A saga do Lápide – A introdução de um vilão subestimado do Homem Aranha

 



 

Homem Aranha não é chamado de “Amigo da vizinhança” a toa. Ele pode ser um dos maiores heróis para leitores como nós. Contudo, maioria de suas histórias envolve aventuras em uma escala mais urbana, se passando nas ruas de Nova York e tendo o Aranha enfrentando bandidos, chefes do crime e super vilões.

Quando se trata de mafiosos que o Aranha enfrentou, um que subiu em popularidade foi Alonzo “Lonnie” Thompson Lincon, o Lápide. Devido a sua representação no desenho do Espetacular Homem Aranha, alguns fãs tem a impressão dele sendo esse grande chefe do crime organizado, tipo Rei do Crime (que não pode ser usado na série por questões de direitos). Só que nem sempre foi assim.



Tendo sido criado por Gerry Conway e Alex Sauviu, o Lápide era apenas um assassino de aluguel da máfia, agindo de forma que homenageava perseguidores como o T 800 de “Exterminador do Futuro”.





Por essa descrição é fácil de assumir que ele deve ter sido um típico vilão da semana até o desenho do Espetacular reinventa-lo como um chefe mafioso. Na realidade, em sua primeira aparição, o Lápide foi antagonista de um arco não muito falado do herói.

Me referindo a ela como “A saga do Lápide”, essa foi uma grande saga escrita por Gerry Conway e a arte do falecido Sal Buscema (considerem essa review meio que meu tributo a ele), que foi publicada em The Spectacular Spider Man nº139 a 142, 150 a 153 e 155 a 157. Ela foi responsável por introduzir o Lapide, ao mesmo tempo em que apresentou uma história bem emocional, que lidava que tópicos como trauma, integridade vs medo e o preço por redenção.



Mas como que essa história trabalhou esses tópicos? O que o Lápide tinha que o destaca de outros capangas brutamontes que o Aranha enfrentou no passado?

Irei falar disso em partes

 

Trama

No meio de uma guerra de gangues em Nova York, alguns envolvidos começam a serem vítimas de um assassino misterioso. Enquanto Homem Aranha está ocupado lidando com os problemas causados pelo conflito, Robbie Robertson acaba descobrindo que o responsável por essas mortes é um bicho papão de seu passado: Lonnie Lincon.



Conhecido como o Lápide, Lonnie foi um colega de escola de Robbie. Em contraste com o futuro editor do Clarim Diário, Lonnie era um valentão cruel e implacável, que sempre atormentava Robbie para evitar que ele revelasse suas atividades ilícitas na escola. 



Esse bullying acabou se desenvolvendo além do colégio, com Robbie, apesar de ser um repórter com integridade, se recusando a expor os crimes de Lonnie, temendo que, em resposta, o mafioso fizesse mal a ele e sua família.



Sabendo que Lápide está agindo mais uma vez, Robbie, cheio de culpa, pega um revolver e decide confrontar o bandido e mata-lo. No entanto, sua arma falha, resultando no Lápide quebrando as costas de Robbie.




Com seu amigo no hospital, Peter assume a responsabilidade de deter o Lápide, saindo em uma busca atrás do mafioso. Ao mesmo tempo, Robbie, enquanto se recupera, é forçado a confrontar o trauma que ele carregou por tantos anos.

 

O poder do medo

Hoje em dia, o público já deve tá cansado de ouvir a frase “Com grande poderes vem grande responsabilidade!”. É a frase mais associada ao Homem Aranha. O lema que perfeitamente descreve a filosofia do cabeça de teia, a ideia de que, se você tem o poder para fazer diferença, você tem obrigação de fazer. É uma lição que foi representada em várias formas nas histórias do Aranha.



Na Saga do Lápide, essa temática é apresentada através dos dois personagens principais: Homem Aranha e Robbie Robertson.



Conforme revelado, Robbie, assim como Peter, também carrega trauma por causa de um erro que cometeu. Nesse caso, ele escolheu omitir informações que poderiam ter garantido a prisão do Lápide por causa do sofrimento que ele passou nas mãos do vilão no colégio.

Ver um homem adulto assustado por causa de bullying que sofreu na adolescência pode parecer ridículo, mas é um fato bem real e mostra como essa ações podem marca a mente de um jovem, até mesmo na idade adulta (digo isso como alguém que sofreu bullying nos dias escola).

Embora seja compreensível entender o motivo de Robbie em querer evitar conflito com Lonnie (ainda mais depois que ele ameaçou a sua família) sua falta de ação acaba tendo consequências, não só com vilão conseguindo escapar da justiça como Robbie é quem carrega a culpa pelas vítimas, algo que Lonnie aproveita várias vezes para provoca-lo.






Pode-se argumentar que Robbie ter tentado matar Lápide mostra que ele superou seu medo, mas isso está longe da verdade. Mesmo que a tentativa de Robbie tivesse funcionado, não mudaria nada. Ele apenas se tornaria um assassino, quebrando os valores que ele defendeu. Para se livrar do medo, Robbie precisa escolher, por si mesmo, expor os crimes do Lápide.

Nesse tipo de história, seria fácil o roteirista colocar o Homem Aranha ajudando Robbie a confrontar seu medo. Entretanto Conway optou por uma diferente abordagem colocando o herói em um arco paralelo

 Sabendo o segredo de Robbie, Peter até tenta convence-lo a confessar para a polícia. Só que logo ele próprio tem sua integridade testada, quando o Lápide, ao saber que Peter tem provas de seus crimes, ameaça Mary Jane, fazendo o herói também ficar tentado em quebrar seus valores e se vingar do Lápide.



Esse arco é um tem melhores usos do elenco de apoio do Aranha, mostrando como sua batalha contra o crime tem consequência neles e como o próprio é afetado por isso.

 

Próximo round

Felizmente, Homem Aranha consegue vencer o Lápide no combate, enquanto Robbie, tendo superado seu medo, faz seu depoimento para a polícia, garantindo que o vilão seja condenado.




No entanto, como muitas histórias do Aranha já mostraram, fazer a coisa certa nem sempre é fácil e, em muitos casos, elas tem consequências: Por ter omitido os crimes do Lápide, Robbie acaba sendo julgado e condenado a cumprir pena na prisão.



Por ironia do destino, ele acaba sendo mandado para mesma penitenciaria que o Lápide. 



O pesadelo que ele achou ter livrado apenas continuou, com Lápide mais uma vez atormentando Robbie na prisão, chegando inclusive a matar Brusier, um prisioneiro que tinha ficado amigo dele.



Essa segunda parte pode parecer uma regressão do arco de Robbie, mas é funciona para dar uma abordagem realista para o assunto em questão. Trauma não é como um resfriado que você se cura da noite para o dia. É algo bem profundo e a pessoa tem que passar por um processo gradual para poder se adaptar, tendo o risco de relapsos no caminho.

O que Robbie está passando é um novo estágio de sua jornada, sendo colocado em um cenário onde ele não tem mais a proteção da lei e autoridades e suas ações apenas o deixaram em uma situação: Ele irá se deixar ser subjugado pela ameaças do Lápide ou irá encarar seu medo e defender seus ideais, mesmo após tudo que passou?

Esse dilema vema ser respondido na edição 155, onde o Lápide toma controle da Penintenciaria e arma uma fuga para ele e Robbie de helicóptero. Naturalmente, Homem Aranha intervém, tendo mais um confronto dificil com o o Lápide. Vendo que o Aranha está com dificuldade, Robbie finalmente toma sua decisão  confronta o Lápide, arriscando sua vida para finalmente derrotar o valentão que o prejudicou.









Embora a história de Robbie e Lápide venha ser concluída em uma sub-trama, com o vilão conseguindo escapar, é uma conclusão satisfatória para Robbie, finalmente confiante e tendo recuperado seu auto respeito.

A arte expressiva de Sal Buscema

Além do roteiro de Gerry Conway, outro destaque da história é  arte de Sal Buscema. Como em muitos de seus trabalhos, seus desenhos  conseguem representar bem cenas de ação rápida e dinâmicas dos quadrinhos.



Mas a qualidade onde Buscema se excede é nas expressões faciais. Todos os personagens tem olhos grandes e rostos bem flexiveis e expressivos.  Isso pode, de vez em quando resultar em um momentos exageradamente dramáticos, mas também permite leitores terem uma ideia clara do que os personagens estão passando, se conectarem com o drama emocional.





O roteiro de Conway já tona a história boa, mas a arte de Buscema dá a ela um complemento artístico que torna esse arco ainda mais marcante e agradável de se ver.

Considerações finais

O desenho do Espetacular Homem Aranha merece todo crédito por ter criado uma versão popular do Lápide, garantindo que o vilão evoluísse na galeria de vilões do Aranha. Porém, seria uma injustiça trata-lo como a única versão boa do personagem e ignorar obras que vieram antes, como esse arco marcante.

É uma das melhores introduções de vilões do Aranha, conseguindo entregar um vilão assustador, mas colocá-lo em uma trama que desenvolve não só o Aranha, mas também seu elenco de apoio, lembrando como não é apenas o herói que passa por crescimento em suas histórias. As pessoas que ele interage e seu mundo também mudam junto com ele.

Não digo que seja uma das minhas histórias favoritas do Aranha, pois existem umas melhores e o arco do Robbie pode parecer cansativo e repetitivo para alguns leitores. Mas, ainda continua sendo um clássico marcante do personagem, que merece um pouco mais de atenção.

Nota: 8/10

 


Então é isso! Qual a opinião de vocês quanto a Saga do Lápide ? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões e ideias nos comentários abaixo