Vocês conhecem o Spidey?
Acho que boa parte dos comentaristas deve conhecer ele, principalmente pelo Discord.
Não
sou muito ativo naquela rede (acho que na verdade, só devo ser “ativo” no
Telegram na parte dos canais), mas de vez em quando troco uma ideia com o
Spidey no Zap. Gosto de brincar com o Spidey que ele é basicamente uma versão
minha que deu certo, a gente tem algumas similaridades na forma como cada um
foi colocado no jogo desse mundo, e claro, somos fãs do Aranha, que é
provavelmente o super-herói mais carismático já criado nas páginas dos
quadrinhos. E claro, o Spidey tanto que pela fé e forma como consegue se manter
fiel aos dogmas, é um cara muito mais otimista do que eu.
Moramos
em cidades quase que vizinhas (Gotham e Metrópoles?) e já tinha encontrado ele
duas vezes, uma numa praça pra entregar um gibi que eu acredito que ele ia
gostar, e outra foi num almoço. Ele tinha falado da possibilidade da gente ver
esse filme do Aranha no cinema, eu confesso que eu tava com pouca ou nenhuma
expectativa. Ser fã do Aranha hoje em dia é uma parada complicada. Você pega um
game pra jogar, e o mesmo tem uma gameplay sensacional, mas uma história que
parece odiar o Peter Parker, nas mensais do universo principal, nem se fala. O
Ultimate atual até que tentou, mas na minha visão não chega aos pés do Ultimate
original.
E
claro, existem esses filmes com o Tom Holland.

O melhor traje, mas num filme que não honra isso.
O
meu Aranha preferido sempre foi o da primeira trilogia. Os três filmes, mesmo o
terceiro que é uma bagunça, eu sempre achei filmes feitos com coração, posso um
dia falar mais só sobre isso. Em suma, são filmes que eu levo pra vida, sempre
que eu penso sobre resiliência, responsabilidades e até perdão.
Os
dois filmes com o Garfield, tiveram como acerto a movimentação do Aranha e o
humor dele, isso é inegável, além de ter melhores efeitos pra época. Mas,
quando comparado os vilões e coadjuvantes, perdia feio, mesmo que tivesse
potencial pra ter um terceiro ótimo filme ao contrário dos dois primeiros,
aquele final com o Aranha indo em direção ao Rino sinalizava isso.
Só
que... De volta ao Holland. Quando essa versão do Aranha apareceu lá no
terceiro filme do Capitão, seguramente ele roubou a cena. Até então, ao menos
em combate e movimentação, era o Homem-Aranha mais fiel no cinema. Tamanho não
foi o chute nas bolas quando eu fui no cinema ver o “De Volta ao Lar”.
Na
época, eu realmente fiquei muito puto na sessão, tanto que não vi o seguinte no
cinema. Vendo aquele filme eu tinha a sensação de que alguém tinha pego um
desenho bem bonito e feito um monte de rabiscos em cima. O Abutre do filme é um
bom antagonista, ameaçador em algum nível (acredito que até mais do que o dos
quadrinhos), existiam ainda algumas lições sobre curva de aprendizado, do Peter
vendo que o guerreiro que faz a armadura e não a armadura que faz o guerreiro,
mas, no geral, eu via uma completa desconfiguração de todo aquele aquele
universo que eu tinha crescido lendo.
O
filme seguinte, com o Mystério, eu larguei na metade, até hoje eu tenho que
terminar de ver. Mais precisamente na parte onde o Mystério consegue o óculos,
foi demais pra mim, eu me senti insultado enquanto público, semelhante a outras
cenas de filmes da Marvel como “a verdade por trás do Mandarim” lá em Homem de
Ferro 3.
Aí
teve aquele último filme, que foi “um dia desses” reunindo os três Aranhas. E
por mais que muita gente tentasse tapar o Sol com a peneira, a verdade tava bem
exposta com o sucesso daquele filme: O Holland até então era o Aranha mais
fraco dos três, e precisou dos outros dois, mais especificamente o Tobey pro
filme dele “bombar”, fora os vilões dos outros filmes. Só que no final daquele
filme, que marcou mais pelo hype, e que se visto hoje em dia ainda é um filme
bem irregular, a gente “ganhava” uma prévia de como deveria ter sido o Aranha
desde do começo.
E é
esse o começo acertado desse filme, isso foi mantido. Apesar do personagem
ainda manter alguma tecnologia, como suas versões mais contemporâneas, aqui o
Peter realmente fica mais “raiz” e focado no trabalho de combate ao crime.
Mesmo que a principio o filme coloque isso como ele em estado de “negação”, ou
usando isso como válcula de escape pra não enfrentar outros problemas, isso
sempre foi comum no personagem, que sai todos os dias na mão com uma porrada de
vilões e volta pra casa arrebentado e pedindo por mais no outro dia, sem equipe
de suporte, no máximo contando com a ajuda de uma versão bem sem inspiração da
Jean DeWolf (ao menos, foi o Spidey que me disse que era uma adaptação da
personagem, por mim, ela poderia ter qualquer outro nome, ou poderiam ter trazido
a capitã Yuri Watanabe dos games, se a DeWolf original não se encaixa nos
moldes arquétipos atuais.
Sem
entregar muito para aqueles que ainda vão ver o filme, um dos subtextos do
longa é sobre o controle da própria natureza. Peter passa por um processo
(acredito que inspirado no arco “O Outro”, que nunca li completo) onde seus
poderes serão ampliados e seu principal antagonismo no filme, um inimigo a
principio sem rosto, enfrenta um dilema parecido, embora movido pela vingança.
As participações especiais somam ao filme, como o Justiceiro e o Hulk, só que
sem o Aranha perder o foco, já que agora ele passa por um arco de curva de
aprendizado digno do personagem. Como os trailers entregam, nos deixam lembrar
do Hulk que 99% do público gosta, mesmo que só por alguns minutos, e o Justiceiro,
apesar de não matar ninguém, ficou encaixado na trama de forma surpreendentemente
boa, todas as interações dele com o Peter são os pontos altos do filme.
Há
muitos anos que o Justiceiro, tanto nos quadrinhos, como nas séries (como a do
Demolidor, por exemplo, onde o Murdock consegue ser mais empático até com o
Mercenário do que com o Frank) é tratado como se fosse um vilão maior do que os
vilões, um tipo de mal absoluto que deve ser repudiado e feito de saco de
pancadas o mais rápido possível. Mas, aqui, de forma surpreendente, por mais
que o Aranha tenha o conflito natural ideológico com o Justiceiro, ele no fundo
trata o Frank com respeito, e a recíproca é verdadeira, e até os anos 90, isso
costumava ser normal nos quadrinhos. O Aranha deixava claro que não ia deixar o
Frank matar ninguém, o Frank se comportava até determinado ponto e o team-up
era feito, assim como o Aranha faz team-ups até hoje com outros notórios
assassinos da Marvel como o próprio Wolverine sem ter palestrinha.
Eu
peguei muita inspiração desse filme no Homem-Aranha 2, só que adaptado a tempos
pós-MCU, mas, antes que você levante esse tijolo que tá na sua mão, isso não
significa que o filme no fundo tenha o mesmo coração que o filme de 2004. Cada
dia eu tô aceitando mais isso de que “Nenhum homem pode banhar-se duas
vezes no mesmo rio... pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco
o homem!”. Lembro uma vez, acho que lá por 2009 (onde eu tava
maravilhado com o filme do Watchmen), conversando um velho desenhista que eu tinha
conhecido na internet pelo Orkut, eu perguntei a ele se um dia iam fazer uma HQ
melhor do que essa obra-prima do Moore, e ele me respondeu algo como “acredito
que não, mas, isso não é um problema. O que passou, marcou, mas nós temos
sempre que estar aberto a coisas novas.”
E
isso ficou ecoando na minha mente por anos. Era um senhor já perto dos 70, que
talvez nem esteja mais entre nós, mas que tava com a mente mais aberta que a
minha, nessa época um jovem metido a trevoso de internet que ficava brigando
nas redes, me sentindo muito acima dos meros mortais e sem nem mesmo ter chegado
aos meus 20 anos.
Isso ecoa com o que eu tava conversando brevemente no Telegram hoje.
Por mais que a
marca “Homem-Aranha” hoje deva ser muito mais lucrativa, os últimos anos foram
difíceis pra ser fã do Peter Parker. Você tinha filmes onde ele não era um
protagonista da própria história, com os filmes sendo mais um spin-off do Homem
de Ferro. Você ia jogar com o seu herói favorito pra se divertir, e depois de
um jogo bom, porém superestimado de 2018, os caras conseguem entregar uma
continuação que brilha no gameplay, mas parece preocupada em anular e capar ao
máximo a persona do Peter, como muitos jogos da Sony dos últimos anos (tomara
que os fãs do Wolverine em breve não passem pela mesma frustração que eu
passei), em vez da mensagem servir à história, é a história que tem que servir
à mensagem. Aí você procura uma série animada pra assistir com o personagem,
até mesmo pra mostrar pros filhos e não acha uma decente, tendo que ir rever a
dos anos 90.
Eu
cresci de fato com o personagem nos anos 2000. Logicamente que saiu muita
tralha nesse meio, mas, o que a gente tinha? Você pegava pra ler a mensal
principal do personagem, e tava o JMS e o Romitinha de fato atualizando e
amadurecendo o personagem (mesmo que se tratando de mensais, boa parte disso fosse
desfeito depois). No universo Ultimate, com o Bendis e o Bagley eu tive até
hoje a melhor representação do personagem. No cinema, a gente tinha toda uma
trilogia que introduziu o personagem a todo um público novo (e eu era um deles)
que não a toa, foram no cinema no filme anterior a esse apenas para rever “o verdadeiro
Homem-Aranha”. Nos games, o personagem tava evoluindo a cada game, o personagem
no PS1 já era algo absurdo pra época, mas na geração do PS2 cada game
apresentava uma melhora considerável de qualidade. Os devs não tavam
preocupados sobre em quem você andava votando, a missão deles era a cada game
fazer você se sentir mais como o personagem. E nas séries animadas, a gente
tinha tido “a série animada” (que eu gosto, mas dividiu muita gente, era um
híbrido entre os filmes do Maguire e o universo Ultimate), mas logo depois a
gente tinha tido “O Espetacular Homem-Aranha”, seguramente a melhor série
animada do personagem até hoje, e a última que foi unanimidade entre os fãs (o
próprio Spidey tava fazendo cosplay do Peter com o Venom nessa série, olhe
bem:)

Meu game preferido do personagem até hoje, tô até rejogando, agora com 🏆
Exposto
tudo isso, esse filme é uma prova de que sim, quando eles querem e há gente que
realmente goste do personagem envolvida no projeto, eles podem fazer o
personagem do jeito que os fãs gostam. O barulho insurdecedor das pessoas depois
de uma trilogia irregular com aquele final do filme anterior, onde um Peter pobre
e solitário, com um traje normal saia por Nova York mostrava o que as pessoas
sempre quiseram e não recebiam, e ainda bem que agora, sim, recebemos. Se isso
vai ser mantido, eu honestamente não sei. Pode ser que no filme dos Vingadores
metam de novo um novo traje estilo HDF pra ele como fizeram em Guerra Infinita
e esse filme fique como um acerto solto, pode ser que não.
Há
muitas “coincidências” no filme, que seguramente diminuiriam a minha nota
revendo ele, nem mesmo sei se vou rever no cinema. Mas, como primeira
impressão, e tendo maturado sobre o filme por dois dias antes de publicar esse
texto pra vocês, deixo um 8.0 sincero e abaixo alguns pontos positivos e
negativos, similar ao que a gente tinha nas saudosas revistas de games:
|
👍 |
👎 |
|
Peter finalmente aprendendo responsabilidades,
sem precisar de um tutor dessa vez, bem como arcando com as consequências das
suas escolhas. ✅ Movimentação muito melhor, tanto em
combate, quanto pela cidade, muito mais parecida com os quadrinhos (bem como
games do PS4 pra cá). ✅ Uma trama, que apesar de haver toda ainda uma
escala maior, é muito mais urbana e que serve mais ao tipo de trama onde o
personagem brilha. ✅ |
Muitos vilões clássicos que apareceram só
de fan service com referência pra capas de HQs. ❌ Ausência de um vilão final marcante, bem
como trilha sonora bem esquecível. ❌ A insistência de ainda manter os coadjuvantes
pouco queridos dos filmes anteriores pode contrariar muita gente que esperava
um reboot mais honesto, mesmo que esses personagens sejam escritos de forma
melhor nesse filme. ❌ |
E o
Spidey, hein?
A
gente ainda conversou e caminhou por algumas horas, discutindo sobre fé,
geopolítica, como cada um quebrou a cara de forma diferente na adolescência e
sobre gibis. É impressionante como o cara tinha passado meses lendo e
discutindo rumores a ponto de que ele já sabia o filme quase inteiro antes de
ver. Enquanto a gente via o filme e discutia na sala de cinema (que devia tá em
menos de 20% da capacidade ocupada, tempos sombrios pra 7ª arte), eu perguntava
se ele num era um dos produtores do filme com um roteiro ali debaixo do braço.
Eu fui ver o filme em completa ignorância, só sabendo o que eu tinha visto em
dois trailers e sem nenhum hype. Já ele, sabia quem tinha dirigido, quem fez as
coreografias de luta (muita boas por sinal), reconheceu a maioria das
referências segundos na minha frente a ponto de que cheguei até a desconfiar
que secretamente ele seja um dos roteiristas do famoso canal Sessão Nerd.
A minha
ideia é que esse post tivesse um texto A e B nele, dando duas visões sobre o
filme, mas nem mesmo sei ele já começou a escrever a parte dele, e essa minha
eu enrolei por dias pra terminar, preferindo indo jogar no meu emulador de PS2 e
ficar colocando ISOs lá no canal.
Você
viu o filme e gostou? Discorda de algo que eu disse? Acha que eu tô sendo muito
generoso com o filme? Deixe aí nos comentários. A verdade é que antes desse, o
último filme bom do MCU pra mim tinha sido o Deadpool e Wolverine.
Dado
o curto tempo, com a vida real chamando, esse texto vai ser publicado agora, “cru”
e poderá passar por revisões.

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