03h48.
De uma segunda-feira anômala. Segunda-feira ponto facultativo de um
feriado prolongado. Não é o barulho da rua - algum motoqueiro com
escapamento e rosca abertos, algum carro a vomitar som alto - nem algum
vizinho filho da puta nem a baixa da concentração do seu remédio para
dormir em seu plasma sanguíneo. É sua velha bexiga, querendo
deslocupletar-se. Bexiga que é despertador mais exato, preciso e
infalível que qualquer rádio-relógio antigo, que qualquer relógio
atômico dado corda a césio-133.
03h56.
De uma segunda-feira esdrúxula, ponto facultativo de um feriado (qual
mesmo?) prolongado. Facultativo que se vá ao trabalho, logo, não se vai.
Facultativo, também, que não se acorde agoniado, uma vez que não
submetido ao látego da lida? Facultativo que não se acorde
desesperançado? Parece que não. Assim como o facultativo trabalhista não
é decidido por ele, sim por decretos de governantes, o facultativo de
não se angustiar também não passa por sua aprovação, por sua chancela,
por sua canetada, mas sim pela de uma instância superior. A agonia e a
desesperança não lhe concedem feriados, férias, licenças-prêmio. Para
ele, a agonia e a desesperança são sempre datas em preto na folhinha.
Senta-se
à privada para mijar. Não quer arriscar - ainda meio grogue de sono, de
cerveja e de falta de vontade de acordar, de ver o mundo - a respingar
sua urina nas bordas da privada ou no chão, na base da privada, o que
culminaria em bronca certa (e justa) da esposa.
Sabe,
sente, que já acordou mal, pior que o de costume, o que já não é nada
bom. O peito abraçado por uma prensa hidráulica, a receber o aperto de
mão de uma morsa. Não soubesse o que é, não soubesse da natureza de seus
males, juraria de pés juntos se tratar de um princípio de infarto,
juraria de pés juntos ser um passaporte para a cidade dos pés juntos. E
pensa : - que pena que não, um infarto fulminante seria mais clemente.
Outro
qualquer, na situação dele, diria que o coração estava a ser cortado,
fatiado por lâmina de inexorável fio, de gume de espada de samurai. Não é
o que ele sente - antes fosse. Não sente faca fazendo bifes de seu
miocárdio. Sente algo pior. Sente como se cada fibra do pulsante músculo
estivesse a ser puxada, arrancada lentamente. Não sente seu coração ser
cortado, sente-o ser desfiado. Como uma peça de lagarto bovino, que se
prepara à panela de pressão, e não se fatia para servir, mas sim da qual
os comensais vão apenas beliscando pequenos nacos, cada um puxando uma
fita do músculo, corroendo-o, devorando-o de fora pra dentro, sem
pressa, sem previsão da tortura acabar.
04h22.
Acaba de mijar, sacode a rola ainda sentado, sobe a cueca e volta para a
cama. Via de regra, até consegue pegar um pouco no sono depois da
mijada. Não um sono verdadeiro, profundo, mas via de regra consegue
ainda apagar um pouco.
Mas
não nessa segunda-feira, ponto facultativo de um feriado prolongado.
Assim que se deita - a esposa a ressonar ao lado, a cachorra numa
almofada no chão, na lateral da cama, e a gata tricolor e bipolar
reacomodando-se aos seus pés - sabe que não voltará a dormir.
04h28.
Põe-se de pé. Tomar um café coado em coador de pano, com açúcar e um
respingo de leite. Assistir a um filme argentino, que colocara em sua
lista na noite pregressa. Toma o café. Põe a rodar a película argentina.
O café, consegue tomar - não sentir o gosto (que aí também é exigir
muito da vida), mas consegue tomar. No filme argentino, não consegue se
concentrar - e ele muito aprecia a produção cinematográfica portenha.
04h52.
Abandona o filme. Fazer palavras cruzadas e escutar música bem baixinho
na sacada. As palavras cruzadas tornam-se palavras embaçadas,
embaralhadas; a música, ruído branco.
E
o desfiar lancinante, fibra a fibra, de seu coração bovino preparado na
panela de pressão da vida, prossegue. Pacienciosamente. Sem fim.
05h27.
Quem sabe tocar uma bronha? Uma boa gozada relaxa, dá um pouco de sono,
quem sabe não conseguiria cochilar um tanto depois? Vai ao banheiro.
Navegador no modo anônimo. Porno Hub. Não consegue se decidir por qual
categoria. Caseiro, amador, corno, threesome, foursome, big tits, small
tits, POV, gang bang, MILF, interracial, lésbicas, boquete, shemale,
gozando dentro. Broxa. Desiste.
O ardor no peito, feito o ardor de quando se puxa uma pele do canto do dedo, continua, elevando-se exponencialmente.
06h14.
Primeiros sinais da aurora. Primeiros sinais de vida na casa - sua
vígilia involuntária não pode ser considerada como tal. As duas gatas.
Espreguiçando-se da maneira de que só os gatos são capazes, bocejando.
Hora do desjejum delas. Que este é o principal sinal da existência de
vida, a fome. Só é vivo quem tem fome. Há tempos que ele de nada tem
fome. Há tempos, nenhum desejo ou necessidade frementes a serem
saciados. Há tempos, inapetente.
Primeiros
sinais da aurora. Antes, ele saía com sua caneca de café à sacada e
contemplava a paisagem. Não lhe interessa ou mais apraz contemplar a
paisagem. Só tem olhos para o seu deserto interior, para as suas dunas
monazíticas.
Lembra do Bandeira, o Poema do Beco : Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? — O que eu vejo é o beco.
Quando
alheios à melancolia que assaltava o poeta no momento da escrita,
quando não se sente o beco nas próprias carnes, o poema é belo,
belíssimo. No entanto, quando o beco em nós se instala, mostra-se única
rota em nosso GPS, o poema perde um tanto da beleza, uma vez que se
torna realidade, e nesta nada de belo pode haver ou perdurar.
06h14.
Veste-se. Calça seus tênis. Toma seu ansiolítico e decide caminhar. O
ansiolítico sublingual e mais uns tantos quilômetros de pernada costumam
colocar sua ansiedade em rédeas curtas. O coração, a ser desfiado,
ainda se contorce.
Apronta
a mochila para a caminhada. Verifica a carga do celular, guarda-o em um
dos compartimentos laterais da mochila. Num dos frontais, no menor,
acomoda o cartão de débito e uma sacola retornável - ambos a serem
usados no retorno da caminhada, na compra de víveres no mercado para o
resto da semana.
Verifica
o gás, a porta da geladeira, as torneiras da cozinha e dos banheiros.
Pendura os óculos de farmácia na gola da camiseta. Enverga a mochila às
costas - seu bat-cinto de utilidades, seu paraquedas.
E
sai. Confere três vezes se bem trancou a porta do apartamento. Seu TOC
já controlado. Em outras épocas, conferia três vezes três vezes. Toma o
elevador, pelo qual desce e aporta não ao mundo, mas ao Inferno. Seu
peito ainda abrasa-se. Ainda sufoca-se na prensa hidráulica desta
segunda-feira, ponto facultativo de um feriado prolongado. E ele sabe
que não é um infarto - e lamenta-se.
06h43.
A câmera de reconhecimento facial da portaria do prédio reconhece seu
rosto no sistema e libera sua saída. Já aconteceu de não. Ele, à saída
para o trabalho, e a porra do reconhecimento não o reconhecia. Pulou o
cercado de vidro que serve de muro ao prédio. Tomou uma reprimenda do
síndico, que voyeur do caralho, feito vizinha fofoqueira de outrora que
passava a vida ao muro e ao portão, faz das câmeras do prédio a sua
plataforma de streaming. Cagou pro síndico.
Vinte,
trinta minutos de caminhada em ritmo acelerado pela marginal de uma
grande rodovia. Normalmente (mas nada de normal há nessa segunda-feira,
ponto facultativo de um feriado prolongado), a esta altura, o
ansiolítico mais as endorfinas já teriam logrado suas ações
apaziguadoras. Porém, o peito ainda flameja, cianótico, sem
respiradouros.
Entra
na loja de conveniência e compra duas latas de cerveja, a completar a
tríade, o tripé no qual manquitola o que resta de sua sanidade mental :
ansiolítico, caminhada e cerveja.
Entorna
a primeira. O habitual alívio não vem. Acelera inda mais o passo. Sua
velocidade de cruzeiro é cerca de 5,5 km/h. Deve estar a mais de 7 km/h
agora. Força as panturrilhas para receber mais injeções de endorfinas. O
peito, com a boca costurada, ainda berra, berra para dentro, acumula
pedidos de socorro, a ponto de uma implosão.
07h32.
Contorna a rotatória. Chegara à metade de sua via dolorosa. Atravessa a
rodovia e toma a marginal oposta para retornar. Abre a segunda lata. O
peito, indiferente e ingrato a seus esforços, ainda queima de
hipotermia.
08h12.
Supermercado. Segue o mapa de sua lista de compras. Caixas quase
vazios. Sorte. Emboca no caixa vazio destinado a idosos e outros que
tais. Lembra de Augusto dos Anjos, o poeta da putrefação : "O homem, que nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera".
Ele,
que neste país miserável, mora em total anomia, sente inevitável
necessidade de também ser um fora-da-lei, de ser um transgressor. E
emboca no caixa para idosos.
09h27.
Chega em casa. Aplicativo do celular acusa 11,8 km de caminhada, tempo
de 01h48, descontado o tempo parado no mercado. Esposa, que dormia à sua
saída, encontra-se já no sofá. Ele faz café, põe pães de queijo na air
freyer. As pelotas congeladas saberão agora como seu peito está a se
sentir.
Tomam
o café, comem os pães de queijo, conversam amenidades, não pela vontade
ou necessidade de conversá-las, mas pelo medo que cada um tem do outro
pensar que longos silêncios e falta de assunto signifiquem falta de
amor. Veem programas aleatórios e inócuos na TV.
A
esposa se arruma. Sai para a manicure. Ele tenta retormar o filme
argentino. Falha. E o peito ainda a ser destrinchado, esfarrapado.
Resolve
ir lavar o banheiro. Serviços domésticos, ouvira várias vezes, ajudam
na ansiedade. Balde, sabão em pó, água sanitária, esponja verde-amarela,
vassoura, rodo e limpa-vidros. A privada, ele esfrega mesmo com a mão.
Celular no app de música e caixinha de som bluetooth na janela. Latão na
caneca.
10h38.
Limpo e enxuto, ele reloca todos os itens de higiene, toalhas, tapete e
lixinho no banheiro. O vapor de cloro ainda queima um tanto seus olhos e
mucosa nasal. Seu peito queima mais, nesta segunda-feira, ponto
facultativo de um feriado prolongado.
10h50.
Vai para a cozinha. Cozinhar, picar legumes, mexer com as panelas,
dizem, distrai, acalma. Prepara uns petiscos para comer com a esposa,
assistindo a um filme ou a uma série, tomando cerveja. Fatia um salame,
quadricula um provolone. Corta duas batatas doces em tiras, pré-coze-as,
para fritá-las, depois, na air fryer. Fatia uma baguete, molho de
tomate, presunto, muçarela, orégano, alcaparras, queijo parmesão ralado -
umas bruschetas.
Nada do peito dar folga, nada da ansiedade largar de seu chicote de concertina.
11h27.
Esposa chega da manicure. Cerveja dela também no ponto. Acomodam-se no
sofá, sintonizam numa plataforma de streaming, beliscam as rodelas de
salame, os cubos de provolone. Ele põe as batatas doces no air fryer e
as bruschetas no forno.
14H44.
Desliga a TV. Recolhem-se para o tradicional sono vespertino dos fins
de semana; no caso, desta segunda-feira, ponto facultativo de um feriado
prolongado. Em poucos minutos, a esposa já respira mais fundo, ressona o
sono dos merecedores.
Ele
não dorme. Sabe que não conseguirá dormir. Besteira ficar na cama. O
peito lateja. A gata se ajeita aos seus pés. Dizem que os gatos se
deitam sobre os donos na parte de seus corpos onde esses sentem algum
tipo de dor. A gata deve estar com sua bússola descalibrada. Não são os
pés que lhe flagelam nessa segunda-feira, ponto facultativo de um
feriado prolongado.
15h36.
Desiste de ficar na cama - desistira, na verdade, assim que se deitou,
mas só então conseguiu coragem e forças para sair dela. Tenta de novo o
filme argentino. Prepara outro café. Reforça na dose do pó. A cafeteira
italiana ebule, espuma e apita. Abandona o filme argentino, retira-o de
sua lista. Quem sabe, agora, a punheta funcione? Nada. Pau feito boneco
inflável de posto de gasolina, quando parece que vai arribar, esmorece e
dobra de novo.
17h02.
Andar. Caminhar de novo. Exaurir-se fisicamente para tentar nocautear
também a mente e o espírito. Raríssimas vezes, caminha duas vezes no
mesmo dia. E quando o faz, passa dias com dor nos tendões calcâneos e
patelares. Hoje, torce para que lhe assaltem essas dores. Quem sabe elas
não atraiam a atenção do cérebro e este se esqueça um pouco de
fustigar-lhe o peito? Quem sabe essas dores não se prestem a um Vicodin
para o peito?
19h24.
Chega
em casa. Fisicamente intacto. Nem mesmo suado. O peito ainda a ser
erodido, estripado. Esposa pergunta se tudo bem. Ele faz um muxoxo em
concordância. Ela sabe a resposta. Parte, então, para artilharia mais
pesada. Vodka-tônica. Em doses céleres e cavalares.
22h57.
Mais TV. Muitos zanzares, muitas idas e vindas pela casa. Sala,
cozinha, sacada, banheiro, sala, cozinha, sacada, banheiro. Em dias
assim, como essa segunda-feira, ponto facultativo de um feriado
prolongado, não consegue esquentar o assento do sofá. Fica feito gato em
dia de faxina, feito o Tio Patinhas a andar em seu círculo de
preocupação.
Ele
tentara de tudo ao longo do dia. Não vê outra saída de como matar seu
peito, de como, pelo menos, colocá-lo em coma para que ele possa acordar
do seu : tarja preta.
Ele
tem sempre uma pequena reserva de emergência. Clonazepam. Proibitivo
misturar tarja preta com álcool, advertem a bula e a psiquiatra, sua
traficante com registro no CRM. Proibitivo também - asseguravam nossas
mães, tias, avós etc - misturar leite com manga.
Ele toma dois comprimidos de 25 mg cada. Escova os dentes, senta-se ao sofá e espera que Morpheus morda a isca
23h54.
Grogue. Sonado. Cambaleante. Peito, enfim, apaziguado. Dá um beijo de
boa-noite na esposa e vai deitar-se. Tampões de espuma nos ouvidos e com
a gata a se enrodilhar em seus pés, tem tempo ainda para um último
pensamento : a grossa e massiva maioria dos dias é foda, é insustentável
(e por que meus ombros de Atlas não renunciam de vez ao peso do
mundo?), mas alguns dias, feito essa segunda-feira, ponto facultativo de
um feriado prolongado, são verdadeiros álibis.
Álibis
incontestáveis. Álibis irrefutáveis. Para qualquer um que, nessa
segunda-feira, ponto facultativo de um feriado prolongado, tivesse
decidido por suicidar-se.
