Quais grupos os X-men representam?

 



Não há como negar que os X-men são um dos grupos mais progressistas das histórias em quadrinhos. Todo conceito em volta, de serem mutantes que lidam com discriminação da humanidade serve como uma alegoria para vários tópicos presentes na sociedade, como o preconceito, opressão de minorias, e luta por direitos de identidade.



Essa característica ficou ainda mais prevalente no grupo após Giant- Size X-men nº01, onde a dupla criativa do Len Wein e Dave Crockum substituíram a maioria dos X-men por um elenco mais velho e composto por personagens de várias partes do mundo. Isso estabeleceu para vários novos personagens que viriam a compor o universo dos X-Men.



Pode-se dizer que o sucesso da história foi simplesmente por trocarem os X-men originais (que eram jovens brancos americanos) por um grupo mais diversificado, permitindo que o grupo pudesse agradar a diversidade de leitores em todas as partes do mundo.

Mas, quando se vê os X-men, como indivíduos, percebe-se que a popularidade dele não se deve apenas aos países que representam, mas aos grupos específicos desses locais e suas histórias envolvendo a luta contra opressão e preconceito. Isso permite que a hq do X-men expanda sua temática além do conflito de humanos e mutantes, permitindo que o leitor possa identificar as situações que mutantes passam com qualquer outro evento envolvendo minorias raciais, de gênero, corpo físico, entre outras.




Com base nisso, meu texto irá falar sobre cada grupo e ideal representado pelos X-men.

Já aviso que nem todas as informações podem ser confirmadas como a intenção dos autores, sendo apenas algo baseado na minha interpretação.

Dito isso, vamos começar com a pergunta... quais grupos e minorias os x-men representam?


Idealista vs supremacista (Professor Xavier vs Magneto)




Começando pelas duas figuras que são o núcleo do conflito principal dos X-men: Professor Xavier e Magneto. Não é segredo para o público que a dinâmica dos dois foram inspiradas por Martin Luther King e Malcom X, dois líderes do movimento de igualdade racial.



Enquanto tem alguns, incluindo o famoso roteirista Chris Claremont, contradizem essa afirmação, dizendo que a verdadeira inspiração para os personagens foram David Ben-Gurion e Menachem Begin (dois líderes de Israel), a ideia básica continua a mesma, com os dois representando duas ideias opostas diante a questão da luta contra o preconceito. Enquanto Magneto vê os mutantes como superiores, Xavier acredita na coexistência entre as duas raças, buscando soluções mais diplomáticas, ao invés de ações extremas.

 



Jovens revolucionários (Kitty Pryde)




Por ser a integrante mais jovem, dá pra notar que a Kitty Pryde foi criada com o propósito de ser uma avatar para o público alvo dos quadrinhos (crianças e adolescentes), um personagem com o qual os leitores pudessem se enxergar.

Porém, a escolha da idade da personagem também pode ter relação com o fato que jovens eram, na maioria dos casos, protagonistas de vários protestos, incluindo movimentos raciais e demanda para o fim da guerra no Vietnã.


 

Logo faria todo sentido ter uma heroína adolescente como parte de um grupo que luta contra opressão e discriminação.

A presença de Kitty encaixa com a ideia progressista de ensinar nova geração sobre as falhas da original, para que possam criar um sistema melhor no futuro.



 

Reprimidos da alta classe (Anjo)



Em contraste com Giant Size, os X-men originais começaram sendo arquétipos da época, sem muita qualidade que os tornassem únicos dos outros. No caso de Warren Worrington III, o Anjo, ele era o Tony Stark do grupo, o galã riquinho, o tipo de figura que não se associa com grupo de minorias oprimidas (maioria dos casos são os membros da elite que são os opressores).



Porém, conforme autores foram desenvolvendo personagem, Warren se tornou uma alegoria a ilusão que muitos tem quando se trata de fama e status. A primeira vista ser rico e popular pode parecer um sonho realizado. No entanto, como mostrado em várias situações nas redes sociais, esse status só se mantém conforme a pessoa se mantém de acordo com a opinião de seus seguidores. Na hora que ele expressa uma opinião polêmica, pode ter um efeito em sua imagem.

No caso do Anjo, ele pode ter sido um milionário popular, porém sua fama logo começou a passar por fases negativas, como quando foi revelado que ele era um mutante, e também financiador do X-Factor (que eram vistos como caçadores de mutantes para o publico), uma mentira que prejudicou tanto ele quanto a confiança do publico em seus amigos (o que contribuiria para sua transformação em Arcanjo).






Falando em sua transformação em Arcanjo, vale citar que o estopim dela, o Warren perdendo suas asas foi causada por Cameron Hodge, um colega dele que se revelou um ativista anti-mutante, cheio de ódio e inveja da popularidade do loiro, o que demonstra como o preconceito pode ser encontrado entre classes elite, porque esse sentimento toxico nasce das inseguranças e inveja em relação a outros.

 


Deformados e puberdade (Fera)



Outro detalhe que foi melhorado de forma significativa nas futuras histórias dos X-men foi a forma como mutações eram usadas como alegorias para tipos de deformidades físicas. No início, os mutantes não possuíam aparências que seriam vistas como desconfortáveis.

O mais próximo disso era o Fera, devido aos seus pés grandes e aparência similar a de um macaco, mas eram raras histórias que mostravam Hank sofrendo preconceito por causa de sua aparência.



Esse detalhe não só foi corrigido em histórias futuras como também puxado para um próximo nível quando Hank, ao tentar alterar sua aparência com um soro espacial, acaba fazendo sua mutação evoluir, tornando-o no furry azul que nós, fãs, conhecemos.



A consequência da ação de Hank, além de trágica, pode ser vista como uma advertência sobre os riscos de tentar, imprudentemente, alterar seu físico apenas para atender a expectativa de outros.



Comunidade LGTB (Homem de Gelo)



Dos membros originais, Homem de Gelo era apenas o alivio cômico do grupo, o jovem que escondia sua insegurança através de seu humor.

Com o passar das histórias, foi sendo mostrado uns detalhes curiosos do personagem, principalmente no relacionamento com seus pais, que não aprovavam nada o fato de Bobby ser um mutante (algo que levou a cena icônica do X-men 2). 



Intencionalmente ou não, esse aspecto do personagem criou um paralelo com um drama de indivíduos da comunidade lgtbt,  e os dilemas que eles encontravam ao revelarem esse aspecto para outros. 

Essa semelhança se tornou uma representação mais forte quando, em 2013, os quadrinhos revelaram que Bobby era gay, e seu humor e atitude mulherengas eram formas dele tentar esconder esse lado. 



Naturalmente essa revelação gerou uma tsunami de crítica. Fãs veteranos (e os grifters) perderam a cabeça, acusando a mudança não condiz com o Bobby e “arruinou” o personagem.

No meu caso, eu discordo totalmente com essas críticas, não só por experiência com casos semelhantes (alguns colegas tiveram relacionamentos antes de se revelarem gays ou bissexuais) mas também  ignora o ponto que a história do  Bobby, mostrando o efeito que anos de repressão podem ter num individuo, impedindo de ser honesto consigo mesmo e forçado a se encaixar no padrão exigido por outros. 

O Bobby sempre foi um o X-men que usava humor para distrair as pessoas de suas outras qualidades, como representante desses dilemas, faz todo sentido, com o drama dele com os pais (que já não gostam do filho deles ser um mutante) expondo a situação que muitos indivíduos da comunidade LGTB costumam passar ao revelarem sua sexualidade para amigos ou famílias, especialmente se esses tiverem uma postura mais conservadora.



A partir disso, os momentos onde Bobby deixa de lado sua atitude zoeira e abraça seu potencial como um mutante ômega, e também um herói confiante, tem muito mais impacto, pois mostra ele finalmente acreditando em si mesmo e “revelando seu verdadeiro eu” para as pessoas.

Imigrantes russos (Colossus)



Para a maioria dos fãs Colossus é apenas o integrante fortão dos X-men, com uma força equivalente ao seu coração bondoso.  

Um fato que poucos devem saber foi a importância que o mutante russo teve para a época em que foi criado, quando o mundo ainda estava dividido pela Guerra Fria entre Estados Unidos e a União Soviética. Para gerar propaganda capitalista, os quadrinhos representavam vários de seus vilões se originando da Rússia (ex: Dinamo Escarlate, Kraven e Camaleão). Até mesmo heróis como a Viuva Negra começaram como antagonistas antes de se redimirem.








Embora Piotr tivesse aspecto bem estereotipados (ele ser um fazendeiro, todo musculoso, e com o sobrenome Rasputin), ele não tinha interesse nos conflitos políticos de seu país. Ele era apenas um cara gentil que ajudava aqueles precisavam e adorava arte.



Sua decisão de lutar ao lado dos X-men acaba gerando certos conflitos entre ele não só com o governo russo e seu povo (com alguns considerando-o um desertor) mas também com os americanos, com alguns desconfiando dele não só por ser um mutante mas também por sua nacionalidade. 




Uma clara crítica ao nacionalismo exagerado e como leva a pessoas a perseguirem e discriminarem outros pelas ações de seus países, algo em casos históricos como os imigrantes japoneses nos EUA durante a Segunda Guerra ou mulçumanos após o 11 de setembro.



Semelhante a personagens como o Capitão América, Colossus demonstra a falha dessa visão, mostrando como a postura de uma pessoa nem sempre é a mesma que a postura de seu governo.

Negros e afro-americanos (Tempestade)



Sendo uma das heroínas negras mais conhecidas da cultura pop, obviamente que a Tempestade age como uma representante dessa comunidade.  Onde ela se destaca é a forma que ela representa tipos de grupos diferentes de negros, sendo filha de um fotógrafo afro americano e uma princesa do Keyna. Isso permite as histórias da Tempestade tocarem em tópicos diferentes quanto as injustiças que essas pessoas sofreram, desde a discriminação na América ao imperialismo na África do Sul.




Isso é demonstrado em sua origem, com ela e seus pais tendo se mudado do Harlem para Cairo, apenas para ela perder seus pais quando um ataque de um avião francês destruiu a casa deles.  É uma tragédia que pode ser vista de como preconceito e opressão podem se manifestar em qualquer lugar.




Toda jornada da Ororo após essa perda, com ela passando período como uma ladra de rua, reencontrando a tribo de sua mãe no Keyna, mas optando por deixar o lugar onde ela era tratada como uma deusa para se unir aos X-men, torna a heroína num simbolo da resistência coragem negra/afro-americana para enfrentar os problemas do mundo.



Hafefóbicos (Vampira)



O poder da Vampira é uma espada de dois gumes. Ela poder absorver o poder de qualquer um com um simples contato físico pode ser uma vantagem, porém a condena a viver isolada e incapaz de poder tocar nas pessoas.

Apesar do aspecto mais fantasioso de seus poderes, a incapacidade dela em tocar nas pessoas, a ansiedade e a sensação de solidão, pode ser associada com indivíduos que sofrem de hafefobia (medo de contato físico), assim como indivíduos introvertidos. Embora esse grupo não tenha uma história de perseguição como outros nessa lista, sua atitude pode ser mal-interpretada por outras partes, fazendo enxergarem o indivíduo como esquisito e anti-social, sem entender sua perspectiva.



O comentário representado pela Vampira se torna ainda mais evidente no X-men Evolution, onde ela foi reimaginada como uma jovem gótica sarcástica.



Franceses & Cajun (Gambit)



Quem já viu personagens como Pepe Le Pew e Lumier (de Bela & Fera), dá pra notar que os personagens tem uma características parecidas, como o fato de serem franceses galãs e todo mulherengo. 




Essa representação mútua não é coincidência. Ela faz parte de um esteriotipo sofrido pelos franceses, com a imagem deles sendo associada como sujeitos malandros românticos e manipuladores.



A primeira vista, essa parece ser a caracterização de Remy LeBeau, o Gambit. Ele pode não ser francês (ele é cajun, um grupo que vive na região de Louisiana, e usam dialeto francês local), mas é, superficialmente um sujeito astuto, sedutor e um expert em furtos e roubos (ele é membro do Clã dos Ladrões).



No entanto, por baixo de seu jeitão descontraído, Gambit tá longe de ser um galinha preguiçoso.  Ele é um homem com um coração de ouro pelos seus entes queridos, carregando muito traumas quando inocentes sofrem por suas ações. Ele não é perfeito e toma decisões que podem serem vistas como antipáticas (ex: Não revelar sua identidade para sua noiva, quando essa perde sua memória após ele ter conseguido desperta-la de um coma), mas ele as faz pra evitar que as pessoas se prejudiquem por se envolverem com ele.



Ele pode parecer uma personificação do estereótipo francês, mas na verdade é uma completa subversão dessa visão incorreta.

Romani & religiosos (Noturno)



Já falei várias vezes que o Noturno é um dos meus super heróis favoritos, e também o melhor X-men de todos. Sua figura pode ser associada a vários grupos marginalizados, sejam por questão de cor de pele, aparência física ou até mesmo nacionalidade (lembrando que Noturno foi criado numa época pós-Segunda Guerra, quando Alemanha não era bem vista por muitos e o país estava dividido pelo Muro de Berlim entre capitalistas e soviéticos).

Entretanto, eu diria que os dois grupos representados pelo elfo azul são os religiosos e os romani.

O primeiro é bem obvio, visto que Kurt é um dos mais conhecidos heróis católicos da Marvel (junto com o Demolidor).



Já o segundo grupo é pouco tocado em relação ao personagem. Embora seja filho biológico da Mística e Sina, Noturno foi criado  por uma familia romani (ou ciganos, se querem ser politicamente incorretos), que possuem uma longa história na Europa sendo vitimas de desconfiança e discriminação devido a aspecto como a cor de pele, seus costumes religiosos e idioma.



Enquanto a história foca mais no preconceito que ele sofre por sua aparência do que sua conexão romani, dá pra notar uma certas sugestões, como o fato que, em sua origem, Kurt passa a ser caçado pela população, após eles o incriminarem por assassinatos cometidos por seu irmão (que tinha sido possuído por um espirito maligno). O fato que seu irmão foi usado nessa trama e ele e Kurt são julgados de forma tão injusta pela população reflete a visão estereotipada que romani costumam ser subjugados, sendo acusados de serem ladrões e vagabundos, e, como muitas vítimas de preconceito, são usados como bode expiatório para o crime de outros.

 

Soldados pós-Vietnã (Wolverine)



Wolverine dispensa qualquer apresentação. Ele é, praticamente, a face dos X-men na cultura pop e, curiosamente, o que menos parecer fazer parte de um grupo vítima de preconceito. Sim Canadá pode ter grupos que lidam com discriminação, mas Logan não pertence a nenhum deles. Ele parece mais um herói de filmes de ação dos anos 80, um anti-herói que resolve seus problemas

Quando analisado a atitude do personagem, sua história com a Arma X e todo seu passado complicado, fica claro que ele, tal como figuras como Justiceiro e John Rambo, age como um representante de soldados da Guerra do Vietnã, que não sofreram rejeições e críticas quando voltaram da Guerra, como sentiram-se abandonados pelo governo americano, com alguns ainda sendo deixados com várias traumas por causa da guerra (como demonstrado no filme Rambo).



Feministas (Jean Grey)



É irônico olhar para os X-men como um dos grupos com o maior número de heroínas fortes e badasses, visto como antes era completamente o oposto: Os X-men originais só tinham a Jean Grey como integrante feminina e ela, infelizmente era um produto da época: Ela não tinha papel algum na história exceto ser a garota que era disputada pelos personagens masculino. Os poderes eram bem fracos e ela era reduzida a ser uma assistente do Professor X.



Apropriadamente, conforme os quadrinhos foram refletindo o movimento feminista do final dos anos 70, desenvolvendo suas personagens femininas, e criando novas em papéis de destaque, Jean Grey foi evoluindo em uma das integrantes mais poderosas dos X-men.

O auge foi na Saga da Fênix, onde ela se torna hospedeira da Força Fênix, sendo responsável por salvar o universo na primeira aventura dos X-men com os Shiar.



Essa transformação levou a Saga da Fênix Negra, onde a trama envolve essa heroína tendo sua independência tirada pelas manipulações do Clube do Inferno e, em seguida, pela corrupção da Fênix. As transformações que ela passa representam os dois extremos da situação, indo de uma escrava controlada pelos vilões (com um visual nada sutil) para uma entidade descontrolada e sem compaixão pelos humanos. Ambas situações tem a Jean sendo usada por outros.



Por isso seu sacrifício tem tanto significado. Não se trata dela morrendo para motivar um personagem masculino como Scott (um caso de Mulher na geladeira), mas sim ela reclamando sua independência e garantindo que a Fênix não possa mais ameaçar seus amigos, muitos menos usando ela como hospedeira.



Autista (Ciclope)



Finalmente chegamos ao Ciclope. Embora seja conhecido por ser o líder da equipe e o primeiro aluno do Xavier, Scott Summers oficialmente não representa nenhum grupo marginalizado, exceto os mutantes. Ele é apenas um jovem caucasiano americano.

Porém, existem fãs que especulam que Scott possa ser autista. Essa teoria se deve a personalidade hiperfocada do X-men, seu comportamento rígido e dificuldade social fora de ambientes de comforto (no caso do Scott, são missões e situações de combate).


Sua incapacidade de controlar seus raios opticos podem ser vista como sua necessidade de se manter focado. Sem seus óculos, seu poder vem as cegas, como se Scott estivesse sendo tomado por seu medo e ansiedade. Algumas histórias até revelam que a causa dessa dificuldade do Scott em controlar seu poder é por ele se recusar a superar traumas que ele carrega, julgando que, se abrir mão deles, ele se tornaria menos efetivo. 



Claro que isso é tudo especulação e pode-se argumentar que essa caracterização do Ciclope é atribuída aos traumas que ele sofreu na infância, além do treinamento rigoroso que Xavier fez ele passar (fazendo dele uma criança soldado do que um autista). Mas, não deixa de ser uma teoria interessante, demonstrando como as características de um personagens podem criar conexões com grupo que não chega a ter heróis como representantes (tem alguns que fãs interpretam como autistas, mas não chegam a serem confirmados).

Então é isso! Para vocês, o que os X-men representam? Quais grupos vocês acham que mutantes personificam como uma alegoria? Sintam-se a vontade para colocar suas opiniões e ideias nos comentários abaixo.