BIRD BOX - UM LUGAR CEGO

By Ozymandias_Realista - janeiro 09, 2019



Não é novidade que a Netflix vem torrando rios de dinheiro para encher o seu catálogo o mais rápido que puder, até por saber que a concorrência irá aumentar muito nos próximos anos. Mas convenhamos que isso não vem significando que os assinantes vem saindo no lucro "com muito conteúdo para ver"...mas isso não é o assunto foco daqui.
E assim, no meio de um monte de coisa sendo lançada em curto espaço de tempo, veio uma das apostas principais da plataforma para o final do ano passado: Bird Box (inspirado no livro de Josh Malerman de mesmo nome) que causou um aue bem considerável por parte do público, com uns adorando o filme e outros...nem tanto. Então, decidi (algo que vinha sendo planejando a um tempo) falar um pouco sobre esse novo "divisor de águas" do momento. Sem mais delongas,vamos nessa:

Obs: Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que eu não vou falar do livro, muito menos comparar ou falar da fidelidade do filme frente a ele (pois não li). Logo, se por acaso você tiver interesse no mesmo, o Saitama deve falar um post posterior sobre (não sei se ele vai fazer alguma comparação com o filme) mas se fizer, ele deve ter mais moral para falar da adaptação do que eu (já que ele conhece o material fonte oras).
Continuando:



Bom, você já deve saber do o que o filme trata: há um mundo pós-apocalíptico, que nos é apresentado pelos olhos de Malorie (personagem de Sandra Bullock) que está grávida. Tudo no entanto parece relativamente normal, até que o caos começar a tomar conta graças a criaturas misteriosas, que fazem as pessoas chegarem ao ponto de se matarem (ou ficarem loucas de vez) só de olhar para elas, onde a protagonista (assim como os outros personagens ao longo da trama) são obrigados a usar vendas e outros métodos para não verem as criaturas e assim poderem se virar do jeito que dá, já que os bichos não podem fazer mal nenhum se não forem vistos....

Mas é claro que tudo não vai ser nenhum mar de rosas de facilidade.

Com isso estabelecido de forma clara já no início, o filme resolve trabalhar com duas linhas temporais que se intercalam durante a trama: enquanto uma delas apresenta a jornada de Malorie, Garoto e Garota (sim na maior parte do filme eles são chamados assim mesmo) na busca de um lugar seguro rio a abaixo, a outra se passa bem antes desses acontecimentos, para explicar todo o caminho trilhado pela protagonista até chegar ali.
E bem, como é de fato necessário para o caminhar da história alguns pequenos saltos temporais (que juntos formam o grande salto que separa as duas linhas de tempo) a divisão é justificável, até para dar uma explicação concreta. Apesar disso, o filme poderia ter explorado mas esse contexto, onde apesar de uma ou outra surpresa, a edição poderia ter sido um tanto mais eficaz se a apresentação dos conceitos se refletisse imediatamente em uma necessidade de aplicação ou reflexão na linha do futuro, como é bem colocado quando, por exemplo, um objeto que acaba de ser discutido no passado aparece no futuro na mão de uma das crianças. Não é algo que atrapalhe o filme, mas ao trabalhar junto do roteiro, isso poderia ter evitado alguns pontos de confusão que, mesmo resolvidos em algum ponto, poderiam trazer uma força maior em sua apresentação.

Mas sem essa ressalva, a direção de Susanne Bier segue sem tantos maiores erros: ao seguir o livro na decisão (certa) de escolher não mostrar os “monstros” que levam a civilização ao caos, a diretora trabalha bem o suficiente a câmera para que a aparição deles não seja necessária.
"Mas você disse que não leu o..."
Sim, não li. Mas eu sei que a premissa nesse ponto é igual oras!
Continuando:

Mas ainda assim, a "identidade visual" das criaturas que o filme deu (na forma de folhas ao vento) para mostrar sua proximidade...meio que tira um pouco do suspense que é criado quando ela é mostrada por sons (como vozes de entes queridos ou dos pássaros) que dão nome ao filme, o que ocasiona em um mau uso dessa mitologia que vem sendo "alimentada" dentro da própria proposta do longa. É algo que imagino que o livro sabe trabalhar melhor, não só pela execução mais por ter o fator de não ter de "mostrar" algo propriamente, mas sim de apenas montar um ambiente de tensão ao descrever uma situação.



Um bom exemplo comparativo do que estou a dizer quanto a isso é Um Lugar Silencioso: o filme de John Krasinski abraça seus conceitos desde o início ao ponto de abrir mão de fato do áudio para abraçar o silêncio, usando isso como uma maneira de colocar o espectador dentro de seu universo. É compreensível no entanto que é mais complicado fazer isso quando a questão é a visão (enquanto que com a fala fica aspas "mais fácil"), mas Bird Box poderia ter aproveitado melhor o uso de seus conceitos sonoros para deixar o público mais próximo dos personagens.
Mais eu gostaria de deixar claro: eu não sou de ficar fazendo comparações para julgar algo. Eu não gosto disso (quem leu o post que fiz do Mogli do Andy Serkis sabe disso) onde eu tentei ao máximo não ficar fazendo comparações com a versão do Jon Favreau, mesmo sendo inevitável por se basearem em uma mesma obra.
Aqui tentei o mesmo mais em escala maior, onde a única semelhança entre os filmes da vez é que ambos falam da necessidade de não usar um sentido, já que se você analisar mais a fundo, você vai concordar (ou ao menos entender) meu ponto:



1-Apesar de ambos utilizarem a perda de um sentido, já começa pelo óbvio já citado de serem sentidos diferentes: em Um Lugar Silencioso, a trama mostra o desafio dos Abbott em viver em silêncio tendo filhos. Além disso, a responsabilidade desse desafio inegavelmente aumenta com a morte do pequeno filho do casal (Beau), onde a falta de som é bastante utilizada na trama, até para criar momentos de tensão.
Já em Bird Box, a família liderada por Malorie tem como objetivo atravessar um grande rio para chegar a um lugar seguro, onde as vezes o filme conta até com momentos de ação com os "adoradores" dos bichos. O que ambos podem ter em comum, nesse ponto, é que são filmes sobre "acreditar", sobre "nunca cair em desespero" e sobre "continuar insistindo em querer viver não importa qual seja o desafio".
2-Outro ponto é como os longas retratam a vida dos sobreviventes: em Box, Malorie é basicamente uma realista fria que mesmo que se importe com o próximo, precisa botar primeiro como preocupação um jeito de continuar a viver no meio do caos, tendo de se adaptar a isso. Já Um Lugar Silencioso mostra os Abbott tendo uma vida normal (bote muitas aspas no "normal") onde fazem até ações comuns do cotidiano como um jantar em família por exemplo, o que mostra que eles passam por isso já faz algum tempo. O desafio principal aqui no entanto é quando Evelyn fica grávida e o casal precisa fazer o parto sem que os monstros ouçam o barulho.
E 3-Um Lugar Silencioso se passa praticamente todo na fazenda da família Abbott, onde é lá que se tem pistas de como está o mundo após a invasão dos monstros. Também é através das pesquisas de Lee (o pai da família) que se descobre que os aliens são cegos, chegaram por meteoros na Terra e matam porque são sensíveis ao som, onde o filme usa todos esses fatores só para retratar a vida de uma família nesse mundo.
Enquanto isso, Bird Box mostra como a sociedade entrou em colapso aos olhos de Malorie: o filme mostra como é estar em um grupo de sobreviventes e como o mundo se desfaz diante de seus olhos, ao mostrar ondas de violência até de algumas pessoas até então "confiáveis" para conquistar a sobrevivência.
Enfim, falando só do Box de novo:



Mesmo com aquilo que eu falei de que o tema poderia ter sido melhor aproveitando, um bom ponto do filme é perceptível justamente pela audição: a trilha sonora, assim como deve ser em um suspense, é bem trabalhada para os momentos de clímax, ao mesmo tempo que some nos momentos certos. Os créditos finais listam, literalmente, três canções. Assim, não há o problema de uma quebra proporcionada por música, como é comum ver em certos filmes.

Agora, se o longa tem um grande ponto alto de destaque, esse é o desempenho da protagonista: Sandra Bullock leva o peso de carregar o filme, apesar de outros personagens presentes. Já Sarah Paulson infelizmente tem pouco tempo de tela, participando do momento onde tudo explode para a gênese desse novo universo, onde sua participação acaba tendo importância por isso.


John Malkovich é outro nome que aparece bem no filme: seu personagem é o de mais destaque dentro dos secundários (ao menos no quesito dramático) onde sua relação com a personagem de Bullock é uma das melhores. Lil Rel Howery é outra atuação destacável,visto que seu personagem é crucial para a apresentação de diversos conceitos de sobrevivência ao mesmo tempo que serve para descartar a necessidade de explicação do fenômeno ocorrente por parte dos personagens.
Enfim, todos os personagens apresentados com a chegada do fenômeno servem ao menos para explanar as mais diferentes reações que se possam ter ao novo panorama criado pelo apocalipse, com exceção de duas delas: Cheryl, interpretada por Jacki Weaver, apesar de participar efetivamente da trama, não adiciona muito. Já Tom (vivido por Trevante Rhodes) apesar da boa atuação, pode ser mencionado da mesma forma.


No fim, Bird Box é um filme...bom. Ele funciona como entretenimento, mas não se entrega em toda a sua plenitude quando tenta retratar dramas pessoais e determinadas partes de suspense. Sandra Bullock desempenha sem dúvidas uma boa atuação, mas mesmo esta perde um pouco de força já que o filme não conversa totalmente consigo mesmo como se fosse um todo, apesar de funcionar. E quando os elementos conseguem se completar, se vê que o longa poderia ser melhor em certos pontos.
Mas como dito: o filme pode não se marcar como um dos melhores do ano que foi lançado, mas é um filme que dá pra entreter (eu pelo menos gostei apesar de tudo), fora o fato de eu não ter conhecimento do livro.
Além do mais, se comparar esse com outros filmes originais da Netflix como Vende-se Esta Casa, Extinção...ele chega a ser "estupendo". Ou você quer que eu te lembre que eles lançaram:


ISSO AI. 

Texto escrito por: RiptorBR

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