No ano passado, o MCU
introduziu um de seus personagens mais poderosos no filme dos Thunderbolts: Robert "Bob" Reynolds, o Sentinela. Para muitos, ele foi um dos pontos altos do filme,
graças ao desenvolvimento de seu drama psicológico e a atuação cativante do Lewis
Pullman como o personagem.
Como acontece em muitas
adaptações, o personagem teve umas pequenas mudanças em relação a sua versão
das hqs, como uma forma de simplifica-lo para um filme de 2h, onde ele não só é
introduzido como dividi espaço com vários outros. Isso pode resultar em críticas por parte de
fãs de longa data do personagem, mas, pra mim, compreendo a necessidade, pois o
Sentinela das hqs é um pouco diferente e complicado do que alguns esperam.
Tendo sido criado nos
anos 2000 por Paul Jenkins e Jae Lee, o Sentinela foi protagonista de sua
própria minissérie, composta por 5 edições (Sentry
nº01 a 05, mais umas revistas especiais focadas em heróis com quem ele
interagiu (The Sentry: Fantastic Four,
The Sentry: Spider Man, The Sentry: The incredible Hulk, The Sentry: X-men)
e sua conclusão em The Sentry: The Void.
Enquanto essa história
tinha o propósito de introduzir esse novo personagem, sua execução foi
realizada por meio de uma abordagem bem ousada: Como seria se fizessem um herói
que existiu na cronologia da Marvel desde o início? Como seria se eles criassem
uma figura que já teve várias histórias com os heróis estabelecidos da Marvel,
tendo uma influência na vida deles?
O risco dessa ideia pode
causar várias inconsistências com a cronologia da Marvel eram grandes. Por sorte, isso não aconteceu, com Jenkins
conseguindo elaborar um arco bem profundo que age como um estudo de homem com
poderes de um deus, e também como um tributo a Era Marvel e como esse período
perdeu sua inocência com o passar do tempo.
Para explicar isso em
detalhes, essa é minha resenha de “Quem é o Sentinela?”.
Trama
Sem perder tempo, a história já começa introduzindo o leitor ao protagonista, Robert Reynolds, um homem obeso, alcoólatra, amante de desenhos animados, que vive com sua esposa Lindy e seu cachorro.
Em uma noite de tempestade, Bob desperta de um pesadelo. Ao descer para tomar uma bebida, ele começa a ter lembranças, de quando ele era o Sentinela, um herói com o poder de “mil sóis explodindo”.
Apesar de suas dúvidas, Bob vem a aceitar essas
memórias, desconfiando que elas são um sinal do retorno de seu grande inimigo:
O Vácuo.
Sabendo da iminência
dessa ameaça, Bob viaja pelo universo Marvel, buscando reunir os heróis para
batalha que está por vir. Em cada um de seus encontros com os heróis, fica
estabelecido que nenhum deles se lembra de Bob ou do passado que ele diz terem
vivido devido a “alguém de confiança de Bob” ter apagado a memória deles.
Esse esquecimento dos
heróis e a volta do Vácuo aos poucos vão revelando ter uma conexão que fará o
Sentinela ter que confrontar uma verdade sombria sobre si mesmo e seu passado.
O
mistério enriquecido pelo marketing
Essa primeira aparição pode
estabelecer os elementos básicos do Sentinela, com ele sendo um “Superman da
Marvel” em constante batalha contra seus demônios internos (representados pelo
Vácuo), porém isso não é o foco da história. A revelação da conexão do
Sentinela e o Vácuo só vem acontecer na ultima edição, com maioria do passado
do personagem sendo mantida em segredo.
Então do que se trata
essa história?
Ela é um conto de
mistério sobre a participação do Sentinela no Universo Marvel. Ao invés de ser
estabelecido como um personagem novo e construírem sua mitologia do zero, o
roteiro Paul Jenkins estabelece o Bob como um personagem que esteve presente na
cronologia da Marvel, com uma história já estabelecida entre ele e os
personagens, embora esses não tenham recordações.
O que poderia ser um
retcon preguiçoso e confuso, acaba se tornando um enigma fascinante por trás do
Sentinela, em parte devido a estratégia de marketing dos editores.
Muito antes da publicação da história, eles foram deixando vazar alguns rumores (falsos) sobre o novo personagem, dizendo que ele era na verdade, uma das primeiras criações do Stan Lee e Jack Kirby, chegando até mesmo postarem na revista Wizard.
Para fortalecer ainda mais esses boatos, os escritores tiveram os flashbacks presente na hq, sendo desenhadas com um traço similar ao do Kirby, criando realmente a sensação de que o personagem foi criado durante a Era Marvel.
Embora eu seja contra
editores manipulares seu público, esse é um dos casos onde a estratégia deles
foi executa de forma astuta, que permitiu eles colocarem os leitores na mesma
posição que os personagens da história, questionando a legitimidade das
palavras de Bob. Ele é mesmo um herói de tempos antigos ou apenas um louco
desiludido?
Mas, por trás desse
mistério do personagem, sua minissérie é algo bem profundo e metafórico.
O símbolo de esperança da Marvel
Quando criou o universo
Marvel na década de 60, Stan Lee seguiu o conceito de humanizar os seus personagens.
Ao contrário dos heróis inspiradores e “quasi-perfeitos” da DC, os da Marvel
eram retratados tendo seus defeitos, dramas relacionáveis e lidando com
injustiças de seu mundo. Tinha um certo toque de realismo em suas histórias,
por mais absurdas que elas fossem.
O que esse quadrinho do
Sentinela faz é criar a seguinte pergunta: E se a Marvel tivesse tido um herói
inspirador como Superman, um símbolo de esperança e tudo de bom para esse universo tão
complicado?
Tal como o Homem de Aço da DC, o Sentinela é retratado como o mesmo tipo do arquétipo: Ele é forte, heroico, gentil e admirado por vários heróis, cujas vidas acabam melhorando graças a influência positiva do herói.
Isso contrasta com os momentos onde ele está
ausente, com o progresso que os heróis fizeram na vida despencando.
O Sentinela não é um
equivalente ao Superman da DC apenas por causa de seu visual e poderes, mas por
seu papel como um símbolo de esperança num universo que parece rejeitar seus heróis.
Isso é o que dá tanto
impacto para o confronto final do Sentinela contra o Vácuo, onde é revelado a
conexão dos dois, mostrando como até mesmo o maior herói da Marvel não é um ser
perfeito e sem falhas como os personagens da Marvel enxergavam.
Por sorte, Bob, no
final, recebe sua chance para provar mais vez ser o herói idealizado por seus
amigos, realizando um grande sacrifício para derrotar o Vácuo, provando assim
como ele representava a essência dos heróis da Marvel não por seus poderes, mas
por sua disposição para abrir mão de algo pessoal para o bem de todos.
O Sentinela deveria ter
continuado a aparecer no universo Marvel?
Agora tenho tocar em uma uma opinião bem impopular: Eu não acho que o Sentinela deveria ter continuado aparecer nas hqs da Marvel depois dessa da série do Paul Jenkins.
Eu sei que o personagem
foi um sucesso e a Marvel quis capitalizar nisso, fazendo ele voltar em várias
futuras hqs (a mais famosa tendo sido os Novos Vingadores do Bendis).
Porém como acontece com
quadrinhos em geral e suas histórias sem fim, essas aparições acabam tirando o
impacto da decisão de Bob no final dessa história e o sacrifico pelo bem de
seus companheiros.
Isso não quer dizer que
não tiveram coisas boas com seus retornos. Roteiristas como Bendis ou Jeff Lemire,
conseguiram desenvolver bem o personagem e dar mais camadas para o drama
psicológico. Mas não deixa de ser uma pena que tais histórias só puderam ser
feitas a custo de uma bela conclusão para um personagem tão intrigante como o
Sentinela.
Considerações finais
Os Novos Vingadores de
Bendis pode ter sido o ponto onde o Sentinela começou a crescer em
popularidade. Mas, pra mim sua primeira minissérie é sua história mais
marcante, assim como uma das melhores histórias publicadas pela Marvel nos anos
2000. É um mistério intenso que mantém a atenção do leitor, ao mesmo um
comentário brilhante quanto ao tom do universo Marvel e como, mesmo em uma
época de quadrinhos menos inocentes do que antes, os personagens ainda
representam a essência do heroísmo que nos fez admira-los naqueles tempos.
Nota: 10/10


















