O buraco na cabeça

 


    São aproximadamente 21:45 de uma quinta-feira qualquer em março e você dirigiu duas horas e meia até um dos pontos mais turísticos e paradisíacos do país. Você está de férias e vai se hospedar com a família por cerca de 12 dias, comprou mantimentos, planejou os dias, fez o que tinha de fazer e agora segue em um estado de plena felicidade. Você chegou pela tarde, arrumou tudo, relaxou na piscina, jantou e se prepara para dormir a primeira noite no paraíso. Nada pode atrapalhar esse sentimento, não é?

    São exatamente 21:43, corrigindo o horário lá de cima. Seu telefone toca. É um conhecido, irmão de um grande amigo. Você rejeita a ligação. Por três vezes. Não quer saber de problemas, não quer saber de trabalho, não liga se algo sem importância está acontecendo naquela vida que você tinha antes; o que importa de fato são seus 12 dias de merecido descanso. Você manda uma mensagem:

— Fala cara, não consigo atender agora, aconteceu alguma coisa?
— Sim, o Fabiano se matou, deu um tiro na cabeça, venha pra cá AGORA!

    São Miguel dos Milagres é um roteiro nacional conhecidíssimo. Eu fui em algumas oportunidades há anos, mas sempre achei superestimado. As praias tinham muito mais cores e vida nas fotos da internet do que pessoalmente, tudo parecia mais "instagramável" do que real. Mas hoje vejo que talvez o problema estivesse em mim, em você, em todos nós, quando quase sempre confundimos o mundo real com o virtual (quem saberá a diferença?). De qualquer maneira, percebi muito tarde que uma praia em especial daquele município é o mais próximo que eu já vi do paraíso. O pôr do sol lá não tem apenas uma cor, são diversas cores, as nuvens se entrelaçam com a luz do sol e o reflexo do mar e parecem dançar uma bela valsa. Um desenho pintado à mão, uma paleta de cores magníficas, é algo que não consigo descrever com exatidão. Nem as palavras, nem fotos, nem vídeos, nem as redes sociais conseguem transmitir o que acontece ali. Você tem de estar presente, seus olhos têm de captar aquelas informações, seu cérebro deve processar tudo aquilo para que entenda a complexidade da natureza, do universo e, por que não dizer... também de Deus.





    Tirei meia dúzia de fotos daquele fenômeno, mas nenhuma captou sequer 5% do que eu via com meus olhos. Larguei o celular e resolvi me manter presente, tudo aquilo tinha de ficar registrado apenas na memória, nada de mídias. Apesar do meu vício em redes sociais e vídeos curtos, nos grandes momentos que a vida me proporciona, prefiro abrir mão dos registros físicos e contar com minha memória, com as sensações, com todo aquele sentimento avassalador. Acho que foi um dos momentos em que mais me senti vivo e presente, aquele pôr do sol na praia do Patacho. E isso entrou em contraste absurdo com o que tinha acontecido dias antes... Alguém morreu, e parte de mim também morreu ali naquele momento.

    09 de março de 2023, 21:44 da noite. Saí do quarto com o coração palpitando para fazer uma ligação e saber o que havia acontecido. "Fabiano" não era apenas um amigo, assumiu o papel de um pai, me "adotou" e me protegeu de tantas e tantas coisas durante anos. Era um homem duro, mas carinhoso com os seus, capaz de trazer tranquilidade da mesma maneira que poderia trazer destruição; matava e morria por sua família. Com ele ao meu lado, me sentia uma criança novamente, um filho menos rebelde do que o Atreus, que admira verdadeiramente o Kratos, e disposto a apontar alguma violência ou injustiça sofrida: — Ali papai, Odin quer me matar. E em seguida teríamos caos e destruição sem precedentes. Com certeza era um mal-entendido, ele jamais faria isso, ele não abandonaria nem a mim nem a todos seus outros protegidos. Não dessa maneira...

— Cara, o que porra é isso que você falou?
— Isso que você ouviu, venha pra cá AGORA, preciso de você aqui, Fabiano deu um tiro na cabeça na cama, ele está morto, a polícia já está aqui.
 — São 22h, eu não estou na cidade, não consigo sair aqui agora desse jeito.
— Tudo bem, tenho que ir.

    21:47? 21:48? Não sei, o tempo parou naquele momento, não sabia o que fazer, não sabia como reagir, aquilo não poderia estar acontecendo. Afinal de contas, Fabiano era o homem mais forte e resiliente que eu já havia conhecido, ele nunca deu sinais, ele enfrentou doenças, perseguições, tentativas de assassinato, prisões, acidentes, enfrentou tudo sorrindo e fazendo piada. Ele nunca faria isso...

    Não sei quanto tempo passei remoendo a informação, enquanto isso senti literalmente meu cérebro sendo inundado por algo cinzento, denso, atrofiando dentro da minha cabeça. Peguei um copo e servi whisky. Dose dupla, cowboy, exatamente como Fabiano gostava de tomar. Fiquei alguns segundos olhando para aquele copo, mas não bebi. Não, eu tinha que sentir. Anestesiar essa dor naquele momento tão agudo não parecia certo, nunca pareceu. Minha arma estava em cima do armário, olhei fixamente para ela. E se...? Não, não. Afugentei esse pensamento de imediato, eu sabia que uma parte dos suicídios não estava ligada à depressão, e sim a um momento de impulso autodestrutivo súbito.





    O whisky foi parar no ralo da pia. Era uma dose dupla de Jameson, um saboroso e tradicional whisky irlandês. Aos 16 ou 17 anos li em poucos dias uma das minhas obras favoritas das HQs, Preacher. Para mim, Garth Ennis com suas obras questionadoras e existenciais é o melhor roteirista dos quadrinhos; toda aquela violência, os dilemas de vida e o desprezo pelos super-heróis fizeram esse cara ser fascinante. Em Preacher, o Cassidy se recusa a beber qualquer whisky que não seja irlandês, principalmente se for algum escocês. O desprezo geográfico por essa bebida me intrigou e, impulsionado pela obra de Ennis, acabei adquirindo esse hábito, mesmo que raro, de estar acompanhado de um Jameson. Nunca soube a porra da diferença dele para qualquer outro whisky existente na face da terra, não sou degustador, para mim todos tinham o mesmo gosto, forte, amargo, ardido. Mas logo após vinha uma sensação boa de calmaria e aí tudo parecia suportável, a existência não era mais dor. Imagina ser um vampiro com séculos de vida e não poder amenizar essa dor como deveria, já que seu metabolismo acelerado processa rápido demais o álcool? Pois é, Cassidy, apesar de um desgraçado, você meio que pagou em vida por seus pecados.





    09 de março de 2023, quinta-feira. Meu cérebro deletou da minha memória o resto daquela noite. Não sei o que fiz após o Jameson ser derramado na pia, não sei como dormi, não sei o que senti ou pensei. Mas sei como foram difíceis os dias seguintes (todos os 1192 dias).




"Quando você percebe que tudo é uma piada, ser O Comediante é a única coisa que faz sentido"