Pesquisar este blog

domingo, 28 de julho de 2019

Cuidado com o que desejas

Não sei se hoje em dia, talvez ainda em pequenas cidades do interior, mas na minha infância, quando Ribeirão Preto era uma pequena cidade do interior e não este leviatã disforme e grotesco em que se tornou, a sabedoria popular fazia sérios e graves alertas a respeito da necessidade imperativa de se satisfazer aos desejos das grávidas. 
Não importando quais eles fossem, não importando o quão estranho, bizarro e excêntrico fosse o apetite da prenha, céus e terras deveriam ser movidos para saciá-lo, tripas deveriam ser feitas em coração. Sob a pena e o risco da criança nascer com a cara do alimento não providenciado, ou com alguma mancha, marca ou cicatriz na forma do objeto de desejo negligenciado.
Eu mesmo tenho uma prima que nasceu com uma mancha vermelha nas costas e cuja origem, minha tia garante, foi um suculento caju que pendia de um galho da árvore do vizinho, o qual ela nunca teve coragem de pedir a ele. Conta que ficou a namorar aquele caju por semanas. Um amor platônico. O resultado : a cajuácea mancha vermelha nas costas de minha prima. Que, a depender dos olhos de quem vê, também pode muito bem ser um grão de feijão, um rim, uma orelha, um anzol, a letra "J" etc.
Pois o bispo Morphou Neophytos, da igreja ortodoxa (grega, suponho pelo nome), está a apregoar justamente o contrário do que diz a voz do povo, que, segundo dizem, é a voz de Deus. Neophytus está a alarmar não para os riscos de não se satisfazer os desejos das grávidas, mas sim para os risco, ainda mais sérios, de atendê-los. Ao menos, certos desejos. 
Pudera. Igreja que é igreja, religião que é religião, condena todos os desejos.
Neophytus afirma que se a mulher fizer sexo por vias não naturais com o marido durante o período gestacional, o Todo-Poderoso lhe será inclemente, lhe castigará com um filho gay, com uma bichona.
Ponho mais às claras as palavras do bispo : se num belo dia, ou numa bela noite, a grávida, ou para não incomodar o feto, ou para agradar ao maridão, ou simplesmente a usar a gravidez como desculpa para dar vazão a vontades sempre tidas e reprimidas, resolver dar o cuzinho para seu conjugê, sentir vontade de liberar o enrugadinho, é melhor que se contenha, é melhor que segure o tesão na argola. Caso ceda ao libidinoso e pecaminoso desejo, terá um filho que sairá por aí a soltar a rabiola, todo saltitante e fagueiro.
Palavras do bispo : "Tudo acontece durante a gravidez, após um ato anormal entre os pais. Para ser mais claro, sexo anal. São Porfírio diz que, quando uma mulher gosta disso (sexo anal), um desejo nasce e ele é transferido para o filho".
Finalmente, descoberta e desvelada a causa da Síndrome Intrauterina da Viadagem Adquirida!!! Valha-me São Porfírio, o santo padroeiro da integridade das pregas!!!
Ah, as religiões e os religiosos... O que a humanidade faria sem vocês?
Acabo de me lembrar de que tenho um primo que é prima, primíssima, que desmunheca desde criança, filho da minha hoje septuagenária tia Célia. Quem diria, hein, tia Célia, quem diria... A senhora sempre tão quietinha, tímida, recatada e do lar. Devota de Frei Serapião. Quem suporia?
Jamais olharei para a tia Célia com os mesmos olhos.
Pããããããta que o pariu!!!

Bispo Morphou Neophytos

Nenhum comentário:

Postar um comentário