Mundo Gavião – Um clássico dos anos 80, uma leitura relevante na atualidade

 



Quando se observa os projetos do DCU de James Gunn, é fácil reparar que umas das principais inspirações por trás da franquia são as hqs da década de 80/90, como Homem de Aço de John Byrne (a dinâmica do Superman com os kriptonianos), Lanterna Verde de Gerard Jones (o Hal Jordan estando mais velho) e Liga da Justiça Internacional (a gangue da justiça). 





















Claro que tem elementos da Era de Prata (como o Krypto) e de hqs modernas (Supergirl mais fanfarrona e festeira do Tom King), porém a influência das hqs da continuidade pós-crise continua sendo evidente.










Por mais que eu respeite a ideia do Gunn em usar as hqs dessa específica continuidade como uma de suas inspirações, eu acho que ele cometeu um erro ao estabelecer que a Mulher Gavião seria a versão moderna da Kendra Saunders, vivida pela Isabela Merced.



Não me entendam mal. Das aparições que Isabela Merced fez nos projetos do DCU, sua atuação foi bacana e a personagem da Kendra tem um potencial para evoluir. Mas, se o Gunn estava em pegar inspiração nas hqs dos anos 80/90, ele perdeu uma chance para pegar inspiração a versão da época.

Não digo isso só porque a Mulher Gavião dos anos 80 era a Shayera (com certeza a versão mais icônica da personagem), mas também porque ela foi parte de uma hq cujo conteúdo tem se tornado mais relevante para os dias de hoje: Mundo Gavião (Hawkworld no original em inglês).

Escrita e desenhada por Timothy Truman, Mundo Gavião é uma minissérie, de 3 capítulos, publicada em 1989, que foi responsável por recontar a origem do Gavião Negro e a Mulher Gavião na continuidade pós-crise da DC.



Mas do que se trata essa minissérie?

Eu irei explicar isso...shall we begin?

Trama

A história se passa no planeta Thanagar e é narrada pelo ponto de vista de Katar Rol, o novo recruta dos Homens Alados, a força policial.  Como qualquer novato na força policial Katar, se mostra sendo um jovem empolgado e ingênuo, com um entusiasmo que o aliena perante a realidade  a sua volta.




Em sua primeira missão, Katar tem sua primeira exposição a realidade quando testemunha a atitude de seus superiores aos habitantes da Zona Baixa,  com indiferença para os danos colaterais e desrespeito aos direitos humanos.



A princípio, Katar vai se deixando ser influenciado pelos costumes de sua classe social, ignorando a seriedade dos problemas ao seu redor através dos luxos de sua vida privilegiada. 



Essa negligência logo se vira contra Katar quando o próprio, durante uma missão,  acaba matando seu próprio pai, que estava tentando secretamente fornecer alimentos e suprimentos médicos para os habitantes da zona baixa.



Sendo incriminado pelo corrupto comandante Byth, Katar tem suas asas removidas cirurgicamente e é banido para Ilha da Sorte.



Enquanto tenta sobreviver naquele lugar, o ex-homem alado passa por uma experiência que o faz encarar a realidade da sociedade e, com isso, encontrar não só confiança e um novo propósito.

 




Um drama sci-fy noir & um reflexo da sociedade atual

Hoje em dia, esse tipo arco do Katar Hol é uma das jornadas de herói mais conhecida: Um jovem privilegiado que começa com uma visão ingênua do mundo que vive, mas é forçado a confrontar a realidade e tomar ação contra seus defeitos. Tem vários heróis que passaram por ela, como Homem de Ferro, Doutor Estranho ou Arqueiro Verde

Obs: Esse ultimo exemplo é irônico, visto como nas hqs, Katar e Oliver sempre tinham argumentos por suas posições politicas (Oliver era liberal enquanto Katar era conservador).



Embora o tipo de história já seja conhecida, é o que ela faz de diferente das outras que a torna única e se destacar como um projeto independente.

No caso de Mundo Gavião, seu aspecto mais destacado é sua construção de ambiente.

Na continuidade pré-crise, os thanagarianos não tinham uma grande diferença dos para outras civilizações alienígenas da DC. Eles tinham aparências humanoides e tecnologia futurista (com a mais importante sendo o metal enésio). Dava para colocar a imagem do planeta deles perto de uma de Rann ou Krypton e você nem poderia dizer a diferença.



Já nessa minissérie, Timothy Truman faz uso de uma abordagem mais noir para enfatizar o sistema em que os  thanagarianos operam.  Eles continuam sendo mostrado como sociedade futurista mas muito longe da imagem idealizada da Era de Prata. Eles são mostrados como um povo dividido entre ricos e poderosos que vivem nas Torres altas (cidadelas que flutuam nos céus), festejando e se dopando, e os forasteiros e sem asas (Thanagarianos que não desenvolveram suas asas ou tiveram elas removidas) que vivem na Zona Baixa (comunidades e casas precárias localizadas na superfície do planeta), sendo obrigados a lutar pela sobrevivência e sendo oprimidos pelos Homens Alados.






Como podem ter reparado, Mundo Gavião não demonstra sutileza alguma no comentário social, com Truman se aproveitando da trama e o cenário para apresenta duras críticas a elitismo, racismo, abuso de poder e violência policial. Todos assuntos que continuam relevantes até os dias.

A revista também não se contém em apresentar violência gráfica expondo a realidade sombria de Thanagar, mas nunca a ponto do espetáculo substituir a história e os arcos de seus personagens.



Duas almas opostas, um mesmo objetivo

No centro dessa trama temos o Katar Hol, que, durante os capítulos, vai de um jovem ingênuo e apaixonado pela história e romantismo de seu povo para sofrer com a desilusão e injustiça desse sistema que ele seguiu cegamente, para reencontrar sua determinação para fazer diferença na sociedade.







Esse crescimento é árduo, com Katar passando por várias experiências, porém, como uma jornada do herói, ele consegue passar por elas graças a aliados como o sábio R’d e, principalmente, sua futura parceira Shayera Tal, que, vem a complementar o Katar, com o herói tendo sido um jovem da parte aristocrata de Thanagar, enquanto Shayera foi criada na Zona Baixa.




Provavelmente alguns fãs shippers vão reclamar da história não explorar o romance do Katar e da Shayera, mas a isso é porque não é o foco de Mundo Gavião. Ao invés de ficar querendo agradar os desejos ansiosos dos fãs, Timothy Truman priorizou sua história, os personagens e seu desenvolvimento natural, focando no início da parceira de Katar e Shayera, mostrando quem eles são como indivíduos, ao invés de correr para estabelece-los como um casal. Nem toda história precisa de uma sub-trama romântica ou terminar com o casal junto. Algumas das melhores histórias são aquelas que deixam as relações de seus personagens crescerem no seu devido tempo. 



A unica critica que faço aos dois foi a diferença de idade que o Truman parece estabelecer entre eles. Sem dar spoiler, a história parece estabelecer que o Carter e Shayera já se conheciam desde sua primeira missão, quando ela ainda era uma criança/pré-adolescente (pela imagem eu teorizo que ela tenha 10 a 12 anos) enquanto Katar já um adulto de 18 a 21 anos.



Infelizmente, este aspecto estava na moda na época, como demonstrado com pelo Colossus e a Kitty Pryde nos X-men e o Reed Richards e a Sue Storm na fase do Quarteto Fantástico do John Byrne.




No entanto, esse é um detalhe que facilmente esquecido graças aos vários outros pontos positivo da história.

Considerações finais

Quando se vê o Gavião Negro e a Mulher Gavião no universo DC em geral, o personagem é um fator de confusão na continuidade, com sua história sendo vítima de vários retcons e releituras (ex: as vezes ele é um arqueólogo, outras ele é um policial alienígena, etc...). É uma completa bagunça.

Mas quando se lê apenas algumas histórias deles, contidas e com foco em apenas uma versão, eles se tornam personagens bem legais, com histórias bem ousadas e emocionantes.

Isso resume bem o Mundo Gavião. Ela pode ser uma minissérie curta, porém faz um excelente trabalho em apresentar novas versões dos heróis alados, ao mesmo tempo em que trama uma trama provocadora e com temáticas que ampliam a atenção do público para os problemas na sociedade atual.

Por isso espero que algum dia, essa hq venha a ganhar mais atenção e, talvez, ser adaptada em outras formas de mídia.

Nota: 09/10



Então é isso! Qual a opinião de vocês quanto ao Mundo Gavião ? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões e ideias nos comentários abaixo