes da virada do milênio os Vingadores não eram o centro de atenção da Marvel. Eles tinham sua revista desde os anos 60, mas maioria de suas aventuras eram contidas a eles, comparadas com os eventos que eles protagonizam atualmente.

Só que isso não quer dizer que eles não tiveram boas histórias antes de sua reinvenção pelas mãos do Brian Michael Bendis. Muito pelo contrário, eles tiveram vários arcos emocionantes, com algumas já tendo sido assunto de reviews aqui no blog. ( ex: Sob Ataque e a Vingança de Ultron).



Enquanto essas histórias conseguiam ser aventuras grande e épicas, seu foco era algo bem mais íntimo com seu roteiro buscando mas desenvolver os heróis em um nível bem pessoal. Elas eram tratadas como histórias dos Vingadores ao invés do universo Marvel em geral.



Como exemplo disso, esse texto será uma review história que, pra mim representa esse aspecto dos Vingadores pré-Bendis: “Vingadores Eternamente”. ela consiste em uma minissérie de 12 edições, escrita por Kurt Busiek, com as ilustrações de Carlos Pacheco e  publicada entre 1998 e 1999,

 


Vamos começar...

Trama

Houve um dia, diferente de qualquer outro, onde os heróis mais poderosos se viram unidos por uma causa em comum. Nesse dia eles se tornaram os Vingadores. Juntos eles protegeram a o mundo de várias ameaças de diferentes formas e origens, desde super vilões fantasiados a invasores alienígenas.



Dentre esses inimigos, um dos mais recorrentes era Kang, um ditador do futuro com uma ambição de derrotar os heróis e conquistar o século XX. Por ele ser um viajante do tempo, os Vingadores acabavam encarando não só Kang, como também versões alternativas do próprio, incluindo Immortus, o senhor do Limbo.



Outra ameaça que os Vingadores confrontaram foram os Kree e os Skrull, dois povos alienígenas que buscando controlar a Terra, vendo-a como um ponto estratégico para guerra entre eles. O plano dos dois mundos não veio a ter sucesso graças aos esforços dos Vingadores e de seu aliado Rick Jones, que, sob a orientação da Suprema Inteligência Kree, conseguiu acessar um poder que lhe permitiu invocar temporariamente heróis do passado.



Um tempo depois, Rick Jones acabou sendo gravemente ferido e sendo vítima de uma doença. Após fazerem uma análise, os vingadores descobrem evidências de que essa doença estava sendo causada pela energia cósmica que Rick manifestou durante a guerra Kree/Skrull.

Quando viajam a uma base na Zona Azul da Lua para falar com a capturada Suprema Inteligência Kree, os Vingadores e todos da base (exceto a Inteligência) são paralisados por Immortus, que envia seu lacaio, Tempus para eliminar Rick Jones. A vida do jovem é salva pela interferência de Kang, que enfrenta sua versão futura.



Em meio a confusão, Rick, com a ajuda da Inteligência Kree e o misterioso Libra, mais uma vez consegue acessar a força cósmica para convocar Vingadores de diferentes pontos do tempo, para ajudá-lo: O Capitão América do final de Império Secreto, o Gigante e a Vespa do presente, o Jaqueta Amarela (Hank Pym), Gavião Arqueiro do final da  Guerra Kree-Skrull, Soprano após sua redenção, e Genis Vell.




Escapando na nave-esfinge do Conquistador, Vingadores deslocados viajam pela linha do tempo, tentando descobrir o motivo de Immortus querer eliminar Rick Jones. Mas, conforme sua investigação vai se aprofundando, eles vão descobrindo que as ações do senhor do Limbo foram parte de um esquema para impedir a ascensão de uma ameaça pior em um futuro distante.

Homenagem e desconstrução aos Heróis mais poderosos da Terra



Eu já falei do Kurt Busiek em textos passados e como o considero o melhor autor dos Vingadores. Cada vez que se lê um arco, dá pra perceber como o Busiek sabe equilibrar uma trama grande em escala com drama bem íntimo entre seus personagens.

Em “Vingadores Eternamente” esse talento é testado ao máximo, visto como a história recorre ao recurso da viagem do tempo, algo que muitos autores de hqs tem dificuldade de manter consistência (afinal, difícil manter consistência em uma continuidade que é feita por várias pessoas com visões diferentes).

Felizmente, o roteiro de Busiek, embora faça retcons para referenciar histórias passadas dos Vingadores com Kang e Immortus, ele nunca exagera a ponto de se tornar confuso para os leitores de longa data.

Admito que tem vezes que o quadrinho parece dar uma pausa para explicar um evento ou referência as histórias antigas. Mas a forma como Busiek executa é bem eficiente, fazendo “Vingadores Eternamente” parece um tributo as aventuras que os protagonista tiveram durante as décadas.



Mas, esse monte de referências são apenas detalhes da superfície, pois seu conteúdo, aos poucos, se revela ser uma desconstrução da imagem dos Vingadores (e de super heróis em general).

Isso vem à tona quando os Vingadores descobrem que as ações de Immortus não são má intencionadas.  Ele, na verdade, é um agente dos Guardiões do tempo, seres que manipulam e monitoram a linha do tempo. Por terem testemunhado futuros onde humanidade se torna um império cósmico, com os Vingadores sendo a face de seus guerreiros, os Guardiões do Tempo encarregaram Immortus de manter a humanidade estagnada e incapaz de se tornar essa ameaça. Seus atentados contra Rick Jones se deviam ao fato do garoto ser o primeiro a despertar a Força Destino, um poder adormecido dentro de toda humanidade.

Em teoria, essa revelação pode parecer clichê da história ficar criticando humanidade por suas falhas e como ela está destinada a criar um futuro apocalíptico. Mas, em execução, Busiek cria uma discussão bem profunda sobre o potencial dos humanos em evoluírem em algo maior, em parte por causa da influência de super-humanos como os Vingadores.


Uma das principais características de heróis é serem figuras com as quais outras pessoas se inspiram e tentam seguir seu exemplo, a serem melhores. Eles representam a ideia de que alguém pode ser mais do que aparenta e realizar feitos além da capacidade conhecida por um indivíduo comum.

Sob um ponto de vista, o que os humanidade conseguiu foi uma grande conquista, expandindo seus horizontes para o espaço. Se isso é errado e a veneração deles pelos heróis leva a corrupção, qual o ponto da luta deles lutarem por um futuro melhor? O objetivo deles é mudar o status quo ou permanecer no mesmo ponto?

Esse dilema é representado pela rivalidade de Immortus com Kang, que, ao contrário de sua versão mais velha, valoriza a ideia de se tornar forte através do desafio e conquista, do que passar uma vida entediante e sem objetivos. Ele personifica o tipo de conquistador que os humanos podem vir a se tornar.





Vingadores vs o futuro incerto



No meio desse embate entre um vilão que defende conquista através de evolução e outro que busca evitar o futuro predeterminado, temos o grupo de Vingadores, cujo arco casa com essa temática sobre “destino vs livre arbítrio”.

Teria sido bem simples, e também lógico, para Busiek apenas ter os Vingadores que ele tem escrito na época estarem envolvidos nessa história, tentando proteger o Rick, enquanto refletem sobre a possibilidade deles inspirarem a humanidade a se tornarem esses colonizadores no futuro. No entanto, o roteirista escolheu uma decisão bem mais ousada, com a maioria do grupo (exceto pelo Hank e a Janet) sendo versões especificas dos personagens, que e agora foram arrastados para essa nova aventura já estavam passando por seus dramas emocionais.

Por um lado, isso poderia torna a história bem previsível e, até repetitiva, para os fãs que conhecem o arco dos personagens. Porém a história subverte essa expectativa, levando alguns personagens em direções opostas de seus arcos, tornando seu crescimento ainda mais imprevisível.

O grande exemplo disso sendo o Capitão América, que já estava inseguro depois de seu conflito com o Império Secreto. Ao invés de ir em aventura que o ajudou a recuperar confiança como antes, ele é colocado em situações que reforçam ainda mais essa visão pessimista quanto ao mundo, de que heroísmo é uma batalha perdida e ele está destinado ao fracasso. 



O fato que Steve consegue recuperar sua confiança nesse cenário demonstra como sua força vontade não se encontra nas circunstâncias a sua volta, e sim é parte de quem ele é.





Outro personagem a ter um grande desenvolvimento foi o Jaqueta Amarela (Hank Pym), que é forçado a encarar a descoberta de que ele é Hank Pym e que seu casamento com a Janet terá um fim trágico. Isso o deixa vulnerável as manipulações de Immortus, provocando que, assim como vilão, até mesmo heróis podem sucumbir ao medo do futuro não atender suas expectativas.



Infelizmente, os outros Vingadores não recebem esse desenvolvimento tão grande comparado com Steve e o Jaqueta. Hank e Janet estão na história mais para dar aos leitores integrante da formação atual, o Gavião Arqueiro tem uma história bem previsível dele mostrando ser eficaz mesmo sem suas flechas especiais e Soprano e Genis não tem seu arco revelado até mais na tarde na história. 



No entanto, Busiek consegue encontrar espaço para dar a cada um deles momentos de destaque, especialmente a Janet, que assume o papel de líder da equipe (demonstrando seu crescimento da histórias dos anos 60).



Apesar da história construir para um clímax épico, dos Vingadores se unindo a versões deles, de diferentes épocas e enfrentando os Guardiões do tempo, ela nunca deixa os leitores esquecerem do protagonismo dos vingadores deslocados principais. Sua jornada é o coração da minissérie.

Considerações finais

Se julgado pela capa, Vingadores Eternamente pode parecer uma história que explora fan-service e referências as hqs do time. Mas, ao lê-la, ela se revelar ser o completo oposto. Claro que, como muitas histórias do Kurt Busiek, tem  resgate de elementos de histórias passadas, mas eles são apenas enfeites de uma trama mais profunda que captura, de forma criativa a essência dos Vingadores e suas aventuras: Uma história sobre um grupo de indivíduos que , trabalhando juntos, conseguem não apenas salvar o mundo (ou universo) como, o mais importante, evoluir como pessoas.

Vingadores Eternamente pode parecer uma trama grande e um pouco cansativa para alguns. Mas, tal como os heróis mais poderosos da Terra, se conseguirem lê-la até o final, ela pode se revelar ser algo bem mais emocionante do que aparenta. Mas isso é apenas minha opinião.

Nota: 08/10



Então é isso! Concordam comigo? Discordam? Qual a opinião de vocês sobre Vingadores Eternamente? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões nos comentários abaixo.