
Depois de Superman,
o próximo filme do DCU seria o da priminha do herói, interpretada por Milly Alcock,
atriz conhecida pela série A Casa do Dragão. Será que um novo filme da
heroína vingaria? Bom, já se sabe que não, com base na bilheteria. No entanto,
assisti ao filme, e ele tem seus altos e baixos.
Em retrospecto, a própria Supergirl teve seus altos e baixos como personagem. Na década de 80, ela estava em baixa. O filme com Helen Slater de 1984 foi um grande fracasso de bilheteria, o que condenou a heroína à morte nas HQs na saga Crise nas Infinitas Terras. Vale dizer que, na época, Supergirl era a personagem do “primeiro time”, digamos assim, que menos vendia HQs, ao lado do Flash Barry Allen. Tanto que eles foram os dois personagens mais importantes da DC que foram mortos na saga.
Todavia, apesar de
estar em baixa, a DC quis resgatar a personagem, por conta de seu apelo
comercial. Foram criadas as Supergirl Matriz por John Byrne e a Supergirl Linda
Danvers por Peter David. Na série animada do Superman dos anos 90, a Supergirl
Kara-El é introduzida. A heroína ainda apareceu na série Smallville,
interpretada por Laura Vandervoort, e ganhou série própria na Warner
interpretada por Melissa Benoist. Creio que, em razão da moda nerd/geek,
as meninas também tinham carência nerd nesse universo predominantemente
masculino, e a Supergirl voltou a ter apelo popular.
Dessa forma, quando James Gunn anunciou um filme protagonizado pela heroína e que esse filme seria baseado na HQ Mulher do Amanhã, escrita por Tom King, especulou-se como seria o longa e como seria a Supergirl, uma vez que nessa HQ a heroína vive bêbada. Ou seja, pegaram a única história que a personagem fica enxugando. Em todas as outras HQs, a Supergirl não é cachaceira, só nessa. O quadrinho já descaracteriza a personagem apenas por isso. E o filme segue nessa linha. Já digo que não li a HQ. Não comprei porque a Panini publicou capa dura, e estava cara. Então, não sei muito a respeito da fidelidade do filme com relação ao quadrinho.
A Supergirl de Milly
Alcock já tinha aparecido no final de Superman de James Gunn bebaça, e o
filme segue a trajetória da personagem. Traumatizada por ter testemunhado a
destruição de Argo City e pela morte de seus pais, Kara vive viajando para
planetas com sóis vermelhos, pois assim pode se embriagar à vontade, sem seus
poderes. Sua tranquilidade termina quando encontra a garota Ruthye,
interpretada por Eve Ridley, que quer vigar a morte de seus pais pelo líder dos
bandoleiros Krem (Matthias Schoenaerts). Quando Krem fere Krypto com um dardo
envenenado, Kara tem de conseguir o antídoto em três dias, senão sem
cachorrinho morrerá. E assim Supergirl e sua sidekick Ruthye partem em
busca de vingança.
Vale dizer que nas HQs Krypto
não é o cachorro da Supergirl, ele é o cão do Superman mesmo. Supergirl tem
dois outros mascotes, Raiado, o supergato, e Cometa, o supercavalo. Cometa
inclusive foi interesse amoroso da Supergirl porque na realidade ele era um
centauro que foi transformado em cavalo por uma bruxa. Eventualmente, o Cometa
voltava à forma humana, e eles se pegavam. Coisas da Era de Prata...
Voltando a falar do
filme, ao meu ver, ele é um filme ok, de bom para mediano. As opiniões sobre o
filme têm sido bem divididas, alguns o considerando muito bom e outros, uma
bosta. Não achei o longa tão ruim assim, mas como adaptação ele não é muito feliz
porque a Supergirl clássica dos quadrinhos não é uma garota bêbada rebelde; ela
sempre foi certinha. A personagem até foi ganhando mais camadas com o tempo – por
exemplo, chegou a ser parte da Tropa dos Lanternas Vermelhos nos quadrinhos,
porque tinha raiva latente –, mas no geral sempre foi mais virtuosa. Entendo,
porém, que ela ser representada como uma adolescente rebelde tenha mais apelo
com a geração Z, que parece ser o público-alvo desse filme.
Outra coisa que a
Supergirl faz nesse filme que a descaracteriza bastante: ela mata. No terceiro
ato, ela convence Ruthye a não matar Krem, mas, quando a menina não está olhando,
ela mete a espada no bucho do bandido e depois o degola. Isso é algo que a
Supergirl dos quadrinhos jamais faria. E ela não mata só o Krem, mata vários
dos bandoleiros, inclusive com a visão de calor. Isso é que é engraçado:
criticam Zack Snyder pelo Superman de Henry Cavill ter matado o Zod, e eu
concordo, acho que o herói não deve matar mesmo, mas a Supergirl também mata na
maior, e está tudo bem. E esse negócio do Superman matar é bem controverso. Ele
também matou o Zod de Terence Stamp em Superman II, com Christopher
Reeve. Tudo bem que, na versão de Richard Donner, o Zod aparece vivo depois,
mas, na versão para o cinema, de Richard Lester, ele realmente mata o vilão, e
quando ele está sem poderes, ainda por cima. Superman também mata o Zod e seus
comparsas nos quadrinhos, os expondo à kriptonita, na fase de John Byrne, mas
isso pelo menos teve consequência. Ele se exila no espaço para se autopenitenciar.
E em O que aconteceu com o Homem de Aço, Superman, após matar o Sr.
Mxyzptlk, desiste de seus poderes e ainda diz: “Ninguém tem o direito de matar,
principalmente o Superman”. Pois é, se o Superman não tem o direito de matar, a Supergirl também não tem, e ela passa o cerol no filme.
O filme é dirigido por
Craig Gillespie, do remake de A Hora do Espanto, Eu, Tonya
e Cruella, que é sim um ótimo diretor, com estilo próprio, mas que em Supergirl
parece ter se contentado em ser um diretor de aluguel; o filme tem muito
mais a cara de James Gunn. O roteiro a cargo de Ana Nogueira, filha de brasileiros
que nunca tinha escrito nada antes. O filme mistura quatro gêneros, ao meu ver:
super-herói, fantasia espacial, faroeste (lembra muito Bravura Indômita, com John Wayne) e road movie pós-apocalíptico
estilo Mad Max.
Há problemas de roteiro
e furos? Sim, um exemplo é quando a Supergirl é envenenada, mas ele está em um
planeta de sol amarelo. Em tese, deveria ser invulnerável a venenos. No
terceiro ato, ela vai parar em um planeta com sol verde, sem muito contexto. A
gente não sabe se aquele sol é de kriptonita. Não me lembro de ter lido uma
história em que existe um sol verde, seja nas histórias do Superman ou da
Supergirl. Até na Era de Prata, em que há muitas histórias absurdas, os
roteiristas preocupavam-se em explicar as maluquices. No filme, só surge a
porra de um sol verde do nada.
E Jason Momoa como
Lobo? Ele está muito bem, e foi um dos acertos do filme. Entretanto, é aquela coisa:
Lobo é um personagem que só funciona na galhofa. Não dá para levar a sério. O
Superman de David Corenswet aparece em momentos pontuais do filme e na cena
final, mas tem boas participações. O ponto mais fraco do filme é o vilão. Krem
é um antagonista clichê e sem carisma, do tipo “mau porque é mau”, que no final
morre na praia.
Em suma, Supergirl é um filme que vale como entretenimento. Talvez valha a pena assistir em uma matinê, em que o ingresso é mais barato. Para o azar de James Gunn, ele está indo muito mal nas bilheterias. Teve uma abertura bem ruim, ficando abaixo de Flash. Ou seja, ele não conseguiu agradar os nerds, nem o grande público. Também não é exatamente um filme para criança, e a geração Z está ignorando. Falha em atingir todos os públicos. Para piorar, Milly Alcock deu umas entrevistas lacrando, dizendo que as críticas ao filme seriam por conta do machismo, o que só agravou tudo. No Brasil, foi ainda pior, com o copo do Cinépolis, que se assemelhava a uma suposta rola.
Também criticaram muito
a aparência da Milly, dizendo que ela era baranga e parecia o moleque da série O
Elo Perdido, mas isso foi maldade. Ela é bonitinha, mas realmente fica abaixo
das intérpretes anteriores da Supergirl em padrão de beleza.
Enfim, provavelmente Supergirl
deverá ser um dos filmes nerds mais controversos do ano e que vai dividir
opiniões e os fãs. Assistam (ou não) para terem sua própria opinião. O DCU de
James Gunn, porém, já começa a dar sinais de que pode naufragar. Nota 7 de 10.























