
Muita gente não sabe disso, mas
eu acompanhei este blog durante quase dois anos antes de escrever uma única
linha nele... E, sendo completamente honesta, existe uma ironia nisso que hoje
me faz rir um pouco. Durante todo esse tempo eu fui exatamente o tipo de
leitora que costumo criticar em mim mesma: entrava, lia, fechava a aba e ia
embora sem deixar um comentário sequer. Lembro de terminar textos inteiros do
Rocket ou do Deustino com respostas prontas na cabeça e, ainda assim, decidir
não escrever nada, até que eles sumiram e nunca mais postaram.
Não porque “eu não comentei”, ou algo do tipo, o ponto não é esse. O ponto é que, na vida real ou virtual, quase tudo o que a gente deixa pra dizer depois pra alguém, nem que seja uma resposta num texto, sempre que fica pra depois há uma grande chance de não existir esse “depois”. As pessoas somem, morrem, perdem contato.
Eu achava mais fácil permanecer
invisível, e tinha certa preguiça em ter que criar um (mais um) login pra dizer
algo. Assim eu consumia a conversa sem precisar participar dela, e era
confortável. Só depois que comecei a publicar percebi o quanto isso é uma via
de mão única. Durante anos eu me beneficiei de um espaço que outras pessoas
ajudavam a manter vivo sem nunca acrescentar nada a ele.
Lembro de uma conversa antiga por
e-mail com o Ozy, antes mesmo de eu entrar para a equipe. Em algum momento ele
descreveu o blog como uma espécie de Esquadrão Suicida dos quadrinhos. Não pela
parte das explosões ou dos criminosos sociopatas, felizmente, mas porque sempre
existia alguém entrando enquanto outra pessoa desaparecia misteriosamente. Era
um grupo em permanente mutação. Eu achava engraçado porque, como leitora, eu já
tinha desenvolvido meus próprios favoritos, os quais quando finalmente entrei
para o blog, descobri que muitos deles tinham praticamente evaporado. E isso
aconteceu várias vezes depois. Pessoas que pareciam pilares permanentes
simplesmente sumiam. Outras apareciam do nada e passavam a fazer parte da
paisagem. Ano passado, por exemplo, eu descobri a existência do Douglas Joker
justamente porque ele resolveu aparecer num comentário de um texto meu. Eu
conhecia o nome, mas não tinha dimensão do tamanho da presença que ele teve
aqui antes do meu tempo.
Talvez por isso eu tenha ficado
tão surpresa com a recepção do meu primeiro texto. Eu já conhecia alguns nomes
de algumas pessoas que eu sempre via comentando, o que eu não sabia era que
existia uma diferença enorme entre ler os comentários e fazer parte deles.
Quando publiquei pela primeira vez, imaginei que o texto seguiria o destino da
maioria das coisas que escrevemos na internet... Em vez disso, aconteceu algo
que continua acontecendo até hoje. As pessoas responderam ao texto, mas também
responderam umas às outras. O assunto começou a caminhar sozinho. Em
determinado momento eu já não estava apenas acompanhando uma reação ao que escrevi.
Eu estava assistindo uma nova conversa acontecer.
E acho que foi justamente aí que
comecei a entender o que mantém um blog vivo. Não são apenas os textos. Se
fossem, bastaria publicar artigos num PDF pronto. O problema é que textos
envelhecem rápido. O que continua respirando são as conversas. Eu já passei
mais tempo respondendo um comentário do Rafael do que escrevendo o artigo que
originou aquele comentário. Já aconteceu de um texto meu terminar numa direção
e os comentários me convencerem de que o assunto realmente importante estava em
outro lugar. Já vi o Alan transformar uma observação aparentemente simples numa
discussão sobre família, memória e amadurecimento. Já vi o Chico aparecer para
falar de quadrinhos e terminar refletindo sobre amizade, criação artística e os
motivos que o fizeram se afastar dos comentários durante anos. Em alguns casos,
olhando em retrospecto, os comentários não foram uma continuação do texto. Eles
foram a melhor versão dele.
E talvez seja por isso que
continuo aparecendo por aqui. Não tenho pretensões de trazer obra-prima ou sequer
acho que tenho algo indispensável a dizer. Na verdade, alguns dos textos que
publiquei me deixaram frustrada depois. Houve ocasiões em que senti que fui
cautelosa demais, outras em que percebi que estava tentando organizar uma ideia
que ainda não entendia completamente. O curioso é que várias dessas falhas
ficaram mais claras graças aos leitores. Não através de ataques ou correções, mas
através de conversas. Às vezes alguém conta uma história pessoal e ilumina
um ponto cego que você não tinha percebido. Às vezes uma discordância bem
construída faz mais pelo seu raciocínio do que vinte concordâncias. E, quando
isso acontece repetidamente durante meses ou anos, você começa a perceber que
está participando de algo um pouco diferente de uma simples seção de
comentários.
Talvez seja por isso que tantas
pessoas desaparecem por um tempo e acabam voltando. Talvez seja por isso que
alguém passa anos sem comentar e de repente resolve escrever um texto enorme às
três da manhã. Talvez seja por isso que leitores e redatores antigos continuam
sendo lembrados mesmo depois de sumirem e sequer sabemos se eles ainda acessam
esse espaço. No fim das contas, os textos são apenas a desculpa que usamos para
nos encontrar. O que permanece são as histórias que vão sendo acumuladas
embaixo deles.
E agora fiquei curiosa. Como
vocês chegaram aqui? Vieram por causa de um texto específico? De um autor? De
um amigo que mandou um link? Existe algum colaborador antigo ou comentarista
que vocês ainda sentem falta de ler? Algum nome que desapareceu e que, de vez
em quando, vocês se pegam pensando "será que essa pessoa ainda aparece por
aí?". Porque uma das coisas mais estranhas da internet é que passamos anos
acompanhando gente que nunca vimos pessoalmente e, ainda assim, sentimos a
ausência quando elas somem. Ou talvez você seja exatamente o tipo de leitor que
eu fui durante tanto tempo: entra, lê, acompanha as conversas, reconhece os
nomes, tem opiniões sobre metade dos assuntos, mas raramente comenta. Talvez
esteja lendo isso agora, concordando ou discordando de alguma coisa, abrindo um
leve sorriso e já se preparando para fechar a aba sem escrever uma única linha.
E, sinceramente? Eu entenderia perfeitamente. Afinal, durante anos, eu fui
exatamente essa pessoa.

