OS ANOS 2000


 

OS ANOS 2000 FORAM PRÓDIGOS. Lembro que me sentia como um pedestre diante de uma faixa de segurança, querendo atravessar uma rua, mas pensando nos riscos de sofrer um sério acidente. Era uma espécie de prova em que, se escapasse, e mesmo assim, me arrancariam um braço ou uma orelha. Não riam. A pior das piadas é aquela em que se é a personagem principal, e na melhor das hipóteses. Não se iludam. E não se deixem enganar pelos prodígios.

            De repente os celulares começaram a ser usados como walkie-talkies, segurados na posição horizontal, as mensagens trocadas de uma forma que eu esperava que falassem ao fim de cada uma: “câmbio” e, ao final de conversa, “câmbio e desligo”.  Foi interessante como a utilidade e o uso dos objetos se diversificaram, como o dos espaços. E as “artes” passaram a ser invadidas por aluviões de criatividade, principalmente nas produções musicais que, muitas vezes, eu não fazia ideia do que significava a letra de uma canção, nem dos arranjos atropelados. Certa vez escutei, por exemplo, “Ne me Quitte pas”, do Jacques Brell em ritmo de xaxado, num arranjo encomendado por uma cantora famosa, que tinha, e tem, uma voz de taquara rachada.

            Além disso, o advento furioso das chamadas “redes sociais” tornou a virtualidade uma assinatura do real, tornando o espaço das relações uma falácia. Os celulares se tornaram também uma via de intermediação entre as pessoas, resguardadas pela irresponsabilidade da distância e pelo descompromisso. Instagram, Facebook, Twitter passaram a regular e normatizar as relações entre pessoas, tornando-as mais tranquilas no registro do cotidiano. Uma indisciplinada necessidade de afirmação passou a vigorar através dos registros fotográficos, e, por exemplo, dos vídeos em que “profissionais” faziam, e fazem, palestras, falando dos mais diversos temas, exercitando o poder de uma “ordem” dita científica, para dizer às pessoas o que elas deveriam fazer a respeito disso ou daquilo. Médicos, das mais diversas especialidades psicólogos, pedagogos e até mesmo os especialistas em ervas e temperos, além daqueles que aconselham como regar e adubar as plantas. Sim, qualquer um, então, passou a poder publicar suas “experiências” para se sentir bem melhores como exemplos dignos de ser seguidos. Ou seriam quaisquer uns? Consequentemente, “todos” lançaram mão do direito de emitir, cada um, sua opinião, querendo fazê-la valer perante os outros. Os “achismos” se propagaram, e ainda se propagam, em pleno século XXI, semelhantes àquelas maldições lançadas pelas bruxas de carteirinha durante plena Idade Média, antes de serem queimadas nas fogueiras. Deus nos acuda!

            As pessoas começaram a se sentir garantidas pelos avanços tecnológicos, os computadores se sobressaíram, a preguiça tomou conta das pessoas, porque bastava um clique para a realização de uma tarefa que antes durava uma hora ou duas. Mas o horror! O horror! Se, de vez em quando, o “sistema” saísse do ar. Tudo para que nada funcionasse, quando isso acontecia. A solução de um problema desse tipo passou a não existir. Passou-se a aprender o uso do computador, de seus programas e programações, jamais de como resolver tal ou tais problemas. Desaprendeu-se procedimentos, aprendeu-se o manejo de um teclado que abre programas, programações. As pessoas mergulharam nesse tipo de escravidão, recebendo os méritos decorrentes dela. Surgiram os mestres programadores, os analistas de “sistemas”, os manuais que somente seus autores sabiam decifrar. E surgiram também os “aplicativos” que subtraíram as ações humanas, rebaixando-as a meros toques que, em sequência, realizavam, e realizam quaisquer tarefas para as quais foram criados.

            Por outro lado, e estranhamente, pareceram surgir “esquemas compensatórios” para as relações através da “redes sociais”. Os bares começaram a parecer mais cheios, de quarta-feira a sábado, onde as pessoas comentavam e narravam suas intimidades, reunidas em torno de copos de vinho ou de cerveja, situação em que as narrativas e comentários ocorriam com uma espécie de distanciamento, em que pareciam falar de outros cada um quando falavam exatamente de si mesmas. Essa é, de fato, a estranheza que perdura até hoje, a reboque das redes sociais, o que caracteriza uma espécie de desconexão entre os fatos e os sentimentos. Começam a exorbitar as documentações desses encontros. As fotografias são os principais registros, acrescentado as filmagens de curta duração. E cada um desses registros parece vir acompanhado de uma espécie inesquecível de gozo. As pessoas pareciam se tornar mais vazias, seus “conteúdos” se dispersavam, e se dispersam, restando somente as oportunidades de dividir seus vazios, como se um espaço de significação se tivesse evaporado, numa evocação sempre irresponsável de uma vida que não viviam. Uma palavra se tornou comum entre as pessoas: “compartilhar”, quando se queria dizer “dividir”, porque não se compartilha nada, o que é meu é meu, e o que é seu. Eu me lembrava, e me lembro, daquela história em que duas mulheres disputavam a posse de uma criança diante do rei Salomão, cada uma se dizendo mãe dela. Quando o rei propôs dividir a criança ao meio, a verdadeira mãe, num ato de renúncia, desistiu da reclamação e teve seu filho de volta. Os anglicismos invadiram a língua “brasileira”, os empréstimos de palavras em inglês se tornaram adoções, desqualificando a gramática e a língua, com se falássemos um idioma pobre e carente de vocábulos.  

            E as moções ideológicas se multiplicaram como bactérias numa poça de lama, atribuindo, por exemplo, ao sexo uma diversidade “escandalosa”. Os porta-vozes de “minorias” exibiam, e exibem, suas tarjas das mais diversas cores, usando um vocabulário no mínimo esquisito, fabricando siglas identitárias que distorcem as concepções de gênero, atribuindo-se um progressismo divino, com se cada um pudesse tornar a própria vida aquilo que ela jamais foi, fora ou seria. Aventam a hipótese de que se poderia ser qualquer coisa, como se vida mesma se houvesse tornado um outro e a partir disso o sujeito não cessasse de se conquistar para vestir a máscara convincente do que escolhera. Tudo passou a ser relativo diante das aparências, pois, de repente, peras poderiam ser abacates e bananas podiam ser amoras. Passamos a viver a tirania da opinião, ou, quem sabe, do gosto, dos quais todo o mundo tem um, embora, nesse caso cada um os quisesse impor como verdade. Vejam só!

            A partir dos anos 2000, ainda dentro das multiplicações ideológicas, foi proposta um tal “linguagem ou gênero neutro”, tornando a língua portuguesa o alvo de analfabetos funcionais, cuja ignorância era, e é, palpável. Esses ignorantes abusivos exibem seu analfabetismo como o equivalente à estupidez. Seu desconhecimento de que o masculino e o feminino se definem pelo artigo que antecede a palavra é mágico, e se tenta impor uma gramática que não existe na língua. De repente, uma distorção desse tipo é imposta como novo “traço cultural” que se impõe goela abaixo, embora a falta de consciência da realidade seja vista e revista pelos olhos de ver e os ouvidos de ouvir. Não vou me dar ao trabalho de exemplificar tal atrocidade, porque tudo se tornou desinteressante. A realidade se esfumou diante de meus olhos como um balaio velho que se desgasta e não comporta mais sua utilidade, ele se dissolve aos pedaços, transformando-se em pó.

            Nos anos 2000, também, os “ismos” se tornaram vias de expressão da intolerância. A realidade tornou-se presa dos sectários, todos, e cada um, querendo fazer valer as mais variadas distorções, tornando a vida um acúmulo de narrativas, cuja superposição impunham pontos de vista tão defasados que faziam pensar que estávamos vivendo em Marte ou em Vênus. Os “feminismos” passaram a alimentar uma distorção entre gênero e sexo, tornando confusas as concepções milenares de identidade sexual e posições de gênero, tornando difícil lidar com a diferença que, de fato, limita as posições em que se situam cada um no mundo. Então, conviver se tornou excepcionalmente difícil, porque os outros, cada um, passaram a se basear em modelos que se assemelham mais a concepções ideológicas que assentavam como carapuças em suas cabeças que os definiam. De repente, homens se “tornaram” mulheres porque assim se sentiam e vice-versa, e passaram a ser homens e mulheres “trans”, alimentando uma denegação do próprio sexo original. E se tornou comum pensar a naturalidade desses posicionamentos para demonstrar mentalidade progressista.

            Todavia, o progresso tornou-se, tão somente, material, ao revés dos avanços “tecnológicos” e do fascínio pelas facilidades que passariam a determinar a condição humana como a relativização da vida, do amor a da morte. Assim sendo, os anos 2000, instalando-se como a abertura do século XXI, colocou para a humanidade uma perspectiva do futuro que faz dos habitantes do mundo meras personagens de narrativas assustadoras que se opõem umas às outras, competindo por sobressair-se.