He-Man é aquele personagem que tem sabor de infância para muita gente, inclusive para mim. Sou um grande fã do personagem; ao lado de Batman, Superman, Fantasma, Homem-Aranha e Capitão América, foi o primeiro herói que conheci. Então, logicamente, fui assistir a esse novo filme de Mestres dos Universo, ainda que tivesse meus receios, que se provaram parcialmente corretos, devo dizer.
Não preciso nem dizer o
quanto o desenho dos anos 80 da Filmation é icônico e marcou época,
particularmente no Brasil. Um grande sucesso nas terras tupiniquins. He-Man
teve outras animações, mas que não foram tão bem-sucedidas, como as versões de
1989 e 2002, está última a mais bem avaliada. Há ainda o clássico trash,
que é o filme de Mestres do Universo de 1987, com Dolph Lundgren, da
lendária produtora de filmes B Cannon. He-Man também tem diversas incursões nos
quadrinhos, sendo a fase de Keith Giffen publicada pela DC a melhor coisa que
fizeram com o personagem nos últimos tempos.
O que posso dizer dessa
nova versão de Mestres dos Universo? Bom, primeiro que ela é quase
inteira uma grande galhofa; se inspiraram nos filmes da Marvel, porém as
piadinhas não são tão inocentes. E, sim, tem bastante conteúdo woke no
filme, infelizmente, principalmente no tocante à desconstrução da
masculinidade.
No enredo, o infante
príncipe Adam vivia uma vida idílica em Eternia, a despeito de ser mais frágil
e sensível, bem Nutella. Ele toma surra até de meninas, e sua única amiga é
Teela, a filha de Duncan, o Mentor, mestres de armas do reino, interpretado pelo
sempre ótimo Idris Elba, apesar de ser uma quota, a mudança de etnia foi ok
para mim. No entanto, o rei Randor (James Purefoy) não aprova o jeito bunda
mole do Adanzinho, ainda que sua mãe, rainha Marlene (Charlotte Riley) o
proteja.
Entretanto, a paz em
Eternia chega ao fim quando o exército do maligno Esqueleto (interpretado por
Jared Leto, que, mesmo com captura de movimentos em CGI, está excelente no
papel). Adanzinho é enviado para a Terra graças ao encanto da Feiticeira
(vivida pela brasileira Morena Baccarin). Todavia, o menino perde a Espada do
Poder quando chega à Terra.
Ao chegar na Terra, o menino Adamzinho é criado e cresce como Adam Glenn, interpretado por Nicholas Galizitine, nos EUA e torna-se empregado de uma empresa de RH. Porém, ainda sonha em voltar para Eternia. Quando recebe a informação de que a Espada do Poder está em uma comic shop, é preso por furto e depois atacado pelo Homem-Fera, que também almeja a espada para o Esqueleto. Porém, ele tem o rabo salvo por Teela, vivida pela atriz filha de brasileiros Camila Mendes. Graças à Teela, Adam consegui enfim voltar para Eternia, para descobrir que seu mundo foi dizimado e conquistado pelo Esqueleto. Resta a Adam unir-se a Teela e ao bêbado Mentor para se tornar o herói improvável de Eternia.
Como escrevi antes, Mestres do Universo é mais um filme gerado nos estertores da cultura woke. Adam/He-Man é um herói inseguro e frágil, que precisa do apoio de Teela para conseguir seu objetivo. Ele também tem essa cultura de coach, que tenta solucionar tudo pelo diálogo, mas que no fim tem de resolver tudo na porrada mesmo. Há essa necessidade de desconstruir a masculinidade e a própria figura do herói, o transformando em um salvador vacilante.
Outro ponto a se
destacar no filme é o humor exagerado, bem no estilo Marvel. Adam/He-Man tem
uma personalidade atrapalhada no filme, e é a praticamente um palhaço, cheio de
gags. Há bem poucos momentos dramáticos no filme, que logo de dissolvem na
comédia. Até para a estrutura narrativa do longa, isso é ruim. Em determinado
momento, o rei Randor morre, mas nas cenas seguintes Adam não parece mais
triste e até faz um discurso motivacional para conseguir que os Mestres do Universo
o ajudem a fugir da prisão.
E as piadinhas na realidade
não são nada inocentes: tem piadinha de fisting com o Fisto (se você não
sabe o que é fisting, joga no Google). Tem piada sobre masturbação; o
Esqueleto fala da espada grande do He-Man no meio das pernas etc. Ou seja, o
tipo de piadinhas que não são apropriadas para um filme em tese voltado para
crianças.
A questão do público-alvo é outro problema. O longa apoia-se muito na nostalgia e a maior parte do público é composta por homens 40+, mas ele também quer atingir crianças e adolescentes que não conhecem o personagem. Em tese, teria de fazer como os filmes da Marvel: adaptar personagens com décadas de existência, conhecidos por velhos leitores da HQs a um público novo que não sabem quem são os personagens, mas ele falha nesse intento.
Como pontos positivos, creio que podem ser destacadas as cenas de ação, que ficaram boas, na maior parte, e também a estética, que ficou interessante, ainda que carregada no brega e com CGI pesado. O filme tecnicamente é bem-feito, com uma direção segura de Travis Knight.
Do lado dos Mestres do Universo,
além de Mentor e Teela, temos Ariete, Fisto e Mekaneck. Há também Dian, que é
uma personagem que só apareceu em uma minicomic do He-Man em meados dos
anos 80, mas que está nesse filme para cumprir quota feminina. E o Roboto virou
“a” Roboto, uma robô guerreira que foi reprogramada para ser faxineira por
Mentor, que é dublada por Kristen Wiig. Senti falta do Stratus e do Multifaces,
entre outros.
Da parte dos aliados e capangas do Esqueleto, temos como destaque a Maligna, interpretada pela ótima atriz Alisson Brie, que tem uma veia de comediante, mas que também atuou em filmes de terror, como Juntos. Em seguida, vêm Mandíbula, que ficou bem legal, e Homem-Fera. Há ainda Triclopis (que agora é tipo um sniper e também entrou na cota, é negro), Spektor, Homem-Cabra e Karg (este último apareceu anteriormente no Mestres do Universo de Dolph Lundgren, sendo uma “homenagem” neste novo filme). Porém, esses vilões têm participações bem diminutas no longa e só servem para tomar porrada mesmo. Senti a ausência do Aquático e do Multigarras, entre outros. O terceiro ato do filme é meio confuso, e não temos conhecimento do que ocorre com alguns dos vilões. Não sabemos o que acontece com o Triclopis, por exemplo. Nem com o Homem-Fera, que tem uma luta com o Pacato. Presumivelmente, esses vilões fugiram no final do filme.
Há algumas lacunas no
roteiro do filme, que quem conhece o cânone de He-Man vai sentir falta. Por exemplo,
não há menção a Teela ser filha da Feiticeira, ou se Mentor é seu pai biológico.
E, também, não abordam a questão de o Esqueleto na realidade ser Keldor,
meio-irmão do rei Randor e tio de Adam.
Uma coisa que o He-Man desse
filme tem em comum com o de Dolph Lundgren e com o dos quadrinhos de Keith Giffen
é que ele usa a espada de verdade. Ou seja, ele mata, ainda que seja uma violência
mais comedida. Nos desenhos, ele não podia matar por causa da classificação
indicativa.
O longa tem três cenas
pós-crédito: uma com o Gorpo; outra com a She-Ra de costas; e uma última da Maligna
apanhando o crâneo do Esqueleto, que provavelmente seria ressuscitado em uma
sequência. Dolph Lundgren tem uma cameo muito boa, em uma cena da
academia com o Adam.
Como saldo final, Mestres
do Universo é um filme ok, que diverte, mas que poderia ser muito melhor, e
que parece não saber qual seu público-alvo, tomando decisões de roteiro
duvidosas. Como parece que será um dos maiores flops do ano, provavelmente
não terá sequência, enterrando talvez para a sempre a franquia de He-Man. Um
final melancólico para um dos grandes heróis da TV. Nota 6 de 10.



























