A saga do Senhor do Tempo - O fim da fase da Legião dos Super Heróis de Paul Levitz

 



A  fase de Paul Levitz  Legião dos Super Heróis é uma das maiores fases na histórias dos quadrinhos, estando no mesmo patamar que o Monstro do Pântano de Alan Moore e Lanterna Verde do Geoff Johns. Embora não tenha sido o criador do grupo (esses foram Otto Binder o artista Al Plastino em Adventure Comics nº247, em 1958), Leviz foi o autor que escreveu a revista dos legionários por 2 décadas.



Desde a metade dos anos 70 ao final dos anos 80, a fase de Levitz é considerada, por muitos, como a fase definitiva da Legião dos Super Heróis, sendo conhecida por suas aventuras de escala cósmica, dilemas morais, relacionamentos e dramas pessoais e um excelente equilíbrio de foco entre personagens de um grande elenco.

Foi nesse periodo que Levitz escreveu algumas das histórias mais famosas da Legião, incluindo Guerra Terrena (Superboy and the Legion of Super-Heroes nº241-245), Olho por olho (Legion of Super-Heroes Vol. 3 nº01 a 05) e, a mais famosa, a Saga da Grande Escuridão (Legion of Super-Heroes Vol. 2 nº290-294).





Mas um arco que é um grande seu talento e criatividade como escritor é A saga do Senhor do Tempo.

Diferente das outras citadas. Essa história foi uma saga bem mais complexa, que foi construída através de vários diferentes arcos e sub-tramas durante a fase de Levitz na hq da Legião e seus spin-offs



Todas essas histórias citadas, quando lidas em conjunto, formavam uma grande saga, mostrando os legionários em um batalha contra o Senhor do Tempo, um dos seus maiores inimigos, e também um dos maiores vilões da DC comics.

Tendo aprendido sobre essa saga por um usuário no twitter/x, decidi conferir e, devo dizer, não só achei um arco emocionante mas também surpreendente pela forma como Paul Levitz conseguiu manter sua qualidade, apesar de situações complicadas acontecendo nos bastidores da DC na época.

Agora, através desse texto, pretendo compartilhar minha review dessa saga e o que um dos eventos tão subestimado. Confiram abaixo...

Trama

No século XXX, três jovens aliens (Rok, Garth e Imra) usaram seus poderes para salvar a vida do milionário R.J Brande de um atentado. Grato pela ajuda deles, o senhor rico convenceu o trio a permanecerem juntos, como parte de uma força-tarefa que ele estaria financiando para protegerem os Planetas Unidos e lutar pelos ideais inspirados pela lenda do Superboy. Esse dia foi o nascimento da Legião dos Super Heróis




Com o passar dos anos, o grupo cresceu, recebendo jovem meta-humanos e aliens dos vários cantos do universo, assim como heróis do passado, como seu ídolo o Superboy e sua prima, Kara Zor-El, a Supergirl.







Em suas aventuras, eles enfrentaram várias ameaças cósmicas e adversários poderosos, como os Cinco Fatais, o mago Mordru e Darkseid. Desses inimigos, um dos mais desafiadores foi o Senhor do Tempo, um tirano calculista misterioso que vivia no Fim do Tempo que executava seus planos pelas sombras. Não importava quanto os legionários se esforçassem, o vilão sempre fugia de volta para seu covil, protegido por uma barreira que impedia os heróis de alcança-lo.



Quando o universo foi ameaçado pelo na Crise das Infinitas Terras, a Legião teve uma participação, ao lado de outros heróis, em impedir que Anti Monitor destruísse toda realidade. Infelizmente, o evento concluiu de forma trágica, com Supergirl tendo perdido sua vida para derrotar o Anti-Monitor.



Durante uma viagem de férias ao século XX, os legionários Rapaz Cósmico e sua namorada Noturna, se encontraram com o Superman. Ao perceber que o herói não tinha recordação deles, o casal fez pesquisa sobre as alterações feitas na linha do tempo após a crise e descobriram que, nessa nova continuidade, Clark Kent nunca tinha sido Superboy. 

Isso cria uma grande inconsistência, afinal se Superman nunca foi o Superboy, como que os legionário, que surgiram inspirados pela versão jovem do homem de aço, ainda existem?



Ao tentarem voltar para sua época, Rapaz Cósmico e Noturna acabam sendo transportados para Fim do Tempo pelo Senhor do Tempo, que se revela o arquiteto da preservação da época da Legião, tendo transportado eles para um universo compacto, como parte de um esquema para poder invadir o século XXX.



Passando por vários desafios mortais, Rapaz Cósmico e Noturna conseguem escapar de volta para sua época, avisando os legionários sobre a ameaça do Senhor do Tempo, dando inicio a uma das tramas mais elaboradas, cheia de revelações, momentos chocantes e dilemas profundos que levam os heróis além de seus limites.

Paul Levitz vs Furos da Crise



Como deu para perceber pela descrição da trama, esse arco foi feito para “consertar” os furos da continuidade após o reboot da Crise das Infinitas Terras. 

Mesmo que as histórias da Legião se passassem no futuro distante e afastado das histórias da DC, a conexão com Superboy e seu papel para inspirar o grupo era um detalhe que não dava para ser ignorado.

Pode-se dizer que era desnecessário Paul Levitz mexer com isso, visto que ele poderia concluir sua fase na Legião e quem assumisse o título, depois, se encarregava de fazer um reboot. Porém, Levitz optou por não fazer isso. Afinal, um dos aspectos mais interessantes da Legião era que as histórias do grupo destacavam o efeito que a vida deles como heróis tinha no grupo, suas perdas, traumas e sacríficos pessoais.

Obs: Sim, esse arco tem a morte do Superboy, com Levitz dando ao garoto de aço um ultimo destaque, com ele dando sua vida para salvar seu mundo e amigos.

 


Portanto, ao invés de ignorar o problema, Paul Levitz fez do limão uma limonada, se aproveitando o cenário sci-fy da Legião para criar um drama bem cativante, expondo o impacto que a Crise teve nos legionários, como custou não só a vida de amigos queridos (Superboy e Supergirl) mas também sua própria existência.

A ideia não foi feita sem riscos. É bem provável que muitos fãs leitores tenham ficado frustrados ao saber que as ações do Senhor do Tempo retconizaram as histórias que acompanharam da Legião com Superboy. Felizmente. Levitz faz essa insatisfação ser refletida nos personagens, sem parecer que ele está zombando os leitores, como alguns autores acabam fazendo. 

Ele também se aproveita desse fato para destacar a crueldade do Senhor do Tempo em como ele manipula os legionários em níveis tão baixos para “tornar seu jogo mais interessante”.


O criador da auto-destruição

Quem assistiu o filme “Vingadores Era de Ultron” deve se lembrar de uma das frases do vilão titulo “Homens de paz, criam maquinas de guerra”. A expressão reflete a ideia de que nós somos arquitetos de nossas próprias quedas. Nós criamos os instrumentos de nossa destruição.



Embora tenha sido a temática do segundo filme dos Heróis mais poderosos da Terra, isso chegou a ser explorado em várias ocasiões na literatura, como Frankenstein de Mary Shelby ou Hamlet. Até mesmo hqs de super heróis e adaptações brincaram com o conceito, tendo o herói ou vilão tendo feito algo que levou o outro a se tornar seu maior inimigo.



Na Saga do Senhor do Tempo, esse conceito é explorado pela rivalidade da Legião com o mestre do Fim do Tempo. Ele pode aparentar ser um tirano viajante do tempo em busca de poder, mas, no fundo, Senhor do Tempo é movido por uma questão de orgulho. 

Conforme revelado pelo próprio, ele foi responsável pelos eventos que levaram a criação da Legião dos Super Heróis, como forma de ter alguém para desafia-lo. Por causa de sua visão cínica da vida, de que todos estão destinados a serem destruídos, ele está confiante de que conseguiria vencer os heróis.



No entanto, conforme seus planos foram sendo frustrados pela Legião, eles foram provando o erro da visão do Senhor do Tempo, de que ele não possui controle sobre outros como imagina e que seu império no Fim do Tempo, que ele julga ser inevitável, também não irá durar. É a recusa do Senhor do Tempo em aceitar sua incapacidade de controlar o destino que o leva a ser derrotado pelos heróis que ele tecnicamente criou.

Apesar de ser quase um deus, essa obsessão do Senhor do Tempo em tentar manipular os legionários e faze-los participar de seus jogos atormentadores contribui para dar humanidade para o vilão, tornando-o uma representação de figuras abusivas, que optam por reagir com violência diante sua incapacidade de controlarem outros.





Como contraponto ao Senhor do Tempo, temos os membros da Legião dos heróis, que são mostrados sendo pessoas bem intencionadas, mas falíveis, lidando com dramas pessoais, podendo se deixar levar por emoções e realizarem ações questionáveis para atingir seus objetivos, o que inclui mentirem e manipularem seus companheiros. Isso resulta neles sofrendo graves consequências.



Só que, ao contrário do vilão, os legionários optam por encarar as consequências de seus atos e tentam seguir em frente. Eles aceitam as mudanças na vida ao invés de tentar lutar contra elas. 

É uma temática que fica obvia no grande clímax, quando Mon-El opta por eliminar o Senhor do Tempo mesmo sabendo que isso provocaria mudanças na vida deles, deixando claro que ninguém pode controlar o destino de outros. Só podemos criar nosso caminho e ser capaz de viver com as consequências de nossos atos.



Considerações finais

Um azar de um personagem ou grupo não ser principal da editora é que muitas histórias boas acabam passando despercebidas por grande parte do público leitor. Infelizmente é a situação com a Legião dos Super Heróis em várias ocasiões. Com algumas exceções (como Saga da Grande Escuridão e Superman & Legião de Geoff Johns), muitas histórias deles acabam não sendo tão faladas hoje em dia.

Por isso A Saga do Senhor do Tempo é uma história que recomendo, não só por ser um arco bem escrito, mas também um excelente encerramento da fase de Paul Levitz  na Legião (cujo volume da revista seria cancelado após 2 ultimas edições), com ele deixando uma forte mensagem para os leitores e os autores que assumiram com sua saída.

Nota: 8/10

 


 Então é isso! Concordam comigo? Discordam? Qual a opinião de vocês sobre A saga do Mestre do Tempo? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões nos comentários abaixo.