🎵...And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence...🎵
Esse título nasceu de um jeito
meio ridículo, e talvez eu devesse começar admitindo isso.
Não foi uma grande epifania, nem
uma frase que ouvi de alguém particularmente brilhante, foi só uma dessas
combinações de palavras que aparecem do nada, enquanto a cabeça está ocupada
com outra coisa.
"O silêncio também tem sotaque."
Eu anotei quase por reflexo, como
faço com várias ideias que provavelmente nunca vão virar nada. Só que,
dessa vez, a frase resolveu me perseguir. Fiquei olhando para ela tentando
entender se existia alguma ideia ali ou se era apenas uma frase de efeito
dessas que circulam pela internet acompanhada da foto de uma floresta e da
assinatura errada do Nietzsche. Esse texto nasceu exatamente desse exercício, não
tenho uma resposta, mas quero tentar dar sentido a isso sem trapacear.
Comecei pensando sobre silêncio,
e logo me peguei pensando sobre tradução. A gente vive repetindo que "o
silêncio diz muito", mas isso não me parece verdade há anos. O silêncio,
sozinho, não diz absolutamente nada. Quem fala é quem está olhando para ele.
Nós traduzimos o silêncio dos outros usando o nosso próprio dicionário
emocional, e é justamente aí que começam muitos mal-entendidos. Existem pessoas
que se calam quando estão magoadas, gente que fala sem parar justamente para
esconder que está magoada, quem desaparece por vergonha, orgulho, ou quem
desapareça porque simplesmente acredita que a ausência incomoda menos do que
uma despedida. O curioso é que, do lado de fora, tudo isso tem exatamente a
mesma aparência. Silêncio.
Enquanto respondia alguns
comentários do texto anterior, lembrei de Brilho Eterno de uma Mente sem
Lembranças. Não foi uma lembrança aleatória. Acho que aquele filme continua
me acertando porque ele nunca foi sobre apagar memórias. Sempre achei que ele
era sobre a arrogância de acreditar que conseguimos editar a nossa própria
história. Existe uma cena que nunca saiu da minha cabeça. Joel percebe que está
perdendo Clementine dentro das próprias lembranças e começa a correr
desesperadamente por elas, tentando escondê-la em memórias onde ela nunca
esteve. Aquilo sempre me pareceu uma metáfora perfeita para o que fazemos
depois de algumas separações. A gente revisita o passado inteiro procurando
provas de que aquilo foi verdadeiro. Será que ela realmente me amou? Será que
eu inventei metade daquilo? Será que a pessoa de quem sinto falta existiu ou
foi uma versão construída pela minha própria memória? Acho fascinante que um
relacionamento possa terminar e, ainda assim, continuar alterando o passado.
Os acontecimentos permanecem exatamente os mesmos, mas o significado deles muda
completamente. É como se a memória também tivesse sotaque, e ele fosse mudando
conforme a pessoa que a escuta deixa de ser quem era.
Durante muito tempo interpretei a
ausência de comentários como ausência de impacto, parecia uma conclusão lógica.
Se ninguém respondeu, provavelmente ninguém foi tocado. Só que, com o tempo,
começaram a aparecer pessoas dizendo que acompanhavam o blog havia anos, que
lembravam de textos específicos, que nunca tinham comentado por timidez,
preguiça, falta de tempo ou simplesmente porque acreditavam que não tinham nada
de suficientemente inteligente para acrescentar. Achei engraçado descobrir isso
porque passei quase dois anos fazendo exatamente a mesma coisa neste blog, como
que confessei no texto anterior. Nunca passou pela minha cabeça que aquele
silêncio pudesse ser interpretado como desinteresse, Era só o meu jeito de
ocupar aquele espaço. Talvez por isso hoje eu desconfie um pouco menos dos
vazios. Nem toda ausência é um abandono. Algumas pessoas apenas participam em
outro idioma.
Escrever também é um idioma
estranho. A gente adora dizer que escreve sobre cinema, política, quadrinhos,
infância, livros ou qualquer outro assunto respeitável. É uma mentira muito
elegante. Ou, pelo menos, uma “meia mentira”. Ninguém passa quinze horas
escolhendo uma vírgula porque está preocupado com um filme do James Bond ou com
um gibi do Batman. Isso é só a embalagem que encontramos para transportar
alguma coisa mais difícil de admitir. O autor costuma apontar para o tema
enquanto tenta desesperadamente impedir que o leitor olhe para ele. É quase uma
mágica barata. "Não reparem em mim. Prestem atenção nesta excelente
análise sobre um personagem fictício." Quase sempre existe alguma
confissão escondida atrás da crítica mais racional do mundo. A diferença é
que alguns escritores fazem isso conscientemente. Outros passam décadas
acreditando que estavam escrevendo sobre política quando, na verdade, só
estavam tentando resolver uma conversa que nunca tiveram coragem de ter.
Talvez seja por isso que continuo
gostando tanto dessa frase que apareceu do nada e coloquei como título. Ela
continua me parecendo verdadeira, mas por um motivo completamente diferente do
que imaginei quando a anotei. O silêncio não tem um significado universal. Ele
tem sotaque. E entender alguém talvez seja justamente isso: passar tempo
suficiente ao lado dela para finalmente perceber que aquilo que parecia
distância era apenas cansaço, que aquilo que parecia desprezo era vergonha, que
aquilo que parecia indiferença era uma forma torta de proteger alguma coisa que
ela ainda não sabia dizer em voz alta. Talvez poucas formas de intimidade sejam
maiores do que aprender a escutar aquilo que o outro nunca conseguiu colocar em
palavras...
