TV GLOBINHO: O passado é uma roupa que já não serve mais

 


Belchior está mais do que certo na maioria das vezes.

Lá em 76 o rapaz latino americano lançou aquele que eu considero o seu melhor álbum, escolher apenas uma música dessa masterpiece é uma tarefa ingrata, mas, cá estamos:



Quando eu vi a notícia de que a TV Globinho ia “voltar”, já tinha me armado em fazer esse texto, mesmo descobrindo agora pouco que vai ser um tipo de “edição especial e única”, em parte pra trazer uma audiência nostálgica, ou quem sabe para ver se o programa volta a vingar? Nunca saberemos.

A questão é que a nostalgia é um tema que eu me vejo particularmente apegado, e nunca é algo exato. Sim, nada mais estamos fazendo do que um recorte fantasioso de um passado de conto de fadas, mas quando eu olho ao redor, principalmente a quase tudo o que é hypado no entretenimento atual, tudo o que eu vejo são pessoas achando que aquela continuação ou retorno trará algo precioso de uma capsula do tempo, ou mesmo que vai sentir o mesmo que sentiu na época, mas com uma dose concentrada dessa vez.



Eu mesmo iria estar mentindo se eu dissesse que quase tudo o que eu leio, jogo e assisto nada mais são do que coisas que eu já consumi antes e me trarão algum conforto.

As pessoas vão no cinema em dezembro esperando que vão sentir o mesmo que sentiram com Guerra Infinita com esse filme do Doutor Destino (maldição, em partes eu tô nessa).

GTA VI, se você tirar toda a discursão teórica sobre melhorias de mecânicas e gráficos para serem copiadas por toda a indústria, sobra uma gigantesca massa de pessoas que acha que esse game vai dar a elas o mesmo ou mais do que elas sentiram quando jogaram GTA V no lançamento em 2013 ou Red Dead Redemption II em 2018, jogos que a propósito, continuam atuais.

O 30+ que for se dar ao trabalho de ver essa edição da TV Globinho, seja sozinho ou com crianças da casa, de alguma forma acha que vai conseguir recriar todo aquele cenário de “almoçar vendo Dragon Ball”. Aliás, esse lance de “almoçar vendo os shows preferidos” é algo que perdura na gente até hoje, só que isso migrou para o Youtube, só ver o quanto de canais que postam todo dia nessa hora do almoço e há sempre comentários como “agora eu posso almoçar”.



Não foi só a “Lei”

Sempre se martelou que uma Lei acabou com a TV Globinho no Brasil, mas isso é uma meia-verdade. Sim, eu fui uma das pessoas que ficou frustrada com essa troca de desenhos de manhã para um programa cujos pontos altos era palestrinha da Kéfera ou explicações sociológicas sobre o que era “gordofobia”, e eu acatei essa “explicação”, mas hoje pela primeira vez eu fui cruzar os dados e...

O Programa da bunda quadrada veio em 2012.

A Lei, nem mesmo foi uma Lei, não no sentido legislativo, foi uma resolução que saiu em 2014 e que você pode ler AQUI. Com a mesma sanha de controle de sempre, num belo dia o papai Estado disse que os pais não tem moral para dizer o que vão comprar pros filhos no que se referiam a brinquedos, logo, aquelas propagandas iradas de carrinhos da Hot Wheels e do Max Steel viraram uma ameaça a sociedade e foi extirpado do dia pra noite.

Provavelmente a emissora se adiantou no processo, e deve ter pesado que a aquela altura já haviam muitos mais lares com internet, TV à cabo, aparelhos de DVDs e o começo do boom do streaming. Ter todo aquele bloco com desenhos enquanto quase todas as emissoras ganhavam audiência com esses programas focados nas donas de casa parecia mais lucrativo e mais propenso a discutir as pautas que eles queriam discutir.

A TV Globinho ainda durou um tempo aos sábados, mas depois, guilhotina. Afinal, numa manhã de sábado a criança ia tá dormindo, na praia, com os pais no supermercado, em casa na frente da TV de manhã, dificilmente. Fora que “as crianças” em sua maioria já eram jovens adultos naquele tempo.



A pedra jogada não volta

Vez ou outra eu me pego discutindo com alguém sobre como nós dávamos valor mais as coisas por tudo ser menos acessível. Ter que esperar um dia inteiro para ver outro episódio, correr pra assistir algo em determinada hora ou esperar ser reprisado. Tudo isso parece fazer tanto sentido hoje em dia quanto você deixar de escutar suas músicas via streaming para voltar a ouvir um rádio esperando que elas toquem, ou indo mais longe, esperar o novo filme do Homem-Aranha passar na Tela Quente.

Nada impede que você faça isso, mas você entendeu o ponto.

Tirando a canalhice ocasional de streamings tirarem produtos que deveriam estar no seu estoque (tipo desenhos antigos do Pernalonga no streaming da Max, ou mesmo ter por obrigação todos os filmes que o Kubrick fez pela Warner Bros), quase tudo o que existe na TV aberta perdeu sentido para o público adulto atual, quem dirá para uma criança hoje em dia com um tablet com Youtube na mão.



Isso não impede que a gente revisite as coisas por conta própria (se é que ainda exista paciência para isso)

Vez ou outra eu me pego assistindo algum desenho que eu vi naquela época, semana passada eu tava colocando pra ver com o meu filho o primeiro episódio do desenho do Jackie Chan para ver se ele passava no teste do tempo, e ele passou com louvor (principalmente na parte que o Jackie tenta defender o escudo dos ninjas). Infelizmente não está em nenhum streaming e nem acho que vá estar um dia, daí a importância da preservação, compartilhamento e mídia física.

Sempre acabo adiando escrever um top sobre os melhores desenhos que passavam na TV Globinho ou coisa que o valha. Vocês vão assistir esse especial? Indiferentes? Nem sabiam que isso existia? Deixem nos comentários.