A Colônia de Férias do Xandão


Imaginem, meus caros, um condomínio fechado (fechadíssimo) com unidades habitacionais de seguintes especificações :  64,83 metros quadrados de área total, dos quais , 54,76 metros quadrados são cobertos e 10,07 metros quadrados correspondem à área externa, onde cadeiras, uma mesinha, um toca-CD e um isopor cheio de cerveja podem ser acomodados para um momento de relaxamento e lazer, permitindo também a instalação de equipamentos para exercícios, como esteira e bicicleta ergométrica.
 
Cada unidade conta com um quarto com cama de casal e ar-condicionado, sala com TV (em breve, quem sabe até uma smartv), banheiro com água quente e papel higiênico folha dupla, cozinha com armários e geladeira e amplo espaço para visitas.
 
O morador recebe cinco refeições diárias : café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia. Todas entregues em sua porta, um serviço de quarto de primeira grandeza. Tudo sem precisar ir ao mercado, enfrentar as filas do açougue, dos frios, do hortifruti, da padaria e do caixa. Tudo sem precisar cozinhar e lavar a louça e esfregar o chão da cozinha. E tudo, tudo sem custo algum, tudo bancado pelo dinheiro dos impostos que pagamos a vida toda. Aliás, neste condomínio, o morador não tem que se preocupar com o vencimento de nenhuma conta, nem de água e esgoto nem de energia elétrica nem de gás nem IPTU etc, tudo é coberto pelos seus impostos.
 
Há também, neste condomínio fechado, um posto de saúde, um ambulatório com uma capacitada equipe de médicos, enfermeiros, dentistas, psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas e outros profissionais, que atendem exclusivamente aos moradores. Sem precisar pegar a fila do SUS, sem precisar de autorização do convênio para exames mais caros, sem carência. E na hora : o morador chamou, a equipe imediatamente acorre à sua residência.
 
O condomínio fechado conta ainda com fortíssimo esquema de segurança, com policiamento de elite e monitoramento por câmeras 24 horas por dia. Além de tudo, uma vez instalado, o morador não precisa nem mais sair para o trabalho, acabou o batente.
 
E vocês, meus caros, gostariam de residir num local assim? 
Pois eu moraria fácil! Só de não ter que ver gente, a não ser as que eu chamasse para uma visita, de não ter que enfrentar o tumulto, a cacofonia e o ambiente claustrofóbico de um supermercado cheio , de não precisar encarar uma fila de banco, de não ter que passar horas numa sala de espera de hospital,  de não precisar mais ter sentido de aranha para escapar dos malucos do trânsito caótico, de poder largar do batente, eu estaria mais que disposto a passar o resto de minha vida neste condomínio.
 
Delírio meu? Utopia regada à vodka-tônica? Porra nenhuma! 
Este condomínio existe e se localiza na cidade de Brasília, Distrito Federal, mais especificamente no batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, que passou a ser, a partir de ontem, 15/01, a residência oficial do ex-Presidente Jair Bolsonaro.
 
Devido ao seu delicado quadro de saúde e graças a um arroubo de benevolência de Alexandre de Moraes, Bolsonaro foi removido da Superintendência da PF, de cujas instalações da cela ele e sua defesa vinham reclamando, para a Papudinha, onde terá melhores recursos médicos, mesmo que paliativos, para as sequelas da facada desferida por Adélio Bispo, ex-filiado do PSOL, em 2018.
 
Mas para mostrar que não amoleceu, que continua macho e perigoso, Xandão já mandou o recado, alertou que o local não é uma colônia de férias.
 
Proclamou Xandão I em mais uma régia decisão : "Ressalte-se, entretanto, que essas condições absolutamente excepcionais e privilegiadas não transformam o cumprimento definitivo da pena de JAIR MESSIAS BOLSONARO, condenado pela liderança da organização criminosa na execução dos gravíssimos crimes praticados contra o Estado Democrático de Direito e suas instituições, em uma estadia hoteleira ou em uma colônia de férias".
 
Disse ainda, o Supremo Togado, que Bolsonaro está em condições melhores que a maioria dos presos no país. Dos presos? Da maioria dos brasileiros, pois sim. 
 
Todos nós num país-prisão, numa nação-penitenciária, onde assassinos, traficantes, Executivo, Legislativo e Judiciário corruptos e outros predadores de alta periculosidade estão à solta, livres, leves e soltos, protegidos pela Constituição Cidadã, tranquilos e blindados, só à espera de suas próximas vítimas.