A morte do Caveira Vermelha – Você choraria por um vilão irredimível?

 



 

Se o Capitão América foi uma figura criada por judeus (Joe Simon e Jack Kirby) para se opor ao nazismo, então seu arqui-inimigo, o Caveira Vermelha é quem personifica todo esse mal que o herói foi criado para combater. Enquanto o Capitão pela liberdade e justiça para todos, o Caveira busca subjugar todos em seu caminho (incluindo os nazistas que o criaram). Suas batalhas podem ser interpretadas como uma clássica representação do bem contra mal, com o fato dos dois terem sobrevivido até os dias atuais mostrando a eternidade desse conflito.



De todos os vilões da Marvel, o Caveira é um dos mais diabólicos de todos, com até mesmo figuras como Coringa e Magneto tendo escolhido se opor do que formar aliança com o agente nazista.






Todos seus embates com o Capitão e os heróis da Marvel não deixam dúvida alguma, que o Caveira é pura maldade, não sendo um personagem com o qual nós, leitores, devemos sentir simpatia que nem personagens como Mr Freeze ou Magneto.



Mas e se tivesse uma história que nos fizesse considerar tal opção? E se tivesse um arco que explora a psicologia do Caveira, mantendo sua essência irredimível, mas fazendo o leitor considerar sentir uma certa tristeza pelo vilão?

Na verdade, esse tipo de história existe e ela se chama “A morte do Caveira Vermelha”. Escrita pelo mestre de histórias de vilões, o J.M DeMatteis, em 1984, essa história foi uma grande saga, tendo durado de Captain America vol.1 nº290, 293 a 301, cujo foco principal foi o Caveira desafiando o Capitão América para um duelo, que diz que será o último confronto dos dois.




Por ser a natureza de quadrinhos, muitos de vocês provavelmente não devem se sentir interessados numa história que diz que terá o confronto final de um herói com seu vilão e que um dos dois irá morrer. A essa altura é obvio que a editora nunca deixaria um personagem popular, herói ou vilão, definitivamente morto. Logo por que se importar com um arco cuja premissa gira em torno desse conceito previsível?

Como diz uma frase clássica: “O que importa não é o destino, mas sim a jornada!”

Através desse roteiro surpreendente, temos uma exploração bem profunda da dinâmica do Capitão e o Caveira, com destaque sendo dado aos dois homens por trás de suas identidades fantasiadas.

Para explicar isso em mais detalhes, esse meu texto será uma review desse arco bem subestimado do Capitão. Confiram abaixo.

Trama

De maneira inesperada, a vida do Steve vira do avesso, quando seus amigos começam a serem alvos de seus inimigos, o Barão Helmut Zemo e a misteriosa Mãe Superior. 



O fato de seus alvos serem pessoas próximas de Steve Rogers indica ao herói que seus inimigos estão cientes de sua identidade secreta. A reposta de como eles descobriram essa informação é revelada quando o Capitão descobre, pelas pistas deixadas no ataque”, quem é o arquiteto por trás desses ataques: O Caveira Vermelha.



A preocupação do herói chega no seu auge quando os vilões sequestram sua namorada, Bernie Rosenthal. 




Na busca para resgata-la, Steve é envenenado por uma formula que acelera seu envelhecimento.

Mesmo correndo contra o tempo, Steve não desiste de sua busca e, eventualmente, confronta o Caveira, descobrindo que ele também está morrendo de um envelhecimento acelerado, causado pelo efeito colateral dos gases que  o mantiveram  em animação suspensa após a Guerra.


 


Se recusando a morrer sem ter uma vitória sobre seu odiado inimigo, o Caveira separa o Capitão de seus aliados, deixando que Zemo e a Mãe Superior enfrentem os aliados do Capitão, enquanto ele e Steve travam o que pode ser sua batalha final.



 

O triunfo do amor vs a tragédia do ódio



Quem leu minha retrospectiva das histórias do Homem Aranha, sabe que sou um grande fã do J.M DeMatteis, especialmente quando seus trabalhos envolvem a relação entre os heróis e seus vilões. Ele sempre consegue dar a esse antagonista um aspecto bem complexo e, ao mesmo tempo, relacionável. As motivações dos vilões são tão compreensíveis que o leitor consegue se conectar com os personagens, apesar de suas maldades.

Isso não quer dizer que os vilões se tornam, do nada uns incompreendidos. Eles continuam sendo monstros, mas pelo menos o leitor o porquê eles são tão cruéis. Entender um antagonista não é o mesmo que torna-lo simpático ou suas motivações justas.





Uma das formas como ele faz isso é colocando o vilão em confronto com algo bem relacionável: Sua própria mortalidade e os dilemas que surgem desse assunto (como ele fez com o Kraven na Última Caçada de Kraven).



Ter o Caveira Vermelha passando por uma situação parecida é uma ideia brilhante, considerando os ideais fascistas do personagem. Ele acredita cegamente que é superior a todos a sua volta, vendo até mesmo seus próprios aliados como peões para seus fins. 



Logo, saber que  está morrendo de uma causa aparentemente incurável, é um choque de realidade para o Caveira, fazendo toda essa imagem de superioridade que ele criou de si  desmoronar em pedaços.



Isso é demonstrado de uma forma bem efetiva na edição 298, cuja maioria de suas páginas é dedicada ao Caveira conversando com o Capitão, contando-lhe sua origem, seu passado como um homem pobre que foi escolhido pelo próprio Hitler para ser seu agente,  sua conexão com Mãe Superior (que ele revela ser sua filha) e seu plano de envenenar o Capitão para que os dois pudessem morrer juntos e continuar sua batalha eterna no além. 

Uma interação dessas pode parecer um típico clichê de super vilão, porém, o que ajuda essa cena se diferenciar é o estado do Caveira. Ao invés de um vilão confiante, em controle e com o herói em suas mãos, o Caveira é mostrado como um velho  desesperado para fazer seu último confronto com o Capitão valer a pena.


Quando ele conta sua origem para o Capitão, ele não soa como um vilão arrogante exibindo seu passado, mas sim tentando convencer o Capitão de que ele é um monstro e merece ser morto por suas mãos, uma tentativa de corromper o Capitão América, de provar que ele não é “um símbolo de bondade”, antes da morte chegar.

São momentos assim que expõe a verdade sobre o Caveira (e facistas em geral): Apesar de se dizer um homem forte e superior a todos, no realidade, ele era apenas um velho patético e inseguro, que não suporta a ideia de não ser especial como acredita. Quando confrontado com essa verdade ele opta por desmenti-la impondo sua dominância sobre outros e encontrando bode expiatórios para suas frustrações.



É esse desprezo do Caveira pelas pessoas que contribui para destruição de seu grupo, com Mãe Superior e Zemo no final tentando eliminar um ao outro para se provarem dignos de serem os sucessores do Caveira. Uma clara mensagem do quão autodestruitivo o ódio é, e como ele pode ser transmitido para outros.



Em contraste com o Caveira, o Capitão América pelo simples desejo de querer ajudar as pessoas e fazer uma diferença positiva. Até mesmo diante do Caveira, um inimigo tão detestável, Steve não esconde como ele sente pena ao ver alguém destruído por tanto ódio. O que apenas alimenta a frustração do Caveira e sua obsessão em querer corrompe-lo ou destruí-lo.

Por isso é bem apropriado que, ao final dessa história, Steve tem sua vida salva graças aos seus amigos, indivíduos cuja relação com ele é definida não por manipulações e abuso, mas sim amor e amizade.





Para o Caveira, por sua vez, não lhe sobra nada, exceto morrer nos braços do Capitão, sofrendo a consequência de ter desperdiçado sua vida tentando descontar sua raiva no mundo, quando o segredo para ser respeitado é apenas ser uma pessoa boa e decente.

Considerações finais

Depois de ter lido muito dos seus trabalhos na retrospectiva do Homem Aranha, J.M DeMatteis tinha se tornado meu roteirista favorito do personagem. Porém, depois de ler essa hq, devo dizer que ele se tornou um dos meus roteiristas favoritos de todos.

Claro, o ritmo longo do arco pode ser cansativo para alguns, além de ser fácil comparar essa histórias com outros trabalhos de DeMatteis, como Ultima Caçada de Kraven e Melhores Inimigos. Mas, em geral, a Morte do Caveira é uma história única, que usa um personagem tão cruel como o Caveira para mostrar aos leitores a condenação que aguarda aqueles que vivem cheio de ódio... ao mesmo tempo em que, através do Capitão, vemos o triunfo obtido por aqueles que escolhem se conectar com as pessoas e o mundo a sua volta.

Normalmente, as melhores histórias do Capitão costumam ser esses dramas com tópicos políticos. Porém, “A morte do Caveira Vermelha” pode ser vista como uma quebra de paradigma, recomendada para aqueles que buscam uma história mais pessoal e que estuda o a relação do herói e o vilão.

Nota: 09/10 



Então é isso! Qual a opinião de vocês quanto a Morte do Caveira Vermelha ? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões e ideias nos comentários abaixo.