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De Quando Eu Gostava de Heróis

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Li quadrinhos de super-heróis por cerca de uns 20 anos, contínua e assiduamente, dos meus 12 anos aos meus 34, 35 anos. Então os heróis foram sendo modificados, modernizados, e eu desgostei deles. Se bem que é provável que eu acabasse desgostando de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde, coisas de velho. Velho tem disso, vai desgostando das coisas.

Quando eu ainda gostava de heróis, o meu preferido era o Capitão América, uma figura que sempre me fascinou. E não por conta de seus poderes extraordinários, que poderes extraordinários, ele não tinha nenhum. Claro que o cara tinha força e habilidades acrobáticas e marciais bem acima da média. Nada sobre-humano, contudo. Nada que um atleta nascido com um certo favorecimento genético e com férreas dedicação e disciplina não pudesse alcançar.
Apesar disso, curiosamente, ele sempre era o líder quando a coisa ficava preta demais para só um herói resolver e os Vingadores eram convocados e reunidos. O Capitão comandava, então, seres muitíssimo mais poderosos que ele : o Homem de Ferro (um tanque de guerra ambulante), o Visão (um sintozoide com controle da densidade corpórea), o gigante Golias (de força proporcional aos seus 12 metros de altura), os mutantes Mercúrio (um velocista capaz de quase quebrar a barreira do som) e Feiticeira Escarlate (com habilidade de alterar o campo das probalidades e realizar eventos virtualmente impossíveis, o que grosseiramente chamamos de bruxaria) e até um deus, Thor, o do Trovão, o Capitão tinha ao seu dispor; e esse deus com frequência se dizia honrado em atuar sob o comando do Capitão.
O fato desses seres superpoderosos obedecerem e seguirem cegamente ao Capitão me instigava à época.
Hoje, a razão dessa subordinação a um ser aparentemente inferior é clara. O verdadeiro superpoder do Capitão América era muito mais raro do que raios repulsores, martelos encantados, bruxarias ou força titânica. O verdadeiro superpoder do Capitão era a sua retidão de caráter e conduta, suas inabaláveis e incorruptíveis moral e ética, sua lisura de princípios. O Capitão dava credibilidade àquele grupo de - no fim das contas - desajustados.
Algumas situações eram recorrentes. Quando a casa estava para cair, quando os "mocinhos" estavam prestes a serem derrotados, no meio de todo o caos comum aos cenários de batalha, o Capitão surgia. Por entre os batentes de uma porta ou no alto de um prédio. Não fazia nem falava nada.
Apenas surgia.

E nunca vinha sozinho, a luz sempre o acompanhava (até a luz), sempre havia uma alvorada às suas costas. E o tempo parava por segundos, todos - mocinhos e bandidos - estacavam aparvalhados à visão do Capitão e seu escudo, todos "cagavam nas calças", nas palavras de um amigo meu. E esses poucos segundos eram os necessários e suficientes para os mocinhos virarem o jogo.
E daí que o cara veste o lábaro estadunidense? E daí que o cara vista uma bandeira? Todos não temos que vestir uma?
Talvez por isso eu gostasse tanto do Capitão. Ele não era o mais forte ou o mais rápido, ele era o mais probo e confiável, era o CDF dos super-heróis, o caxias. Eu não podia voar, lançar raios e nem era superforte, mas CDF eu podia ser.

E acho até que me dediquei em desenvolver a honorabilidade do Capitão durante algum tempo, por alguns e longos anos. Ser também um baluarte da integridade e da decência.
Eu deveria ter mais me dedicado em desenvolver uma fórmula que me conferisse poder de voo, superforça e invulnerabilidade. Ou peregrinar até um mosteiro no Tibet onde um monge me revelaria os segredos da invisibilidade, telepatia e telecinese. Ou me deixar picar por uma aranha ou qualquer outro inseto radiativo.
Em qualquer uma dessas improváveis empreitas, minhas chances teriam sido maiores.

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