Estufa – Por que nunca subestimar a Hera Venenosa?

 



Criada por Robert Kanigher e o artista Sheldon Moldoff, em Batman vol.1 nº181 de junho 1966, Pamela Isley, a Hera Venenosa, é uma das personagens mais icônicas da galeria de vilões do Batman.

Na maioria das versões, ela é representada como uma femme fatale e também ecoterrorista, usando seu controle sobre plantas e sedução para punir aqueles que ela julga responsáveis por danos ao meio ambiente. Essas motivações permitiram a personagem evoluir em uma antagonista bem mais complexa, com algumas histórias (especialmente atuais) tendo ela andando na linha entre uma vilã e uma anti-heróina.


Como a Hera irá ser a vilã principal do futuro arco do Batman, Bad Seeds (Sementes do mal), decidi aproveitar essa ocasião para fazer uma review de uma das minhas histórias favoritas envolvendo o Batman e a rainha das plantas. Esse arco é Estufa, uma história de duas partes que foi publicada nas edições 42 e 43 da fantástica série antológica do Legends of the Dark Knight ( traduzida aqui no Brasil como Um conto de Batman). Seu escritor foi John Francis Moore enquanto sua arte foi feita por P.Craig Russel.



Trama

Durante um evento de caridade na Universidade de Gotham, o regente da instituição, Ian Spencer, comete suicídio, sendo visto por todos presentes no local, incluindo Bruce Wayne

Embora tenha falhado em salvar Spencer, Batman nota Pamela Isley no meio da multidão.




Desconfiado que sua inimiga é responsável, Batman faz uma visita a Pamela em sua estufa, onde ela diz ter se reabilitado e deseja ter uma vida normal. Um tempo depois, a ex-Hera Venenosa entra em contato com Batman, revelando que Spencer era seu chefe, mas que tinha dividas com a mafiosa Dominique Alioso. Quando ela acidentalmente criou uma nova droga, Spencer tentou pagar seu débito. Mas, sua ação apenas fez com que Dominique forçasse Pam a produzir mais drogas.



Com suspeita de que Dominique foi o assassino de Spencer, Batman decide captura-lo e provar a inocência de Pamela. No entanto, o homem morcego mal sabe que a ruiva tem um esquema próprio pelas suas costas.



Hera realista vs Hera fantasiosa

Um dos primeiros detalhes que poderá ser notado pelos leitores é a forma como Hera Venenosa é representada nessa história,

Ao invés de uma vilã sensual, fantasiada de verde e com poder de manipular plantas, John Francis Moore optou por uma abordagem mais realista, com Pamela sendo apresentada como uma mulher visualmente normal, com suas habilidades se resumindo apenas ao uso de feromônios e toxinas, que fazem suas vitimas sofrerem alucinações dela como essa “deusa da natureza” que os fãs conhecem.



Semelhante aos filmes do Batman do Nolan e do Reeves, essa decisão irá dividir a opinião de fãs, pois tem muitos que não aprovam essa abordagem mais realistas para Batman e seu mundo, preferindo algo mais fantasioso do escapismo de histórias de super heróis.

Pessoalmente, apesar de optar por algo mais fiel a essência fantástica das hqs, não me incomodo com versões menos fantasiosas de personagens, se os personagens forem bem representados.

No caso da Hera Venenosa de Estufa, a ausência de suas habilidades mais exageradas consegue encaixa-la nessa trama noir, permitindo a história seu lado de femme fatale, com ela sendo essa figura no centro do misteriosos, com o detetive (nesse caso Batman) e leitores não tendo ideia de qual são suas intenções. 





Hera controladora vs Hera ecoterrorista

Outra característica diferente da Hera nessa história é sua motivação. Normalmente ela é movida pelo desejo de vingança contra aqueles que prejudicam as vidas da flora no mundo. Mas, em Estufa, seu objetivo tem mais haver eliminar seus chefes e assumir o controle do tráfico de drogas.



Isso pode parecer uma motivação mas próxima de personagens mafiosos como Pinguim ou Máscara Negra do que Hera Venenosa, porém o roteiro de John Francis Moore faz isso fazer sentido, conectando essa motivação com a backstory da Hera.

Antes antes de ser a mulher-planta, Pamela Isley era uma estudante de botânica que foi vítimas dos experimentos de seu professor, Jason Woodrue, o Homem Florônico.

Embora esse detalhe tenha chegado a ser adaptado em versões como Batman & Robin, um ponto que acaba sendo pouco abordado é como Jason seduziu e manipulou Pamela, tornando sua transformação em uma alegoria a questão do ciclo de abuso (onde uma vítima de abusos se tornar abusadora de outras pessoas). 


É fácil sentir pena pela situação que Hera passou, assim como compreender o desejo dela em não querer se sentir inferiorizada depois dessa experiência tão traumática. Mas é a forma como ela escolhe responder a esse trauma, manipulando outros sem empatia, que a torna uma vilã.

Obs: Acho que esse aspecto da Hera também explica muito da relação dela com a Arlequina, dando pra interpreta que a Pam se identifica com Harlen e os abusos que ela sofre nas mãos do Coringa. O desejo da Hera em querer convencer a palhacinha a sair dessa relação toxica é genuíno, embora a forma como ela tente não seja a mais saudável.



A vulnerabilidade do Batman

Tendo falado tanto da Hera Venenosa, vocês está se perguntando: E o Batman? Qual o papel dele nessa história?

Como em algumas histórias do Legends of the Dark Knight, o arco do Batman explora um lado mais vulnerável, nesse contexto envolvendo sua compaixão.

A princípio, é admirável ver Batman estando disposto a livrar Pamela de Dominique e limpar seu nome, demonstrando seu senso de justiça para com outros, incluindo seus inimigos.



Mas, aos poucos, o homem morcego vai percebendo que suas decisões foram influenciadas pelos feromônios de Hera. Sob o encanto dela, Batman vai demonstrando uma obsessão por Hera, que ele começa a sofrer alucinações cometer enganos, além de demonstra uma atitude bem mais agressiva quanto pessoas chamam atenção para seu comportamento. Ele chega até mesmo quase explodir com o Gordon, demonstrando como a manipulação da Hera o afetou emocionalmente.






Isso demonstra o quão o desafio que Pamela representa para o Batman, com ela tendo virado uma das qualidades heroicas do morcego ele, tornando seu eventual conflito em algo bem mais pessoal. Não se trata de luta física, mas sim um duelo entre força de vontade do detetive contra a sedução da Hera Venenosa.

A subestimada arte de P.Craig Russel

Quando se fala de artistas do Batman, P.Craig Russel provavelmente não é um dos primeiros nomes a vir na mente de alguns. Isso é uma pena, pois “Estufa” é um dos melhores exemplos de seu talento como desenhista.

Enquanto seus designs para personagens não sejam os mais impressionantes, o ponto que ele se destaca é na atmosfera, criando cenário de drama noir, com silhuetas e contraste de luz e sombra.



A arte de Russel é um dos pontos altos do confronto do Batman contra Hera, com o desenhista usando a perspectiva do cruzado encapuzado sob o encanto da vilã para criar visuais bem surreais e criativos.



Considerações finais

O arco “Estufa” pode não ser o que alguns fãs esperariam de uma história envolvendo a Hera Venenosa, mas isso não o torna ruim. Em sua essência, é um excelente mistério noir, que explora tópicos bem reais quanto a luxuria, abuso e manipulação emocional, ao mesmo tempo que aprofunda a psicologia tanto do herói quanto da vilã.

Ela pode não ser uma das histórias mais icônicas do Batman, como Longo Dia das Bruxas ou Ano Um, mas é uma história que demonstra o potencial da Hera Venenosa como uma vilã principal, algo que espero que Bad Seeds consiga recriar.

Nota: 9/10



Então é isso? Qual a opinião de vocês quanto a Batman: Estufa? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões nos comentários abaixo...