A vingança de Ultron - o que torna o arqui-inimigo dos Vingadores tão humano?

 


De todos os vilões que os Vingadores, o que mais causou grandes impactos para suas vidas em seus anos de histórias em quadrinhos, foi o Ultron.



Criado por Roy Thomas e artista John Buscema em Avengers vol.1 nº54, Ultron foi introduzido como um robô misterioso, com um forte desejo pela destruição dos Vingadores. 




Os motivos por trás desse ódio pelos heróis só viria a ser revelado 4 edições depois, quando os Heróis Mais Poderosos da Terra descobriram que o androide era uma criação defeituosa de seu integrante-fundador Hank Pym.



Desde então Ultron tem sido uma das ameaças mais persistentes da equipe de heróis da Marvel, com seus esquemas colocando em risco não só a vida dos Vingadores e de toda vida na Terra, como também  de seu criador Hank Pym, que Ultron expressa um grande ódio (um claro complexo de édipo).

Por isso que muitas histórias em que os Vingadores enfrentam Ultron acabam sendo grande escala, mas também com tópicos bem pessoais. Dessas histórias, a que considero ser a que melhor aprofunda o Ultron como um antagonista é a “Vingança de Ultron”, um grande arco de Kurt Busiek e o saudoso artista George Perez, publicado em Avengers vol.3 nº0 e 19 a 22 em 1999, que mostra uma das melhores batalhas dos Vingadores contra esse pesadelo mecânico.



Esse texto será uma review desse arco, onde falarei o o que torna essa história tão marcante, assim como sua importância para entenderem o personagem que é Ultron.

Trama

Enquanto os Vingadores atendiam uma conferência com a empresa, eles são interrompidos pela chega abrupta de Janet Van Dyne, que informa os Vingadores que seu ex-marido, Hank Pym desapareceu.

Ao mesmo tempo, os heróis recebem um alerta de que o Pantera Negra está lidando com um ataque a uma instalação de Wakanda, onde está abrigado uma quantidade de Adamantium. Sem um pingo de dúvida, os heróis deduzem esses acontecimentos tem a mesma causa: Ultron voltou!



Como previram, o vilão robótico faz seu retorno, invadindo Slorenia e, em três horas, chacinou seus habitantes e os transformou em robôs zumbis, anunciando sua intenção de fazer o mesmo com o resto da humanidade.



Os vingadores viajam para Slorenia para impedir que Ultron expanda seus domínios. No entanto, sem que eles saibam, o vilão também tem sequestrado indivíduos conectados ao seu passado (Visão, Feiticeira Escarlate, Simon Williams, o vilão Ceifador e a Janet Van Dyne) e os reúne para uma “reunião de família”. É aí que o Kurt Busiek revela o significado por trás dessa saga...

 



O que torna alguém “humano”?

Uma questão explorada na história da humanidade é o que é ser humano? Como se define algo ou alguém como “humano”? Será que se deve ao fato do indivíduo ser feito de carne e ossos?  É sua habilidade de sentir sentimentos? É a capacidade de raciocínio e solucionar problemas complexos? Quando mais se pensa no assunto mais a resposta vai se tornando extensa e multidimensional.



As histórias dos Vingadores com o Ultron costumam explorar esse dilema através do antagonista, Tal como em muitas de suas aparições anteriores, Ultron é apresentado como um robô supremacista, buscando eliminar humanos, que ele julga serem imperfeitos e inferiores as maquinas.

Mas as cenas de Ultron com Hank e os outros associados, onde ele revela seu plano de roubar seus padrões mentais e criar cópias robóticas, formando assim uma “familia”, expõe que, no fundo, ele tem desejo por companhia e fazer parte de uma comunidade, algo que não poderia ser possível para alguém que se diz ser movido por lógica fria e não emoções.



Esse comportamento do Ultron não é novidade nenhuma, visto que ele foi o criador de personagens como o Visão, Alkhema e Jocasta. Todos foram criados para ser aliados ou, no caso das duas últimas, noivas do vilão, mas acabaram se voltando contra o próprio.






O que a história de Busiek faz é trazer essa contradição do Ultron em destaque, com ele sendo confrontado por seu “filho”, o Visão, que aponta que o ódio do vilão pela humanidade não se deve as diferenças que ele tem com ela, mas sim o que eles tem de semelhante.

Nas palavras do vingador sintozoide, ele e Ultron podem ser “homens artificiais”, mas não são privados de emoções. Eles se sentem sozinhos no mundo, confusos por não saberem o propósito, tristeza por momentos que quebram seu coração, inveja ao verem outros tendo experiências que eles desejariam ter (no contexto, o Visão se refere ao término de seu casamento com Wanda, que agora namora Magnum) e, acima de tudo, frustração por serem incapazes de ignorar essas sensações.



Assim como pessoas lidam com várias emoções misturadas e variáveis, Ultron, no fundo também trava suas batalhas internas, e a noção desse falto que alimenta sua maldade. Seu desejo de substituir humanidade por maquinas não tem a ver com lógica e raciocínio (algo que adaptações retratam), mas sim de sua arrogância e recusa em aceitar que na vida existem coisas que não facilmente controladas, incluindo experiências emocionais deixadas por elas.

 

O pecado do pai

Costuma-se dizer que o melhor antagonista é o completo oposto do herói.

Essa frase se aplica perfeitamente ao Ultron em relação aos Vingadores. Enquanto ele é um vilão que escolhe negar as qualidades que o tornam similar aos humanos que odeia, os Vingadores, apesar de serem celebridades, são heróis com seus próprios problemas pessoais e dilemas.

Isso é algo que Busiek explora muito em sua fase, com os dois membros novos, Justiça e Flama, agindo com oos olhos do público. Ele são um casal de jovens, com uma clara visão idealística quanto aos Vingadores, lidando com pressão de fazerem parte dessa equipe famosa. Mas, conforme eles vão observando os dramas dos membros se revelarem, eles começam entender que os Vingadores são tão humanos quanto as pessoas que eles protegerem, tendo seus dilemas, ansiedades e arrependimentos.



Nesse arco, esse contraste é encapsulado pelo herói mais associado ao Ultron, seu criador Hank Pym.

Apesar de ser um membro-fundador dos Vingadores, Hank foi o integrante que sofreu uma das maiores quedas na vida, tendo tido surtos emocionais, criado uma identidade agressiva do Jaqueta Amarela, agredido sua esposa (resultando em divórcio e ele sendo expulso dos Vingadores), ter sido incriminado por um crime que não cometeu.

Embora ele tenha tentado se redimir, Hank sempre carregou dúvidas sobre sua moralidade, questionando se ele era uma pessoa boa.



Em “A vingança de Ultron” é revelado que esse trauma que Hank se deve ao fato de Ultron ter sido criado com base em seus padrões mentais. Hank não apenas se culpa pela criação de Ultron, ele acredita que a maldade do robô tenha vindo dele.



Felizmente para o Hank, diferente de seu “filho”, ele tem uma ex-esposa e amigos que lhe mostram compaixão e suporte, motivando-o a acreditar em si próprio.

Esse é o aspecto que separa Ultron dos Vingadores, a habilidade de escolher, de decidir como reagir diante crises emocionais e definir nossas identidades com base nessas escolhas.

 


A combinação perfeita do roteiro e arte

Outro fator que contribui para o sucesso da “Vingança de Ultron” é o trabalho da dupla do Kurt Busiek e George Perez.

Esse último dispensa comentários quando se trata de arte icônica. Tal como em muitos outros trabalhos, Perez consegue criar cenas grandiosas e detalhadas, mas dando aos personagens suas próprias expressões.



No entanto, seu trabalho fica ainda mais impressionante com a direção de Busiek, que é um dos maiores conhecedores dos quadrinhos, tanto da DC quanto da Marvel. Por isso a história dedica uma ou duas páginas para backstories de personagens e conceitos (com Perez recriando o visual das hqs da época), além dos quadrinhos terem alguns ester-eggs e referências inesperadas. Isso tornar o arco uma carta de amor para os fãs veteranos, mas também uma boa leitura para os novatos, que estão sendo introduzidos a mitologia dos Vingadores sem precisarem ler milhares de hqs anteriores.



 

Considerações finais

Enquanto aprecio Brian Michael Bendis e Jonathan Hickman pela forma como tentaram reinventar os Vingadores e criar novas abordagens e histórias para os personagens, “A vingança de Ultron” é a história que demonstra como Kurt Busiek e George Perez conseguiriam fazer um melhor dos dois mundos: Eles pegavam elementos da mitologia dos Vingadores e os trabalhos dos autores que vieram antes e, através disso criavam algo novo que levava esses conceitos a frente.

De todas as histórias dos Vingadores contra Ultron, “A vingança de Ultron” passa a sensação de um verdadeiro tributo a essas aventuras, com várias referências e uma trama que representa a essência desses confrontos e o que torna eles e os personagens envolvidos tão cativantes para o público.

Eu recomendaria toda fase do Kurt Busiek e George Perez dos Vingadores (é uma das melhores já feitas). Mas, se tivesse que recomendar apenas uma história específica, com certeza seria “A Vingança de Ultron”.

10/10


Então é isso! Concordam comigo? Discordam? Qual a opinião de vocês sobre A vingança de Ultron? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões nos comentários abaixo.